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Posts by Category : Identidades não-binárias

Identidades de gênero que poderiam ser mais populares  0

Uma combinação das bandeiras gênero-dissidente, gênero-cor e paragênero.

Existem centenas de termos relacionados a gênero, e por conta de uma série de fatores – como idade, popularidade de quem fez ou espalhou tais termos e originalidade em relação a outros termos existentes – alguns vão ser mais populares e conhecidos do que todos os outros.

Nesta postagem, eu gostaria de destacar termos que vejo que poderiam se encaixar a muitas situações que presenciei, mas que são conhecidos e/ou utilizados por pouquíssimas pessoas.


Uma bandeira composta por cinco faixas horizontais, nas cores vermelha, laranja, amarela, verde e azul. Todas as cores possuem tons relativamente claros. A proporção das faixas é 2:3:8:3:2.

Bandeira centrigênero

Centrigênero se refere a qualquer gênero entre ou no meio de um ou mais gêneros. Isso significa que identidades como andrógine, neutrangi, androx e aporagine podem ser consideradas centrigêneros.

Mas além de poder agir como guarda-chuva, centrigênero dá a liberdade de alguém falar que seu gênero está entre outros sem ter que depender de cunhar uma palavra própria para isso. Alguém pode dizer que é centrigênero maverique/caelgênero, ou centrigênero nímise/femigênero/ceteroneutre/homem, por exemplo.

Também existe gênero-poção, mas o uso de centrigênero ou de gênero-poção vai depender do quanto a pessoa sente que seu gênero é apenas um ponto entre identidades diferentes em um diagrama ou uma mistura/mescla de outras identidades.


Ceterogênero é um gênero não-binário relacionado com masculinidade, neutralidade ou feminilidade. É uma identidade relativamente antiga, mas foi possivelmente ignorada por existirem outras formas de comunicar essas características, como femigênero, mascugênero e neutrois.

O que acho interessante em ceterogênero é que pode ser uma forma de dizer que a pessoa não é mulher, homem ou gênero neutro, ainda que tenha um gênero não-binário associado com características associadas com estes gêneros.

Por exemplo, identidades como mulher não-binárie/zenina e transfeminine podem informar feminilidade, mas também podem informar mulheridade, ou até mesmo uma separação de gêneros binários em sua identidade de gênero mas uma conexão com mulheridade ou feminilidade por conta de outros aspectos, como expressão de gênero, pautas políticas ou aspectos da transição. Pessoa não-binária feminina também pode acabar tendo tal abrangência. Esses são termos muito populares, e que por isso acabam sendo bastante abrangentes. Nonpuella/nonera é um gênero fortemente feminino completamente nada a ver com ser mulher, mas esta não é necessariamente a experiência da pessoa. Fingênero e femigênero informam que a pessoa possui um gênero feminino de forma mais maleável, mas colocam feminilidade como a característica primária da identidade. Por isso, ceterofeminine pode funcionar como uma identidade separada destas, sendo mais específica em alguns pontos e mais abrangente em outras.

Cinco faixas horizontais do mesmo tamanho: Roxa, rosa, cinza, azul e verde.

Bandeira ceterofluida

Além disso, é possível interpretar ceterogênero como uma espécie de identidade próxima/relacionada a femigênero, mascugênero ou gênero neutro, mas sem ser exatamente tais identidades. Juxtaneu existe (sendo que ainda é recente em comparação com ceteroneutre), mas os gêneros juxera e proxvir são mais relacionados com gêneros binários do que com feminilidade ou masculinidade por si só.

Também existe a identidade ceterofluida, que pode ser útil para quem só muda entre gêneros não-binários que podem ser classificados como ceterogêneros. Ceterofluide é um termo mais curto do que gênero-fluido entre femigênero, mascugênero e juxtaneu, por exemplo.


Empilhadore de gêneros ou hordidem é uma identidade poligênero caracterizada por alguém ir achando identidades de gênero que se encaixam e as colocando em uma “pilha”, de forma que a pessoa tem todas aquelas identidades de uma vez só (e possivelmente mais outras que não foram cunhadas ainda, que a pessoa não achou ou que nem sabe como descrever ainda).

Esta identidade é bem mais recente do que colecionadore de gêneros, um termo cunhado lá por 2015 e que é citado ou usado por bastante gente, onde a única diferença é a questão de colecionadore de gêneros ser apenas para pessoas cuja identidade de gênero muda de tempos em tempos.

Acredito que hordidem seja um termo útil por eu já ter visto muitas pessoas com dezenas de gêneros (e gêneros parciais, identidades que denotam ausência de gênero, etc.) que não se veem como pangênero por também não serem de vários gêneros e nem como colecionadoras de gênero por suas identidades não mudarem de tempos em tempos. Muitas vezes, são até pessoas que frequentemente vão atrás de termos novos para adicionar às suas pilhas, e/ou que cunharam várias identidades para poderem descrever mais aspectos da sua.


Seis faixas horizontais do mesmo tamanho, começando com três tons de rosa e seguidas por três tons de azul. As faixas vão formando um degradê, de forma que as faixas centrais são mais claras e as faixas das pontas são mais escuras.

Bandeira femacha

Femache é alguém que é homem e mulher ao mesmo tempo. Não há especificação em relação a se este é um gênero como ambonec (que pode ser visto como um gênero ou como mais de um), ou se é referente especificamente a ter os gêneros homem e mulher (como alguém bigênero desses gêneros ou poligênero que inclui esses gêneros) ou a ser algo como gênero-poção ou andrógine/centrigênero de tais gêneros.

As únicas especificações são que ume femache não é especificamente 50% homem e 50% mulher, e que femaches não precisam só ser femaches (podem ter outros gêneros também).

Esta identidade me parece útil porque são várias as pessoas bigênero homem/mulher ou com outras experiências “mulher + homem” que podem não necessariamente se encaixar em andrógine ou ambonec. Além de ser uma identidade abrangente em relação a como alguém é mulher e homem, também é mais específica do que bigênero para quem tem estes dois gêneros, já que pessoas bigênero podem ter dois gêneros quaisquer.


Gênero-cinza é alguém que é parcialmente de um gênero não-binário ou sem gênero, mas que possui uma ambivalência natural em relação ao seu gênero e/ou à sua expressão de gênero. Pessoas gênero-cinza sentem possuir gênero, e inclinação ou desejo de expressá-lo, mas tal inclinação é fraca ou indefinível/indeterminada de certa forma, ou não é sentida pela maior parte do tempo, ou a pessoa gênero-cinza não se importa muito com sua inclinação.

Embora pareça ser algo meio específico ou complexo, o termo gênero-cinza foi feito para cobrir pessoas que não são totalmente agênero/sem gênero mas que ainda se encontram num espectro similar, da mesma forma que o termo gris/gray-a foi feito para abarcar pessoas a-espectrais que sentem alguma atração.

É relativamente comum ter pessoas com um gênero fraco, ou que se consideram basicamente sem gênero mas que possuem alguma conexão com gênero. A conexão parcial com ausência de gênero e não-binaridade está na definição para que não se confunda alguém gênero-cinza com alguém cis que não liga pra gênero (uma acusação que acredito que seja mais direcionada a pessoas casgênero hoje em dia), mas acredito que a definição possa ser resumida a ser alguém com um gênero fraco ou com uma experiência similar.

Desta forma, pessoas demigênero ou nanogênero que possuem um gênero parcial por ele ser fraco (e não por serem menores/parciais em relação a outros gêneros) ou pessoas gênero-Libra que sentem que sua conexão com algum gênero está mais para uma versão fraca de um gênero podem se dizer gênero-cinza, caso queiram.


Gênero-cor é algo que acaba sendo estigmatizado apenas por ser um xenogênero, mas é um termo bastante útil. Um gênero-cor é definido por remeter a uma cor ou a coisas que a pessoa relaciona com alguma cor.

Um fundo índigo com uma roda de cores em seu centro. A cor índigo cria um espaço na roda de cores.

Bandeira gênero-índigo

A questão é que isso pode ser usado para qualquer coisa. Pode ser usado como uma associação xenina, como algo sinestésico, como algo relacionado com outras identidades de gênero existentes, etc. Por exemplo, o termo gênero-índigo pode ser usado para descrever:

  • Um gênero definido por um tipo de masculinidade relativamente formal e adulta;
  • Um gênero similar a homem, mas que contém ao menos parcialmente algum elemento de androginia nele;
  • Um gênero que remete a frutas que são doces mas que não são necessariamente muito doces, como mirtilos, uvas, ameixas e amoras;
  • Um gênero definido por libertação e criatividade em relação às concepções tradicionais de gênero;
  • Um gênero não-binário fraco que remete a um céu vazio;
  • Um gênero que remete ao frio de uma noite de inverno pelo quanto é forte e difícil de ignorar.

Isso tudo vai depender de associações pessoais com a cor, mas também de como uma pessoa pode usar uma cor para descrever uma identidade de gênero. Ainda assim, acho que deu pra perceber como a identidade é versátil!


Gênero-dissidente ou gênero-inconformista é um gênero propositalmente similar a maverique, mas que também é definido por subversão intencional das expectativas de gênero da sociedade. Sua definição completa (ainda que resumida) é:

Uma experiência de gênero não tradicional (e não-binária) caracterizada pelo senso de desconexão e independência em relação a gêneros binários, e também pela intenção de subverter as expectativas de gênero da sociedade.

O motivo que vejo esta identidade como uma que poderia ser mais popular é que maverique é um gênero popular, e muitas pessoas não-binárias falam que querem intencionalmente confundir pessoas quanto ao seu gênero ou quebrar barreiras sobre o que é gênero ou coisas assim. Caso isso faça parte de sua experiência de gênero, gênero-dissidente expressa essas duas coisas em uma identidade só.


Gênero-estrela é outra identidade que pessoas rolam os olhos só de ver o nome, por conta do estigma contra xenogêneros, especialmente gêneros com adjetivos ou substantivos no nome. Enfim, gênero-estrela pode se referir a uma destas descrições:

  • O gênero de uma estrela;
  • Um gênero que não parece ser humano ou terrestre, por estar além da compreensão;
  • Uma identidade para quem acha que, não importa quantos rótulos para gênero inventarem, nenhum deles vai encaixar.
Um fundo azul escuro com uma estrela branca em seu canto inferior direito de onde saem três faixas curvas nas cores branca, azul clara e azul em direção à esquerda. No resto da bandeira, alguns brilhos brancos podem ser vistos.

Bandeira gênero-estrela

É comum ver essa primeira definição e pensar “ah não, que ridículo, a pessoa pensa que é ou quer ser literalmente uma bola de gás” sem ver qual a lógica ou o contexto desta definição. (Aliás, existem indivíduos que são kin com estrelas, mas isso não é o que gênero-estrela descreve. Ser de um gênero comparável a algo não significa ser kin com aquela coisa, embora pessoas possam ser os dois.)

A questão é que esta identidade foi cunhada quando havia pouquíssimo vocabulário para descrever gêneros fora da tríade homem/mulher/neutre, e mesmo vocabulário já existente como aporagênero e maverique era possivelmente pouco circulado. Assim, a pessoa que cunhou gênero-estrela estava tentando descrever um gênero distante dos binários a ponto de ser “alienígena”, e que era possivelmente grande e complexo.

Mesmo assim, as divagações de quem cunhou o termo e as definições que foram espalhadas por aí abrem portas para que gênero-estrela possa ser uma identidade que esteja descrevendo:

  • Alguém cujo gênero é difícil de entender por estar além de gêneros mais conhecidos;
  • Alguém cujo gênero é relacionado com o espaço;
  • Alguém cujo gênero parece ser extraterrestre;
  • Alguém que vê seu gênero como o gênero de uma estrela;
  • Alguém cujo gênero é potencialmente neutro, mas que também inclui ao menos feminilidade e masculinidade, ao mesmo tempo;
  • Alguém cujo gênero é grande de forma que parece um pequeno universo;
  • Alguém cujo gênero não se encaixa em nenhum termo mais específico.

Isso tudo geralmente é compactado como “um gênero relacionado a espaço que é distante de gêneros binários e que é possivelmente além da compreensão humana”, mas todas estas definições podem ser motivos válidos para se dizer gênero-estrela. Aliás, não é à toa que esta deve ser uma das identidades mais populares que pode ser considerada um xenogênero.


Paragênero é uma identidade de gênero para pessoas que se sentem próximas a certo gênero, sem serem exatamente de tal gênero. Gênero- (ou gênero-menos) é alguém cuja identidade pode ser descrita como algo próximo de certo termo, mas que não se encaixa completamente nele. Um termo ou outro pode ser escolhido por preferência pessoal ou pelas particularidades da identidade de gênero de alguém, mas estes são ambos termos para identidades próximas mas que divergem de certa identidade.

Acredito que tal proximidade possa ser interpretada de várias maneiras; alguém que é para-homem ou homem- poderia ter um gênero como proxvir, mas talvez esteja mais para magi-homem, quiver-homem, melle, hxmem, androx ou neuvir, por exemplo.

Desta forma, estes termos são úteis para quem acha algum termo que quase se aplica a si, sem se ver completamente como tal termo. Tem um gênero não-binário feminino, mas que não é exatamente só feminino? Dá pra dizer que é parafemigênero ou parafeminine (ou paraceterofeminine, parafingênero, etc). Tem um gênero meio ambíguo ou indefinido, mas que ao mesmo tempo não parece ser completamente bem descrito por isso? Dá pra dizer que é nímise-. Tem uma experiência de gênero que parece alienígena, grande e complexa, mas não quer usar o termo gênero-estrela por parecer descrever bem mais do que isso? Dá pra se dizer estrela-menos.

Muitas pessoas usam o termo demigênero para isso, por ser mais conhecido, mas quem quer evitar a conotação de seu gênero ser parcialmente algo ao invés de ser completamente algo, só que algo diferente/adjacente pode usar paragênero e/ou gênero-.


4 faixas horizontais na proporção 22:13:11:10. Suas cores são amarela clara, laranja, vermelha e marrom avermelhada.

Bandeira vanabrela; fogo/calor

O sistema vanabrela (ou vanabrella, vanarela ou vanarella) foi cunhado como uma forma de falar sobre algum xenogênero que é de alguma forma relacionado a algo, de forma abrangente ou específica.

Isso significa que, se uma pessoa só quer descrever que seu gênero é relacionado ou comparável a algo como, por exemplo, fogo, chuva, arrepios, pétalas caindo ou o que for, sem especificar além disso, a pessoa só precisa dizer que seu gênero é vanarela (fogo), vanabrella; chuva, vanarella – arrepios, vanabrela [pétalas caindo], etc.

Embora ainda termos mais específicos ainda sejam úteis em vários casos, o sistema vanabrela ajuda quem só quer descrever seu gênero como alguma palavra ou expressão curta. Assim, qualquer pessoa que saiba o que é vanabrela vai entender do que o gênero se trata, quando teria que pesquisar ou perguntar caso um termo mais específico fosse usado.

Uma pessoa que usa esse sistema pode ser chamada de vanabrélica.


Espero que esta lista tenha ajudado mais pessoas a considerarem usar ou espalhar informações sobre estas identidades de gênero. Todos estes termos estão em nossa lista de identidades não-binárias, embora vários destes não tenham páginas específicas.

Fontes:

Algumas cunhagens de 2017!  0

2017 recém acabou. Poucas identidades novas foram adicionadas às nossas listas, mas, como sempre, temos muitos termos novos.

Esta postagem não possui o objetivo de ditar quais são as identidades mais importantes do ano, nem de ditar que você deveria estar se identificando com essas ao invés de usar o que você usa atualmente. Também não são identidades que você precisa decorar. Estas são apenas algumas identidades que podem ser interessantes para quem se interessa em conhecer ou em recomendar rótulos.

Orientações

Descrição da imagem: um retângulo composto por cinco faixas horizontais do mesmo tamanho. As faixas são, respectivamente, vinho, branca, rosa, branca e verde escura.

Bandeira feminamórica

Viramórique e Feminamórique: São orientações para pessoas não-binárias que sentem atração apenas por um gênero: homens no caso de viramórique, e mulheres no caso de feminamórique.

Enquanto os prefixos vir e femina já haviam sido sugeridos como alternativas a home e mulhe, foi apenas neste ano que sugeriram utilizar estes com o sufixo amórique. A intenção é não ter que depender de sufixos como sexual ou romântique. Ainda assim, é possível se chamar de feminassexual ou de virromântique, caso queiram.

Não consegui achar provas concretas de que os termos foram cunhados em 2017, mas todas as postagens que consegui achar com os termos foram feitos a partir de junho. Aqui está uma delas.

Netúnique (ou neptúnique) e Urânique: Ao contrário das orientações acima, estas são baseadas em exclusão. Uma pessoa netúnica sente atração por todas as pessoas que não são homens ou pessoas não-binárias que sentem conexão com o gênero masculino ou com masculinidade. Uma pessoa urânica sente atração por todas as pessoas que não são mulheres ou pessoas não-binárias que sentem conexão com o gênero feminino ou com feminilidade.

Descrição da imagem: um retângulo composto de seis faixas horizontais de mesmo tamanho. As quatro primeiras formam um degradê de azul até ciano claro, a quinta é um tom claro de creme, e a última é um tom não tão claro de creme.

Bandeira urânica

Estes termos não são exclusivos a pessoas não-binárias, e foram feitos como alternativas ao que seriam mais ou menos orientações como nomin (atração por qualquer pessoa sem conexão com masculinidade), nofin (atração por qualquer pessoa sem conexão com feminilidade), nãomem (atração por qualquer pessoa não-homem) e nãolher (atração por qualquer pessoa não-mulher).

Quem cunhou estes termos foi Ichi, socialjusticeichigo no Tumblr, em 31 de agosto.

Paro-: Esta é uma orientação para pessoas que sentem atração por diferentes gêneros de forma diferente. Por exemplo, a pessoa sente atração por mulheres frequentemente, mas para sentir atração por homens, precisa de um laço especial primeiro. Ou a pessoa tem atração por pessoas agênero frequentemente e por outras pessoas não-binárias às vezes sim e às vezes não, enquanto sua atração por homens e mulheres é presente mas fraca.

É uma orientação multi, por requerer atração por múltiplos gêneros. Pessoas com esta orientação geralmente não se sentem confortáveis em se sentir parte do espectro assexual/arromântico/etc., pois geralmente consideram que ao menos parte da sua atração é completamente alo (frequente/forte/etc.; fora do espectro assexual/arromântico/etc).

Esta orientação foi cunhada por Beau, beau-is-gai (previamente hello-im-cielo) no Tumblr. Aqui está uma postagem com a discussão da bandeira.

Nomaflux (e, consequentemente, nowomaflux): Uma orientação para quem geralmente não sente atração por homens, mas que pode sentir ao menos um pouco de vez em quando. Nowomaflux seria alguém que geralmente não sente atração por mulheres, mas que pode sentir ao menos um pouco de vez em quando. É similar ao conceito de orientações flexíveis, mas é definida de forma mais específica.

Esta orientação também foi cunhada por Beau. Aqui está a sugestão dada.

Path- (é possível traduzir como pat-): Um rótulo para quem não consegue entender sua orientação devido a uma natureza empática.

Além da informação de que o rótulo pode ser usado junto a bi-, a- ou a outros prefixos, não há informação sobre qual a intenção do rótulo. Talvez a pessoa sinta empatia de forma que sinta ter a orientação de outras pessoas, talvez a pessoa não saiba diferenciar a empatia por outras pessoas de atração sexual, romântica, ou outra. Talvez se aplique a ambas as situações.

A cunhagem desta orientação é creditada a caijda no Tumblr, mas a única postagem sobre essa orientação foi postada pelo blog Uncommon Genders.

Gêneros

Descrição da imagem: Um retângulo composto por cinco faixas horizontais de mesmo tamanho. A primeira faixa é turquesa clara. A segunda é amarela clara. A terceira é rosa. A quarta é roxa clara. A quinta é roxa. No centro da terceira faixa, há o símbolo estelariano, uma grande estrela de cinco pontas rodeada de três outras estrelas, uma menor do que a outra. As estrelas são pretas.

Bandeira lunetiana

Jupariane, lunetiane, saturniane e mercuriane: São gêneros não-binários ligados a leves energias celestiais, as quais possuem certas características de gêneros, embora não necessariamente indiquem proximidade destes gêneros. Esta energia pode mudar e variar em intensidade.

A energia celestial de juparianes é masculina, a de lunetianes é feminina, a de saturnianes masculina e feminina, e a de mercurianes é alguma energia que pode ou não ter gênero, mas que de qualquer forma não é masculina, feminina ou de alguma combinação entre as duas.

Estes termos foram criados a partir de outubro de 2017. Evian, juparian no Tumblr, cunhou jupariane, e a partir daí, outros termos foram surgindo.

Gênero-Netuno: Um gênero que de início parece grande e fluido, mas que com o tempo é possível perceber que é relativamente sólido e estável.

Nomeado desta forma porque Netuno é um planeta gasoso com um núcleo sólido.

Este gênero foi cunhado com outros gêneros planetários, lá pelo meio do ano. Confira o resto da lista aqui!

Descrição da imagem: Um retângulo composto por diversas faixas vermelho-rosadas em tons e tamanhos diferentes. A bandeira é simétrica e imita um degradê, de forma que a faixa no centro da bandeira é mais clara e as das pontas são mais escuras.

Bandeira gênero-rubi

Gênero-rubi, gênero-safira e gênero-esmeralda: São gêneros não-binários vagamente fluidos associados esteticamente com suas respectivas pedras. Gênero-rubi é associado com masculinidade, gênero-safira com feminilidade e gênero-esmeralda com neutralidade.

Estes foram cunhados no primeiro semestre. A cunhagem de gênero-rubi e de gênero-safira foi num chat, mas é possível ver a cunhagem de gênero-esmeralda aqui.

Pirogênero: Um gênero associado com fogo. Não apenas com o movimento do fogo, que é o caso de gênero-fogo, mas também com o consumo do fogo, e/ou com a alta temperatura do fogo (que também pode ser relacionada com alguma emoção em relação ao gênero).

Descrição da imagem: Uma bandeira retangular formada por diversos triângulos. O triângulo menor, central na parte inferior, é de uma cor creme. Atrás dele, há um triângulo maior laranja claro. Atrás deste, um triângulo maior laranja avermelhado. Atras deste, podem ser vistas faixas marrons. Atrás delas, é possível ver um fundo preto, ou talvez marrom escuro.

Bandeira pirogênero

Este gênero foi cunhado próximo ao início do ano. A primeira postagem sobre ele está aqui, e alguns outros comentários sobre o gênero estão aqui.

Possigênero: Um gênero para quem não sabe se seu gênero é fluido ou não. Possi vem da palavra possível.

Este gênero foi cunhado anonimamente lá pelo meio do ano.

Feliz 2018, e lembre-se de que sempre há novos termos sendo cunhados para aprender e pesquisar!

Mais mitos e verdades sobre pessoas não-binárias  2

Mitos e verdades é uma série de postagens que vão direto ao ponto sobre opiniões preconceituosas ou errôneas de alguma outra forma.

A presente postagem não cobre assuntos cobertos por esta outra postagem.

Mito: Qualquer conjunto que não é o/ele/o ou a/ela/a é neutro.
Verdade: Linguagem dita neutra é a utilizada para se referir a grupos de pessoas que usam diferentes linguagens, ou a pessoas às quais você não sabe como se referir. Existem conjuntos que raramente são utilizados como neutros (como i/íli/i ou u/ilu/u), e, em nossa sociedade, é possível assumir que o/ele/o é geralmente utilizado como conjunto neutro.
Caso alguma pessoa disser que “usa linguagem neutra”, recomendo perguntar qual a linguagem que utiliza como neutra, afinal neolinguagem oferece opções infinitas que alguém poderia teoricamente considerar neutra.

Mito: Todas as possibilidades de gêneros envolvem masculinidade, neutralidade, feminilidade ou relação a estes conceitos de alguma forma.
Verdade: Limitar as possibilidades de gêneros é sempre prejudicial a alguma categoria de pessoas. Existem diversas experiências de gêneros diferentes que utilizam outros conceitos para serem descritos, existem diferentes gêneros que rejeitam estes conceitos de diferentes formas. Alguns exemplos são maverique, egogênero e caelgênero.
Além disso, é possível ser mulher, ser homem, ou ter algum gênero relacionado a estes sem ter alguma ligação particular com masculinidade, neutralidade ou feminilidade.

Mito: Não existem orientações para pessoas não-binárias atraídas apenas por algum gênero binário.
Verdade: Existem diversas orientações feitas com esse propósito em mente, como home- e mulhe- e diversos prefixos que foram feitos para substituir tanto estes quanto andro- e gine- (prefixos que algumas vezes são utilizados como “atração por pênis” e “atração por vagina” e que por isso são evitados por muita gente). Viramórique ou vir- para atração por homens e feminamórique ou femina- para atração por mulheres são os termos mais populares atualmente, mas isso pode mudar, afinal criam termos novos para isso frequentemente.
Pessoas não-binárias que se sentem confortáveis com isso e que acreditam que estes termos se aplicam à sua experiência também podem utilizar gay, lésbica ou similares.

Mito: Pessoas não são atraídas por pessoas não-binárias, e sim por qual gênero cada pessoa parece ser.
Verdade: Atração por gêneros é por gênero. É possível mentir para si mesme para ver uma pessoa como outro gênero ainda que a pessoa não seja de tal gênero, ou mentir para outras pessoas para que vejam certa pessoa como outro gênero, mas pela consciência e conhecimento sobre o gênero alheio, a atração vai naturalmente começar a ocorrer, deixar de ocorrer, mudar de intensidade, etc., dependendo das orientações e dos gêneros envolvidos.

Mito: Pessoas que se identificam como bi/poli/multi que não sentem atração pelo próprio gênero estão fetichizando gêneros não-binários e tentando esconder que só aceitam sentir atração por um tipo de corpo.
Verdade: Pessoas que deixam de se identificar como hétero por reconhecerem que alguém por quem possuem atração possui um gênero diferente do qual imaginaram estão respeitando mais a existência de gêneros não-binários do que quem quer manter a “pureza” da comunidade LGBTQIAPN+ com a ideia de que só atração pelo mesmo gênero pode ser considerada não-hétero.
Pessoas multi sem atração pelo próprio gênero possivelmente aceitam mais a ideia de que corpo não determina gênero do que pessoas que suspeitam que alguém que (aparentemente) só sente atração por pessoas com certo tipo de corpo seja secretamente hétero.

Mito: Pessoas não-binárias não possuem demandas próprias, diferentes das de pessoas trans binárias.
Verdade: Exorsexismo existe. Pessoas não-binárias precisam de ao menos uma opção de neolinguagem sendo reconhecida oficialmente, precisam da aceitação da sociedade em relação à diversidade de identidades de gênero existentes, precisam de banheiros e espaços que não obriguem a escolher uma opção binária de gênero, precisam de acesso a procedimentos de transição que não assuma ou force pessoas a se identificarem com algum gênero binário. Precisam de que haja acesso à informação sobre pessoas não-binárias para a população geral, precisam poder ter suas identidades respeitadas em consultas, aulas e profissões. Precisam que a sociedade respeite que linguagem, nomes e maneiras de se vestir não devem ser sempre consideradas masculinas ou femininas, e nem prova de que alguém está mentindo sobre seu gênero. Um mundo ideal para pessoas não-binárias precisa de muito mais reestruturação social do que um mundo ideal apenas para pessoas trans binárias.

Mito: Neurogêneros (identidades exclusivas para pessoas neurodivergentes) dificultam o processo de recuperação de pessoas neurodivergentes.
Verdade: Nem toda neurodivergência é “curável”. De qualquer forma, pessoas neurodivergentes merecem palavras para descrever suas experiências, ainda que elas mudem no futuro por conta de certos sintomas amenizarem ou desaparecerem. Ninguém precisa ficar prese a rótulos que não são mais úteis.

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A culpa des excluídes  2

Boa parte das pessoas LGBTQIAPN+ – e, convenhamos, especialmente quem tem não tem sua identidade explicitamente descrita na sigla – já ouviu falar que estamos “complicando as coisas demais”, que estamos criando rótulos “desnecessários” ou “específicos demais”, que temos “fetiche por rótulos”, que estamos “reforçando normas” ou “colocando pessoas em caixas” por meio da existência de rótulos, ou da identificação com estes rótulos.

Já escrevi sobre o possível motivo das pessoas preferirem certos rótulos ao invés de rótulos mais “comuns” ou “óbvios”. Esta postagem é mais para questionar a direção da raiva, indignação ou frustração das pessoas que não compreendem o motivo desses rótulos existirem.

Quando questionam a existência da identidade pan, já que bi supostamente incluiria qualquer tipo de atração por mais de um gênero, é a comunidade pan que é questionada, ou vista como dramática: não se pensa em quanto comunidades bi empurraram tanto ideais cissexistas (de não incluir pessoas trans em sua atração) ou exorsexistas (de considerar que só existem dois gêneros, homem e mulher, e que esses devem ser os gêneros pelos quais pessoas bi são atraídas).

Aliás, quando questionam a existência da identidade bi, é a culpa da própria comunidade bi que “quer fazer modinha”, e não do heterossexismo que coloca a atração por determinado gênero como importante, ou do monossexismo da sociedade em acreditar que uma pessoa só pode ter atração por um ou por outro gênero.

Quando questionam o uso de bi e pan ao invés de bissexual ou pansexual, a culpa é das comunidades assexual e arromântica que quiseram “esmiuçar orientações desnecessariamente”, não da insistência da sociedade em tratar amor e sexo como um pacote único.

Quando questionam identidades como gênero-fofo, gênero-estrela e altegênero, são essas pessoas as culpadas por “confundir gostos/personalidade com gênero”, “trivializar questões trans” ou “criar caixinhas”, e não a sociedade que é culpada por reforçar a ideia de dois gêneros binários distintos com expectativas definidas, e depois reclamar que várias pessoas não querem se identificar com esses gêneros não importa o quanto há uma flexibilidade maior dessas expectativas.

A culpa também certamente não é das pessoas que assumem coisas sobre rótulos menos específicos como não-binárie e gênero queer, descrevendo pessoas que se identificam como tal como “sem gênero” ou “meio homem meio mulher” ou “neutras” ou “confusas sobre gênero” sem ao menos perguntar como experienciam sua não-binariedade. A culpa também não é de pessoas não-binárias de rótulos mais abrangentes ou até mesmo “aceitáveis” que pregam o quanto suas experiências não-binárias são as únicas que existem.

Transgênero como palavra para substituir transexual? A culpa é desse bando de floquinhos de neve especiais que não conseguem se decidir se são trans ou não e que se ofendem com qualquer tipo de cissexismo casual, não da comunidade médica que usa transexual como diagnose, ou de setores da comunidade transexual que reforçam ideais exorsexistas, ou até mesmo a ideia cissexista de que só pessoas trans que passam por transição médica possuem o direito de serem respeitadas como seu gênero de verdade.

Rotular a orientação como queer? Pra quê, pra se achar? Porque certamente não é por causa do cissexismo em comunidades gays e lésbicas, ou do estigma da palavra bissexual, ou da rejeição de outros rótulos pela sociedade em geral ou mesmo por comunidades LGBT- como ridículos e desnecessários.

Cupiossexual, demissexual, gray-assexual? Só diga assexual! Mesmo que isso faça as pessoas questionarem sua identidade assim que você expressar interesse sexual em alguém, ou falar que gosta de sexo, ou que quer sexo. Mesmo dentro da própria comunidade assexual.

Se palavras existem, há razão para elas. Não importa o quanto você não as usaria. Rótulos servem para mostrar que existem possibilidades, não para estereotipar ou limitar. Caso você não se sinta confortável com seu rótulo, use outro, e confie que outras pessoas possuem discernimento para fazer o mesmo.

Qualidades de gênero  4

Atualização de 22/07/2020: Esta postagem é antiga, e teria sido completamente diferente se fosse feita hoje em dia. Quero que quem leia tenha as seguintes coisas em mente:

  1. Todas essas definições, especialmente as relacionadas com gêneros binários, partem de um ponto de vista branco, eurocêntrico ocidental. Outras culturas/sociedades vão perceber essas características de forma diferente e/ou ter outras características relacionadas com gêneros.
  2. Estas qualidades de gênero podem ser chamadas de elementos de gênero em outros contextos, e eu provavelmente teria postado sobre eles caso o termo tivesse sido cunhado na época. Elementos de gênero são coisas que fazem parte da experiência de gênero e que geralmente interagem com a identidade de gênero, podendo ser um aspecto importante de tal identidade, mas que podem ser descritos à parte da identidade de gênero.
  3. Ambiguidade, autonomia, outerinidade… diversas outras qualidades de gênero já foram cunhadas. Esta postagem não é nada completa como uma lista de referência.
  4. Esta postagem usa gênero feminino binário como sinônimo de mulher, e gênero masculino binário como sinônimo de homem. Porém, classificar mulheres como um gênero feminino e homens como um gênero masculino tanto estigmatiza pessoas binárias que não são femininas/masculinas quanto pessoas não-binárias cujos gêneros são femininos sem ter a ver com ser mulher, masculinos sem ter a ver com ser homem, parecidos com mulher sem serem femininos ou parecidos com homem sem serem masculinos.

Este é um assunto complexo, abstrato e subjetivo. Esta postagem não possui o intuito de classificar pessoas em categorias contra suas próprias vontades, ou de dizer que existem pessoas que precisam trocar seus rótulos porque estão utilizando tais rótulos do jeito errado. Confio que cada pessoa tenha seus motivos para utilizar ou não utilizar certos rótulos, e acredito que nem todas as pessoas precisem de rótulos ou de alinhamentos, além de acreditar que há possibilidades infinitas de qualidades de gêneros, assim como existem possibilidades infinitas de experiências de gênero.

Também gostaria de avisar que esta postagem pode ter linguagem mais rebuscada/complexa do que a maior parte do que escrevo. Dicio me ajudou muito, e pode ajudar vocês também. Alguns conceitos mais importantes estão linkados em suas primeiras aparições.

Agora que os avisos foram dados, eis a postagem em si:

Existem diversas maneiras de descrever gêneros. Boa parte dela tem a ver com certas qualidades. Enquanto algumas qualidades sejam simplesmente sinestésicas, ou analogias, existem algumas que aparecem com certa frequência. Algumas delas são:

Feminilidade: Geralmente, feminilidade é associada com delicadeza, passividade, requinte e vaidade; estereótipos associados ao gênero feminino binário. Obviamente nem todas as pessoas femininas cumprem estes estereótipos, assim como mulheres e meninas não deveriam se sentir obrigadas a cumpri-los. Porém, feminilidade (assim como outros itens da lista) é um arquétipo, que pode ser aplicado por diferentes pessoas em diferentes contextos.

Também gostaria de dizer que esta definição de feminilidade tem bastante a ver com a cultura em que cresci, e ela pode variar de acordo com a cultura ou experiência de vida de cada pessoa.

Pessoas de qualquer gênero podem se dizer femininas, mas existem gêneros específicos que giram em torno disso, como nonera, ceterofeminine e femigênero. Por causa da conflução entre feminilidade e gênero feminino (mulher/menina), pessoas não-binárias que sentem conexões com feminilidade ocasionalmente se identificam com gêneros não-binários relacionados ao gênero feminino (ou que possuem mulher/menina no nome), como juxera, demimulher e mulher não-binária.

Mulheridade: Característica associada a ser mulher. Geralmente essa palavra é encontrada em contextos feministas, mas ela também é útil fora deles para dissociar a ideia de feminilidade da ideia de ser mulher, e para discutir a associação que certas pessoas não-binárias sentem com ser mulher.

Mulheridade, na minha opinião, também é um arquétipo, mas um com significados que variam muito mais de pessoa para pessoa do que o arquétipo de feminilidade. Mulheridade pode ser associada à sororidade, ao companheirismo entre mulheres ou pessoas que se alinham com mulheres. Pode ser associada ao corpo, tanto para as pessoas que desejam ter corpos associados estereotipicamente a mulheres quanto para as pessoas que abraçam a ideia de que seu corpo é um corpo de mulher ou possui associação com ser mulher. Pode ser associada à feminilidade. Pode ser associada a experiências em grupos de mulheres, ou a experiências de ser tratade como mulher, ou de querer ser tratade como mulher.

Obviamente, essas características não fazem de alguém mulher ou mais mulher, mas pessoas que se identificam positivamente com estas experiências podem querer se identificar com mulheridade, parcialmente ou totalmente.

Pessoas que se identificam com mulheridade podem ter diversos gêneros além do feminino binário, e não são obrigadas a se rotular de forma que sua mulheridade seja óbvia (como mulher agênero ao invés de agênero ou mulher não-binária ao invés de não-binárie). Porém, existem gêneros não-binários especificamente relacionados ao gênero feminino binário, como juxera, menina-fluxo e schrodimenina. Por causa da conflução entre feminilidade e mulheridade, pessoas não-binárias que sentem conexões com mulheridade ocasionalmente se identificam com gêneros não-binários relacionados à feminilidade (ou que possuem “feminine” no nome), como librafeminine, transfeminine e femigênero.

Masculinidade: Geralmente, masculinidade é colocada como o contraponto da feminilidade. Ou seja, geralmente é associada com rudeza, ação, agressividade e desleixo; estereótipos associados ao gênero masculino binário. Obviamente nem todas as pessoas masculinas cumprem estes estereótipos, assim como homens e meninos não deveriam se sentir obrigados a cumpri-los.

Também gostaria de dizer que esta definição de masculinidade tem bastante a ver com a cultura em que cresci, e ela pode variar de acordo com a cultura ou experiência de vida de cada pessoa.

Pessoas de qualquer gênero podem se dizer masculinas, mas existem gêneros específicos que giram em torno disso, como nonvir, ceteromasculine e mascugênero. Por causa da conflução entre masculinidade e gênero masculino (homem/menino), pessoas não-binárias que sentem conexões com masculinidade ocasionalmente se identificam com gêneros não-binários relacionados ao gênero masculino (ou que possuem homem/menino no nome), como proxvir, demimenino e homem não-binário.

Hombridade: Esta palavra pode se referir a “uma aparência máscula e viril”, ou a uma característica de quem é “íntegre, destemide e corajose”. Esta palavra derivou-se de hombridad, que daí sim se refere ao que estamos falando aqui: a “qualidade de ser homem”, ou “qualidade exclusiva de homens”. Também tentei procurar por outras opções, mas a única que gerou resultado foi hombritude, que aparentemente é utilizada da mesma forma que hombridade. Ou seja, não achei nada que falasse de ser homem por si só, sem o arquétipo machista de que homens são o ápice da sociedade, fodões, etc etc. Enfim, estou usando hombridade aqui no lugar de uma palavra melhor, para falar de características relacionadas a ser homem, que não necessariamente são exclusivas de homens binários, e que não necessariamente possuem conexões com o arquétipo da masculinidade.

Hombridade pode ser associada à fraternidade, ao companheirismo entre homens ou pessoas que se alinham com homens. Pode ser associada ao corpo, tanto para as pessoas que desejam ter corpos associados estereotipicamente a homens quanto para as pessoas que abraçam a ideia de que seu corpo é um corpo de homem ou possui associação com ser homem. Pode ser associada à masculinidade. Pode ser associada a experiências em grupos de homens, ou a experiências de ser tratade como homem, ou de querer ser tratade como homem (de uma maneira não relacionada ao privilégio, e sim à utilização da palavra homem, ou talvez à utilização da linguagem o/ele/o, e conceitos relacionados).

Obviamente, essas características não fazem de alguém homem ou mais homem, mas pessoas que se identificam positivamente com estas experiências podem querer se identificar com hombridade, parcialmente ou totalmente.

Pessoas que se identificam com hombridade podem ter diversos gêneros além do masculino binário, e não são obrigadas a se rotular de forma que sua hombridade seja óbvia (como homem neutrois ao invés de neutrois ou homem não-binário ao invés de não-binárie). Porém, existem gêneros não-binários especificamente relacionados ao gênero masculino binário, como proxvir, menino-fluxo e schrodimenino. Por causa da conflução entre masculinidade e hombridade, pessoas não-binárias que sentem conexões com hombridade ocasionalmente se identificam com gêneros não-binários relacionados à masculinidade (ou que possuem “masculine” no nome), como libramasculine, transmasculine e mascugênero.

Androginidade: É relacionada à mistura de qualidades masculinas e femininas. Por andrógine já ser um gênero não-binário, não vemos muitas pessoas distinguindo androginidade como mistura de masculinidade e feminilidade de androginidade como mistura de mulheridade e hombridade.

Por conta do exorsexismo da sociedade, androginidade não é um conceito muito explorado, então acaba sendo mais vago do que os anteriores. Além disso, é um conceito muitas vezes misturado com o conceito de neutralidade, pela crença de que como só existem dois gêneros, o que estiver entre os dois é neutro. Mesmo assim, existem pessoas que se associam com androginidade e não com neutralidade, e vice-versa.

Existem muitas pessoas que acabam descrevendo seu gênero como “um pouco dos dois”, “meio homem e meio mulher”, “bicha fancha”, aquela palavra com H utilizada para alienar pessoas intersexo, e outros termos que remetem tanto ao gênero masculino quanto ao feminino, ou tanto à masculinidade quanto à feminilidade; essas pessoas podem se identificar com um conceito de androginidade.

Há gêneros além de andrógine que podem ser associados com androginidade, como inavire, ambonec e alteandrógine. Mas é possível ter conexão com androginidade sendo de qualquer gênero.

Neutralidade: É relacionada à neutralidade em relação a todos os gêneros ou qualidades relacionadas a gêneros. Pode ter a ver com não ter gênero, com não se importar com arquétipos de gênero, entre outras questões. Também é um conceito que não é tão discutido, e que pode parecer vago por conta disso.

Assim como as outras qualidades, não é necessário ter um gênero neutro ou não ter gênero algum para se identificar com neutralidade. Porém, existem gêneros especificamente relacionados com neutralidade, como gênero neutro, transneutre e ceteroneutre.

Maveriquinidade, maverinidade ou veriquinidade: É definida como o conceito de masculinidade em relação a homens, ou de feminilidade em relação a mulheres, só que em relação a maveriques. Não existe muita discussão sobre o que cobre o arquétipo da maveriquinidade, mas pode ter a ver com a independência do binário de gênero além da neutralidade, androginidade ou ausência de gênero.

Desta forma, poderia ser associada a vários gêneros não-binários, mas fora isso, maverinidade pode ser associada a certas expressões de gênero que tentam ir além de “misturar sinais masculinos e femininos” ou de neutralidade.

É possível que existam outras palavras para conceitos similares a estes, ou que novas palavras venham a surgir, porém acredito que este seja um bom panorama de quais qualidades temos atualmente. =)

Libertação x Cissexismo  0

Existem dois extremos em relação a como tratar gêneros.

Um deles é o cissexista: só existem dois gêneros, determinados por dois sexos, que supostamente causam também certas escolhas em comportamento e apresentação. Cada um desses gêneros possui uma linguagem associada a tal (o/ele/o para homens e a/ela/a para mulheres).

O outro é supostamente libertador e vanguardista: a ideia de que gênero não existe e não deveria ser levado em consideração, de que pessoas deveriam utilizar qualquer pronome e roupa porque nada dita o gênero de alguém. De que deveríamos ser uma sociedade pós-gênero.

Enquanto esta segunda opção é tentadora para várias pessoas não-binárias, ela também é desrespeitosa com várias pessoas não-cis, e ignora a realidade em que vivemos. Ela também reproduz partes do cissexismo, dependendo de como é tratada.

Bandeira genderqueer

A comunidade genderqueer é formada tanto por pessoas que querem quebrar as normas e o conceito de gênero quanto por pessoas que querem ter sua identidade respeitada, seja qual for.

Caso você queira se identificar como alguém que vai além de gênero – seja como pomogênero, pangênero, sem gênero ou sem rótulos – você pode fazer isso pessoalmente. Caso você queira aceitar qualquer tipo de linguagem e usar qualquer tipo de roupa, você também pode fazer isso.

Porém, você não pode forçar pessoas a agir desta forma, ou fazê-las se sentirem culpadas por perpetuarem estereótipos de gênero, quando estas pessoas também são vítimas do cissexismo.

Uma pessoa gênero-estrela que enfrenta forte disforia social e não aguenta mais escolher entre ser chamada de “ela” ou “ele” não deveria ter que se sentir culpada por buscar um visual ambíguo e insistir em linguagem alternativa.

Uma mulher trans que tem medo de andar na rua e sofrer violência por parecer “homem vestido de mulher” não deveria ser culpada por “perpetuar estereótipos femininos” como se depilar e usar maquiagem e roupas vistas pela sociedade como femininas, para parecer menos com o que a sociedade enxerga como homem e se sentir mais segura.

Uma pessoa transmasculina que tem sua identidade constantemente invalidada por sua família e escola tem o direito de se sentir braba com pessoas que acham que essa pessoa deveria aceitar usar qualquer pronome e qualquer roupa, já que tecnicamente essas coisas não possuem gênero.

Uma pessoa dois-espíritos não deveria ter que encontrar pessoas dizendo que gênero e rótulos relacionados a gênero não importam e deveriam sumir.

Não, você não pode olhar para uma pessoa e decidir sua linguagem, seu gênero, e se essa pessoa é trans ou cis ou não. Mas só agir como se gênero e linguagem não tivesse significado nenhum – especialmente quando isso é direcionado a pessoas não-cis – só isola pessoas que possuem a coragem de explorar e de se identificar com gêneros que a sociedade cissexista e exorsexista diz que não podem. E tem pouco efeito em uma população cis que pode justificar seu gênero de acordo com uma lógica cissexista, sexista e diadista.

Dica para pronomes e identidades de gênero  0

Somos treinades para reconhecer dois gêneros (homem/menino, mulher/menina) e dois pronomes pessoais retos em terceira pessoa do singular, associados a estes gêneros (ele, ela). Podem não dizer explicitamente para crianças que existem só esses dois gêneros e tipos de linguagem, mas elas acabam reconhecendo isso, via representação (não veem ninguém tratando pessoas de outro modo) e por conta do exorsexismo de cada dia (“homem ou mulher”, “ele ou ela”, “menino ou menina”, “papai e mamãe”, “gênero oposto”).

O que acontece é que então, quando descobrem pessoas não-binárias, as pessoas acabam tendo reações defensivas, conscientes (“isso não existe [porque ninguém me falou disso antes]”) ou inconscientes (errar a linguagem de uma pessoa sem querer porque normalmente se assumiria “ele” ou “ela” para tal pessoa).

Aqui vão dicas para se acostumar com pronomes (e outros tipos de linguagem) e gêneros:

Pense em pronomes como nomes.

Você conhece todos os nomes que existem? Provavelmente não. E também não é necessário conhecê-los. Mas, você provavelmente sabe nomes (ou sobrenomes, ou apelidos) das pessoas próximas a você.

Assim como você não assume que o nome das pessoas são sempre Carolina ou Paulo, pronomes variam além de ele ou ela. Caso você tenha qualquer indício de que seja um lugar seguro para isso, você pode perguntar pela linguagem de alguém, especialmente se a pessoa não termina palavras referentes à si mesma com o ou a.

Assim como você não se irrita quando alguém te corrige por você ter errado o nome de alguém, você não deve se irritar quando alguém corrige um pronome errado. Assim como você não reclama quando aprende um nome que nunca ouviu, você não deve reclamar quando ouve um pronome que nunca ouviu.

Pense em identidades de gênero como profissões.

Você conhece todas as profissões que existem? Provavelmente não. E também não é necessário conhecê-las. Mas, você provavelmente sabe as profissões das pessoas próximas a você, assim como o significado delas.

Assim como você não assume as profissões de pessoas que você não conhece, na maior parte das vezes, também não há razão para assumir os gêneros ou as identidades de gênero de pessoas que você não conhece, na maior parte das vezes. Você também provavelmente não sente a necessidade de perguntar a profissão de qualquer pessoa, e o mesmo deve servir para o gênero. Caso o assunto surja, ok! Caso contrário, não é algo essencial para várias pessoas.

Às vezes, é necessário perguntar para saber o que é certa profissão, e o mesmo serve para certos gêneros. Às vezes, você consegue entender o significado de uma profissão sem perguntar, ou ao menos parcialmente entender do que se trata. Por exemplo, alguém que sabe o que significa web e design provavelmente não vai precisar de uma definição de webdesigner. Alguém que sabe o que é turismo e o que significa o sufixo -logo deve ter alguma ideia do que faz alguém que se diz turismólogo.

O mesmo serve para gênero: alguém que conhece o prefixo tri- e o conceito de bigênero deve entender o que significa trigênero. Alguém que conhece o prefixo a- e o sufixo -gênero para gêneros não-binários deve ter uma ideia do que é uma pessoa agênero.

O mesmo até serve para orientações! Alguém que conhece os conceitos de arromântique e de bissexual deve entender o que é uma pessoa birromântica. Alguém que conhece o prefixo pan- e o sufixo –sexual deve entender que uma pessoa pansexual é atraída por pessoas de todos os gêneros.

Obviamente, isso nem sempre funciona: uma pessoa pangênero não é de todos os gêneros, uma pessoa duossexual não é necessariamente atraída por dois gêneros, e uma pessoa demirromântica não é atraída por metade dos gêneros. Porém, os nomes dão uma ideia, e, inclusive, uma associação com outras palavras já existentes que fazem com que estes conceitos sejam mais fáceis de lembrar.

O que você pode fazer para não alienar pessoas não-binárias  0

Por impulso ou preconceito, pessoas acabam escolhendo expressões que alienam ou que podem causar desconforto a pessoas não-binárias. Veja aqui algumas substituições mais adequadas para elas.

Em situação de alguém se apresentando com neolinguagem (como ed/eld/e ou -/ile/e):

Evitar:Isso é muito novo e difícil pra mim, então vou errar bastante“, ou “não posso usar (insira outra linguagem aqui)?

Tentar: “Vou tentar respeitar isso ao máximo da minha capacidade“, “vou anotar para não esquecer“, “posso ter alguns exemplos de como sua linguagem é utilizada, pra fixar melhor?“, ou formar alguma frase com a linguagem da pessoa para ter certeza de que entendeu.

Em situação de não ser oferecida uma opção para pessoas não-binárias escolherem em alguma situação que precisa de gênero:

Evitar: “Isso é muito novo ainda, vai demorar para alguém levar a sério“, “apenas escolha o que corresponde com seu sexo biológico“, ou “apenas escolha (insira gênero pelo qual a pessoa passa aqui)“.

Tentar: “Vou ver se consigo outra opção para você“, “tem algum destes grupos que você acha menos pior de ser encaixade?“, “você pode não preencher/participar desta parte se você quiser“.

Em situação de errar a linguagem da pessoa:

Evitar:Desculpe, é que é tão difícil!“, ou “é que nunca vou me acostumar com essas coisas“.

Tentar:Desculpe, acho que esqueci do que você usa ao invés de (palavra errada)” ou corrigir na hora a palavra errada (“ele– uh, éli“, por exemplo).

Em situação de não se lembrar da linguagem ou do gênero da pessoa:

Evitar: Chutar qualquer palavra e torcer para que não esteja errado/para que a pessoa não note, ou reclamar que é algo muito difícil de lembrar.

Tentar: Perguntar para a pessoa ou para pessoas próximas qual é a linguagem certa ou o gênero certo.

Em situação de não saber o que significa o gênero da pessoa, ou de recém aprender o que ele significa:

Evitar:Como isso é possível?“, “isso existe mesmo?“, “por que você escolheu se identificar desta forma?“, “mas todo mundo é meio assim!“, “pra quê se rotular assim?

Tentar:Você se sente à vontade para explicar o que é?“, “não sabia que isso existia, legal poder aprender!“, escutar sem falar nada para contestar, mesmo que não tenha conseguido entender direito, e depois procurar mais na internet, caso realmente queira aprender.

Depoimentos de pessoas não-binárias  0

É comum perguntarem quais são as especificações de alguém que se identifica como não-binárie. Muitas pessoas acabam generalizando, achando que a pessoa é simplesmente andrógine (tendo um gênero entre homem e mulher) ou gênero-fluido (alguém cujo gênero muda de tempos em tempos; pessoas cis geralmente acham que pessoas gênero-fluido só mudam entre serem homens e mulheres).

Há alguns meses, fiz uma pesquisa sobre pessoas não-binárias. Aqui estão algumas respostas da pergunta “como você sabe que é o gênero que é?”, separadas pelo gênero com o qual a pessoa se identifica:

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