Um espaço de aprendizagem

O processo de criação de novas páginas do Orientando  0

Uma captura de tela parcial da lista de identidades não-binárias.

Caso alguém tenha interesse, é este o processo que uso para fazer qualquer página específica que descreve algum termo, como neurálique ou não-binárie. Cada identidade pode ter as próprias particularidades, então nem sempre suas páginas são escritas desta forma, mas a maioria das páginas segue o esquema.

Ao final do texto, caso hajam dúvidas sobre como páginas são formatadas em alguma questão não mencionada, sugiro recorrer a estudar as páginas existentes, especialmente as mais recentes.

 

A identidade já está na lista?

Para que a página possa ser linkada em sua respectiva lista, a identidade já precisa estar lá.

Identidades são adicionadas às listas por serem:

  • Bem definidas (ou seja, possíveis de explicar);
  • Separadas o suficiente para terem o próprio lugar na lista;
  • Relevantes o suficiente para que elas sejam colocadas na lista ao invés de outras (mais identidades são cunhadas a cada semana e não faço questão de incluir as que são extremamente específicas e não utilizadas por ninguém);
  • Livres de racismo, cissexismo, diadismo, xenomisia, misoginia, capacitismo, gordemisia e afins. É possível que identidades sejam acusadas de justificarem ou perpetuarem tais opressões, desde que hajam defesas coerentes que apontem que isso não seja verdade.

Também evito colocar identidades que compartilham nomes com identidades já existentes, até porque é comum que nomes alternativos apareçam eventualmente.

Além disso, prefiro adicionar identidades em grupos de 4, pra manter a tabela certa no tamanho máximo da tela.

 

A página

Antes de começar, é necessário ler tudo ou bastante coisa sobre a identidade. Por exemplo:

  • Como arquivos de identidades definem o termo?
  • Como comunidades e blogs voltades para a identidade definem o termo?
  • Qual era a intenção de quem cunhou ao cunhar o termo?
  • Qual a etimologia do termo?
  • Em que situações pessoas usam o termo?
  • Que críticas e/ou concepções errôneas são ou foram feitas em relação ao termo, e o que faz delas erradas, ou o que aconteceu quando elas foram levadas em questão?
  • Há uma bandeira? Quais são seus significados? Quem fez a bandeira? Há motivos para não usar a bandeira?
  • Há mais de uma bandeira? Há alguma que é mais usada, ou que é mais acessível?

Depois de absorver estas informações, é hora de começar a escrever.

 

Introdução

As páginas devem começar com uma definição resumida do termo. Talvez menos resumida do que na página da lista de termos, mas o objetivo é que quem só queira ler como o termo é definido só precise ler uma frase ou um parágrafo (ou uma pequena lista, no caso de termos com mais de uma definição). Por exemplo:

 

Pessoas mir ou myr experienciam atração que pode ser descrita com mais de uma orientação do espectro assexual/arromântico/aplatônico/etc.

 

Maverique é um gênero completamente independente de gêneros binários e neutros. É caracterizado pela convicção interna e firme de que seu gênero está lá, mas que tal gênero não é homem, mulher, gênero neutro, ou qualquer combinação entre estes.

 

Depois disso, se adicionam explicações, exemplos ou informações extras. Alguém pode não entender como a identidade funciona só lendo a definição, e precisar de algo mais mastigado que ajude a compreender o termo. É preferível que os exemplos não sejam muito complexos, já que a ideia é fazer com que quem esteja lendo consiga entender como a identidade funciona. Ou seja, ao falar de uma identidade que flui entre um número indeterminado de gêneros, é melhor só usar dois ou três gêneros como exemplo, e não quinze ou dez.

Existem termos que já são cunhados acompanhados de detalhes ou explicações, ou que foram melhor explicados após a cunhagem, e isso é algo que deve aparecer nesta seção.

Aqui está um exemplo de uma explicação vinda da pessoa que cunhou o termo:

 

Ilyagênero foi um termo feito para ser mais específico do que aporagênero ou maverique, em relação a ser explicitamente definido como algo que não pode ser relacionado com gênero neutro. Também foi definido de forma que não é para ser uma posição política ou rejeição consciente de gênero, apenas descrevendo um gênero que existe mas que não é relacionado com o binário ou com neutralidade.

 

E aqui está um exemplo de detalhes/exemplos escritos com base em experiências que li de pessoas abro:

 

Algumas pessoas abro podem identificar as mudanças pelas quais passam: podem, por exemplo, se sentir gays em alguns momentos, toren em outros, e pan em outros. Outras pessoas abro podem não conseguir identificar suas mudanças, porque elas ocorrem de forma rápida ou confusa demais. Outras passam por estes dois estados, às vezes podendo identificar suas mudanças e às vezes não.

 

Controvérsias podem ser colocadas nesta seção, depois das explicações. Etimologia e nome do termo original também podem aparecer aqui.

 

Origem

Ocasionalmente, quem cunhou o termo é mencionade na introdução (na parte da explicação), mas, em geral, é só aqui que tal indivíduo ou grupo começa a ser mencionado.

Esta seção geralmente tem os seguintes dados:

  • Quando, por quem e onde o termo foi cunhado?
  • Houveram mudanças no significado do termo? (Se não, não há a necessidade de mencionar isso.)
  • Quando, por quem e onde a bandeira foi feita?

Às vezes, as controvérsias são mencionadas após falar da origem do termo e/ou da bandeira. A etimologia e o nome do termo original também podem aparecer aqui, embora isso seja raro. Tudo varia de caso em caso. Sempre priorizo ter um texto fácil de acompanhar do que seções bem definidas (tanto é que não separamos os textos em seções nas páginas em si).

 

Bandeira (e/ou símbolo, quando existente)

Após as informações básicas sobre a postagem da bandeira, geralmente são colocados os significados da bandeira. Caso a imagem em si não tenha descrição, uma descrição da bandeira é feita aqui, que inclui cores, divisões e proporções.

Se houver mais de uma bandeira, a origem é acompanhada dos significados da bandeira antes dos parágrafos sobre a bandeira seguinte. Isso conta pra símbolos também.

É possível que não haja espaço para mostrar todas as bandeiras/todos os símbolos na página (as bandeiras sempre são colocadas em 230×138 e outras imagens são redimensionadas para ocupar espaços similares, mas mantendo suas proporções). Afinal, todas as imagens são colocadas uma à direita e outra à esquerda na página inteira, de forma que duas imagens não fiquem na mesma linha, e que de preferência hajam linhas de texto sem imagem alguma na linha entre linhas com imagens.

Em tal caso, geralmente algumes bandeiras e símbolos não são mencionades, e são apenas linkades no final. Porém, se parecer importante, é possível descrever tais bandeiras/símbolos sem mostrar as imagens.

 

Informações finais

Caso tais informações não tenham aparecido ainda, a etimologia do termo pode ser mencionado, assim como os termos originais caso o termo seja uma tradução. No caso de orientações, recomendo mencionar mais de um tipo de orientação. Por exemplo:

 

Pan é o mesmo prefixo em inglês (pansexual, panromantic, panalterous, etc).

 

Geralmente coloco os links nesta ordem:

  • Blogs, grupos e organizações direcionades a pessoas que usam o termo;
  • Definições do termo;
  • Informações do/identificações com o termo;
  • Bandeiras, símbolos e informações sobre elus.

Não coloco links que sejam apenas sobre discriminação, ou que sejam de ódio contra o termo (no máximo posso colocar alguém rebatendo quem estiver criticando a identidade).

Priorizo que os links sejam de lugares inclusivos. Não vou colocar links para experiências que defendem ser cissexista (ou que perpetuam outra discriminação), ou para grupos que engajam em apagamento de outras comunidades ou experiências.

Acho importante ter vários links, porque mesmo que possam parecer repetitivos, eles indicam que a identidade foi divulgada/definida em vários lugares, e também são úteis para quando alguns dos links saírem do ar.

 

Linkbacks

Após a página ser feita, eu coloco links:

  • Na bandeira na página da lista;
  • No nome da identidade na página da lista;
  • Na página inicial, com anúncio de página nova.

Pra mudar qualquer coisa nas listas, o modo texto precisa ser selecionado antes de entrar na página de editar a lista em questão, já que sequer entrar no modo visual da edição das listas quebra a pesquisa. Caso a pesquisa seja quebrada, seu código deve ser copiado de outra lista.

A página inicial é mais complicada. Ao invés de editar páginas, deve-se criar ou usar uma postagem de blog existente, uma das que não aparecem nas páginas do blog, e que só possuem a categoria Destaque quando estão aparecendo ou Uncategorized quando não estão. A postagem de blog deve estar configurada para linkar para a página nova, ter o nome “Página nova: [nome da página]” ou similar, e uma imagem destacada de uma ou mais bandeiras da identidade em questão, em um tamanho de 530 x 318 até 1500 x 900 com a proporção 5:3.

Bandeiras em 5000×3000 não devem ser utilizadas por serem relativamente pesadas, e demorarem para carregar. Bandeiras em proporções diferentes de 5:3 vão fazer com que os destaques mudem de tamanho para cada “slide”, o que não é ideal, esteticamente.

 

Finalizando…

O motivo de tantos detalhes aqui é que eu quero que o Orientando continue mesmo se eu não puder mais fazer isso. Quero prevenir que o site passe por problemas por conta de detalhes técnicos.

Mesmo assim, qualquer pessoa pode, se quiser, enviar conteúdo para o Orientando. Quanto mais detalhes, melhor vai ser pra eu conseguir postar, e também posso dar cargos de edição caso hajam pessoas confiáveis dispostas a ajudar com o trabalho de forma regular.

Como sempre, quem se interessar pode entrar em contato, de alguma forma melhor do que pelos comentários daqui. No entanto, se você quer apenas sugerir termos para listas ou novas bandeiras, você pode utilizar este tópico.

Identidades de gênero que poderiam ser mais populares  0

Uma combinação das bandeiras gênero-dissidente, gênero-cor e paragênero.

Existem centenas de termos relacionados a gênero, e por conta de uma série de fatores – como idade, popularidade de quem fez ou espalhou tais termos e originalidade em relação a outros termos existentes – alguns vão ser mais populares e conhecidos do que todos os outros.

Nesta postagem, eu gostaria de destacar termos que vejo que poderiam se encaixar a muitas situações que presenciei, mas que são conhecidos e/ou utilizados por pouquíssimas pessoas.


Uma bandeira composta por cinco faixas horizontais, nas cores vermelha, laranja, amarela, verde e azul. Todas as cores possuem tons relativamente claros. A proporção das faixas é 2:3:8:3:2.

Bandeira centrigênero

Centrigênero se refere a qualquer gênero entre ou no meio de um ou mais gêneros. Isso significa que identidades como andrógine, neutrangi, androx e aporagine podem ser consideradas centrigêneros.

Mas além de poder agir como guarda-chuva, centrigênero dá a liberdade de alguém falar que seu gênero está entre outros sem ter que depender de cunhar uma palavra própria para isso. Alguém pode dizer que é centrigênero maverique/caelgênero, ou centrigênero nímise/femigênero/ceteroneutre/homem, por exemplo.

Também existe gênero-poção, mas o uso de centrigênero ou de gênero-poção vai depender do quanto a pessoa sente que seu gênero é apenas um ponto entre identidades diferentes em um diagrama ou uma mistura/mescla de outras identidades.


Ceterogênero é um gênero não-binário relacionado com masculinidade, neutralidade ou feminilidade. É uma identidade relativamente antiga, mas foi possivelmente ignorada por existirem outras formas de comunicar essas características, como femigênero, mascugênero e neutrois.

O que acho interessante em ceterogênero é que pode ser uma forma de dizer que a pessoa não é mulher, homem ou gênero neutro, ainda que tenha um gênero não-binário associado com características associadas com estes gêneros.

Por exemplo, identidades como mulher não-binárie/zenina e transfeminine podem informar feminilidade, mas também podem informar mulheridade, ou até mesmo uma separação de gêneros binários em sua identidade de gênero mas uma conexão com mulheridade ou feminilidade por conta de outros aspectos, como expressão de gênero, pautas políticas ou aspectos da transição. Pessoa não-binária feminina também pode acabar tendo tal abrangência. Esses são termos muito populares, e que por isso acabam sendo bastante abrangentes. Nonpuella/nonera é um gênero fortemente feminino completamente nada a ver com ser mulher, mas esta não é necessariamente a experiência da pessoa. Fingênero e femigênero informam que a pessoa possui um gênero feminino de forma mais maleável, mas colocam feminilidade como a característica primária da identidade. Por isso, ceterofeminine pode funcionar como uma identidade separada destas, sendo mais específica em alguns pontos e mais abrangente em outras.

Cinco faixas horizontais do mesmo tamanho: Roxa, rosa, cinza, azul e verde.

Bandeira ceterofluida

Além disso, é possível interpretar ceterogênero como uma espécie de identidade próxima/relacionada a femigênero, mascugênero ou gênero neutro, mas sem ser exatamente tais identidades. Juxtaneu existe (sendo que ainda é recente em comparação com ceteroneutre), mas os gêneros juxera e proxvir são mais relacionados com gêneros binários do que com feminilidade ou masculinidade por si só.

Também existe a identidade ceterofluida, que pode ser útil para quem só muda entre gêneros não-binários que podem ser classificados como ceterogêneros. Ceterofluide é um termo mais curto do que gênero-fluido entre femigênero, mascugênero e juxtaneu, por exemplo.


Empilhadore de gêneros ou hordidem é uma identidade poligênero caracterizada por alguém ir achando identidades de gênero que se encaixam e as colocando em uma “pilha”, de forma que a pessoa tem todas aquelas identidades de uma vez só (e possivelmente mais outras que não foram cunhadas ainda, que a pessoa não achou ou que nem sabe como descrever ainda).

Esta identidade é bem mais recente do que colecionadore de gêneros, um termo cunhado lá por 2015 e que é citado ou usado por bastante gente, onde a única diferença é a questão de colecionadore de gêneros ser apenas para pessoas cuja identidade de gênero muda de tempos em tempos.

Acredito que hordidem seja um termo útil por eu já ter visto muitas pessoas com dezenas de gêneros (e gêneros parciais, identidades que denotam ausência de gênero, etc.) que não se veem como pangênero por também não serem de vários gêneros e nem como colecionadoras de gênero por suas identidades não mudarem de tempos em tempos. Muitas vezes, são até pessoas que frequentemente vão atrás de termos novos para adicionar às suas pilhas, e/ou que cunharam várias identidades para poderem descrever mais aspectos da sua.


Seis faixas horizontais do mesmo tamanho, começando com três tons de rosa e seguidas por três tons de azul. As faixas vão formando um degradê, de forma que as faixas centrais são mais claras e as faixas das pontas são mais escuras.

Bandeira femacha

Femache é alguém que é homem e mulher ao mesmo tempo. Não há especificação em relação a se este é um gênero como ambonec (que pode ser visto como um gênero ou como mais de um), ou se é referente especificamente a ter os gêneros homem e mulher (como alguém bigênero desses gêneros ou poligênero que inclui esses gêneros) ou a ser algo como gênero-poção ou andrógine/centrigênero de tais gêneros.

As únicas especificações são que ume femache não é especificamente 50% homem e 50% mulher, e que femaches não precisam só ser femaches (podem ter outros gêneros também).

Esta identidade me parece útil porque são várias as pessoas bigênero homem/mulher ou com outras experiências “mulher + homem” que podem não necessariamente se encaixar em andrógine ou ambonec. Além de ser uma identidade abrangente em relação a como alguém é mulher e homem, também é mais específica do que bigênero para quem tem estes dois gêneros, já que pessoas bigênero podem ter dois gêneros quaisquer.


Gênero-cinza é alguém que é parcialmente de um gênero não-binário ou sem gênero, mas que possui uma ambivalência natural em relação ao seu gênero e/ou à sua expressão de gênero. Pessoas gênero-cinza sentem possuir gênero, e inclinação ou desejo de expressá-lo, mas tal inclinação é fraca ou indefinível/indeterminada de certa forma, ou não é sentida pela maior parte do tempo, ou a pessoa gênero-cinza não se importa muito com sua inclinação.

Embora pareça ser algo meio específico ou complexo, o termo gênero-cinza foi feito para cobrir pessoas que não são totalmente agênero/sem gênero mas que ainda se encontram num espectro similar, da mesma forma que o termo gris/gray-a foi feito para abarcar pessoas a-espectrais que sentem alguma atração.

É relativamente comum ter pessoas com um gênero fraco, ou que se consideram basicamente sem gênero mas que possuem alguma conexão com gênero. A conexão parcial com ausência de gênero e não-binaridade está na definição para que não se confunda alguém gênero-cinza com alguém cis que não liga pra gênero (uma acusação que acredito que seja mais direcionada a pessoas casgênero hoje em dia), mas acredito que a definição possa ser resumida a ser alguém com um gênero fraco ou com uma experiência similar.

Desta forma, pessoas demigênero ou nanogênero que possuem um gênero parcial por ele ser fraco (e não por serem menores/parciais em relação a outros gêneros) ou pessoas gênero-Libra que sentem que sua conexão com algum gênero está mais para uma versão fraca de um gênero podem se dizer gênero-cinza, caso queiram.


Gênero-cor é algo que acaba sendo estigmatizado apenas por ser um xenogênero, mas é um termo bastante útil. Um gênero-cor é definido por remeter a uma cor ou a coisas que a pessoa relaciona com alguma cor.

Um fundo índigo com uma roda de cores em seu centro. A cor índigo cria um espaço na roda de cores.

Bandeira gênero-índigo

A questão é que isso pode ser usado para qualquer coisa. Pode ser usado como uma associação xenina, como algo sinestésico, como algo relacionado com outras identidades de gênero existentes, etc. Por exemplo, o termo gênero-índigo pode ser usado para descrever:

  • Um gênero definido por um tipo de masculinidade relativamente formal e adulta;
  • Um gênero similar a homem, mas que contém ao menos parcialmente algum elemento de androginia nele;
  • Um gênero que remete a frutas que são doces mas que não são necessariamente muito doces, como mirtilos, uvas, ameixas e amoras;
  • Um gênero definido por libertação e criatividade em relação às concepções tradicionais de gênero;
  • Um gênero não-binário fraco que remete a um céu vazio;
  • Um gênero que remete ao frio de uma noite de inverno pelo quanto é forte e difícil de ignorar.

Isso tudo vai depender de associações pessoais com a cor, mas também de como uma pessoa pode usar uma cor para descrever uma identidade de gênero. Ainda assim, acho que deu pra perceber como a identidade é versátil!


Gênero-dissidente ou gênero-inconformista é um gênero propositalmente similar a maverique, mas que também é definido por subversão intencional das expectativas de gênero da sociedade. Sua definição completa (ainda que resumida) é:

Uma experiência de gênero não tradicional (e não-binária) caracterizada pelo senso de desconexão e independência em relação a gêneros binários, e também pela intenção de subverter as expectativas de gênero da sociedade.

O motivo que vejo esta identidade como uma que poderia ser mais popular é que maverique é um gênero popular, e muitas pessoas não-binárias falam que querem intencionalmente confundir pessoas quanto ao seu gênero ou quebrar barreiras sobre o que é gênero ou coisas assim. Caso isso faça parte de sua experiência de gênero, gênero-dissidente expressa essas duas coisas em uma identidade só.


Gênero-estrela é outra identidade que pessoas rolam os olhos só de ver o nome, por conta do estigma contra xenogêneros, especialmente gêneros com adjetivos ou substantivos no nome. Enfim, gênero-estrela pode se referir a uma destas descrições:

  • O gênero de uma estrela;
  • Um gênero que não parece ser humano ou terrestre, por estar além da compreensão;
  • Uma identidade para quem acha que, não importa quantos rótulos para gênero inventarem, nenhum deles vai encaixar.
Um fundo azul escuro com uma estrela branca em seu canto inferior direito de onde saem três faixas curvas nas cores branca, azul clara e azul em direção à esquerda. No resto da bandeira, alguns brilhos brancos podem ser vistos.

Bandeira gênero-estrela

É comum ver essa primeira definição e pensar “ah não, que ridículo, a pessoa pensa que é ou quer ser literalmente uma bola de gás” sem ver qual a lógica ou o contexto desta definição. (Aliás, existem indivíduos que são kin com estrelas, mas isso não é o que gênero-estrela descreve. Ser de um gênero comparável a algo não significa ser kin com aquela coisa, embora pessoas possam ser os dois.)

A questão é que esta identidade foi cunhada quando havia pouquíssimo vocabulário para descrever gêneros fora da tríade homem/mulher/neutre, e mesmo vocabulário já existente como aporagênero e maverique era possivelmente pouco circulado. Assim, a pessoa que cunhou gênero-estrela estava tentando descrever um gênero distante dos binários a ponto de ser “alienígena”, e que era possivelmente grande e complexo.

Mesmo assim, as divagações de quem cunhou o termo e as definições que foram espalhadas por aí abrem portas para que gênero-estrela possa ser uma identidade que esteja descrevendo:

  • Alguém cujo gênero é difícil de entender por estar além de gêneros mais conhecidos;
  • Alguém cujo gênero é relacionado com o espaço;
  • Alguém cujo gênero parece ser extraterrestre;
  • Alguém que vê seu gênero como o gênero de uma estrela;
  • Alguém cujo gênero é potencialmente neutro, mas que também inclui ao menos feminilidade e masculinidade, ao mesmo tempo;
  • Alguém cujo gênero é grande de forma que parece um pequeno universo;
  • Alguém cujo gênero não se encaixa em nenhum termo mais específico.

Isso tudo geralmente é compactado como “um gênero relacionado a espaço que é distante de gêneros binários e que é possivelmente além da compreensão humana”, mas todas estas definições podem ser motivos válidos para se dizer gênero-estrela. Aliás, não é à toa que esta deve ser uma das identidades mais populares que pode ser considerada um xenogênero.


Paragênero é uma identidade de gênero para pessoas que se sentem próximas a certo gênero, sem serem exatamente de tal gênero. Gênero- (ou gênero-menos) é alguém cuja identidade pode ser descrita como algo próximo de certo termo, mas que não se encaixa completamente nele. Um termo ou outro pode ser escolhido por preferência pessoal ou pelas particularidades da identidade de gênero de alguém, mas estes são ambos termos para identidades próximas mas que divergem de certa identidade.

Acredito que tal proximidade possa ser interpretada de várias maneiras; alguém que é para-homem ou homem- poderia ter um gênero como proxvir, mas talvez esteja mais para magi-homem, quiver-homem, melle, hxmem, androx ou neuvir, por exemplo.

Desta forma, estes termos são úteis para quem acha algum termo que quase se aplica a si, sem se ver completamente como tal termo. Tem um gênero não-binário feminino, mas que não é exatamente só feminino? Dá pra dizer que é parafemigênero ou parafeminine (ou paraceterofeminine, parafingênero, etc). Tem um gênero meio ambíguo ou indefinido, mas que ao mesmo tempo não parece ser completamente bem descrito por isso? Dá pra dizer que é nímise-. Tem uma experiência de gênero que parece alienígena, grande e complexa, mas não quer usar o termo gênero-estrela por parecer descrever bem mais do que isso? Dá pra se dizer estrela-menos.

Muitas pessoas usam o termo demigênero para isso, por ser mais conhecido, mas quem quer evitar a conotação de seu gênero ser parcialmente algo ao invés de ser completamente algo, só que algo diferente/adjacente pode usar paragênero e/ou gênero-.


4 faixas horizontais na proporção 22:13:11:10. Suas cores são amarela clara, laranja, vermelha e marrom avermelhada.

Bandeira vanabrela; fogo/calor

O sistema vanabrela (ou vanabrella, vanarela ou vanarella) foi cunhado como uma forma de falar sobre algum xenogênero que é de alguma forma relacionado a algo, de forma abrangente ou específica.

Isso significa que, se uma pessoa só quer descrever que seu gênero é relacionado ou comparável a algo como, por exemplo, fogo, chuva, arrepios, pétalas caindo ou o que for, sem especificar além disso, a pessoa só precisa dizer que seu gênero é vanarela (fogo), vanabrella; chuva, vanarella – arrepios, vanabrela [pétalas caindo], etc.

Embora ainda termos mais específicos ainda sejam úteis em vários casos, o sistema vanabrela ajuda quem só quer descrever seu gênero como alguma palavra ou expressão curta. Assim, qualquer pessoa que saiba o que é vanabrela vai entender do que o gênero se trata, quando teria que pesquisar ou perguntar caso um termo mais específico fosse usado.

Uma pessoa que usa esse sistema pode ser chamada de vanabrélica.


Espero que esta lista tenha ajudado mais pessoas a considerarem usar ou espalhar informações sobre estas identidades de gênero. Todos estes termos estão em nossa lista de identidades não-binárias, embora vários destes não tenham páginas específicas.

Fontes:

As diferenças (ou não diferenças) entre orientações multi  0

Uma bandeira composta por cinco faixas horizontais: uma rosa, uma roxa, uma amarela, uma verde e uma azul. As faixas centrais são um terço do tamanho da primeira e da última faixa.

É extremamente comum haverem discussões sobre o que significam as orientações dentro do guarda-chuva multi – ou seja, as que são definidas por atração por mais de um gênero – especialmente hoje em dia, quando existem pessoas usando várias orientações diferentes.

Existem, assim, duas visões principais contrárias sobre o assunto:

  • Todas estas orientações são idênticas, e dentro deste campo existem tanto as pessoas que acham que por isso todo mundo deveria usar um rótulo só (geralmente bi) quanto as pessoas que veem rótulos como uma preferência pessoal que, ainda que inútil, deva ser respeitada;
  • Todas estas orientações são completamente diferentes, e duas pessoas que sentem atração da mesma forma usando rótulos diferentes ou estão desinformadas, ou ao menos uma das pessoas está ativamente cometendo apagamento contra o rótulo que ela deveria estar usando.

Como dá para perceber lendo a lista de orientações disponíveis neste site ou a matéria na Revista Elx que escrevi há anos atrás sobre isso (página 15), acredito que ambas as visões estão (parcialmente) erradas.

Isso não porque simplesmente quero ter uma opinião diferente, mas sim porque ambas as ideias vão contra a identificação de muitas pessoas, e muitas vezes até mesmo contra as definições que boa parte das comunidades dessas identidades específicas usam para elas.


Vou começar a explicar isso pelas orientações mais comumente discutidas nesse tipo de briga: bi, poli, pan e o(m)ni. Dentro de suas próprias comunidades, elas são comumente definidas como:

Bi: atração por mais de um gênero (x), atração por múltiplos gêneros (x), atração por dois ou mais gêneros (x) (x) (x).

Enquanto o texto não define o que é ser bi, o Manifesto Bissexual diz explicitamente para as pessoas não verem bi como uma identidade com “dois lados”, ou como algo que se resume a sentir atração pelos dois gêneros binários.

Ainda que estas sejam definições colocadas de formas diferentes, é importante destacar que estas comunidades não restringem bi a sentir atração por dois gêneros, por poucos gêneros ou por todos os gêneros; qualquer quantidade de gêneros maior do que um é inclusa nessas definições.

Poli: atração por múltiplos gêneros (x) (x), atração por múltiplos gêneros mas não necessariamente todos (x) atração por múltiplos gêneros mas não todos (x) (x), atração por mais de um gênero (x).

Uma das definições exclui pessoas que sentem atração por todos os gêneros, mas as outras não; por isso, acredito que faça mais sentido definir poli simplesmente como atração por múltiplos gêneros (a parte “não necessariamente todos” está implícita na definição, e pode ou não ser adicionada sem excluir ninguém).

Pan: atração por todos os gêneros ou que não é determinada por gênero (x) (x) (x), atração por todos os sexos e gêneros ou, para algumas pessoas, independentemente de gênero (x), atração por todos os sexos e gêneros (x), atração não limitada por gênero (x).

Observação: A questão de atração por sexo é excludente. Enquanto pessoas pan vão sentir atração por pessoas de qualquer sexo se gênero não é um fator em sua atração, ou se sentem atração por pessoas de qualquer identidade de gênero, colocar isso na definição infere que outras pessoas estão certas em excluir pessoas intersexo ou trans de sua atração, ou incluí-las injustamente, porque “sentem atração por certo(s) sexo(s)”.

Qualquer pessoa pode recusar a se relacionar com outras por qualquer motivo. Qualquer pessoa pode ter certos fetiches ou preferências do que gostaria ou não gostaria de fazer durante relações sexuais. Mas essas coisas não são determinadas pela capacidade da pessoa de sentir atração por certo(s) gênero(s), que é o que uma orientação definida por atração por certo(s) gênero(s) descreve. Nem é como se fosse possível saber quais hormônios, cromossomos e genitálias que todas as pessoas possuem antes de sentir atração (enquanto identidade de gênero em geral é algo que a pessoa vai dizer antes de tirar a roupa ou mostrar exames médicos).

Por isso, nenhuma orientação deve ser definida como “atração por tal sexo”, e a capacidade de sentir atração independentemente do sexo não é exclusiva de qualquer orientação.

Deixando isso de lado, as definições comumente usam dois possíveis critérios: atração por todos os gêneros e atração que não é limitada por gênero. Uma pessoa pan pode achar que um desses dois a representa mais do que o outro, ou pode não ter preferência entre eles. Mais sobre isso na página sobre a identidade pan.

Mas acho bom destacar que pessoas pan podem, sim, sentir atração mais por uns gêneros do que por outros. A questão de sentir atração sem o gênero ser o fator é uma possibilidade, não uma obrigação.

Em relação a omni, a coisa é mais complicada, porque poucas pessoas se identificam como tal, não existindo grupos maiores definindo esta orientação. Portanto, as perspectivas acabam sendo mais pessoais, e não necessariamente são resultados de interagir com mais pessoas da comunidade para achar pontos em comum.

Mas aqui estão algumas definições: atração por todos os gêneros, vendo eles de forma diferente (ou seja, atração por todos os gêneros mas que é determinada por gênero) (x) (x), atração por muitos gêneros (x), atração por todos os gêneros igualmente ou diferentemente, e talvez atração por otherkin/therians (x), atração por muitos gêneros mas não todos, sendo que a atração pode não ser por todos os gêneros por conta de escolha (x), atração por todos os gêneros que pode não ser limitada a humanes (e que pode teoricamente incluir outras espécies que podem consentir, como aliens) (x), atração por todos os gêneros igualmente (x), atração por todos os gêneros e expressões de gênero (x), atração por todos os gêneros de múltiplas espécies que podem consentir (x), atração por tudo (x).

Tentando organizar isso:

  • A grande maioria das definições inclui atração por todos os gêneros;
  • Muitas definições restringem ou enfatizam que pessoas omni em geral sentem atração por gêneros diferentes de formas diferentes;
  • Algumas definições dizem que pessoas omni sentem atração igual por todos os gêneros;
  • Algumas definições incluem não-humanes na atração;
  • Uma ou outra definição considera que pessoas omni não precisam sentir atração por todos os gêneros, ou não sentem atração por todos os gêneros.

Como estas definições são contraditórias, é difícil definir omni como uma coisa só, mas eu prefiro dizer que é atração por todos os gêneros, e que esta orientação geralmente é usada por pessoas que não querem se associar à identidade pan, ou pela conotação de “gênero não ser fator na atração” ser algo que queiram evitar (mesmo que ela seja opcional), ou por serem basicamente pan mas não sentirem atração por todos os gêneros, ou por quererem expressar de alguma forma que sua atração é “maior do que só por humanes” (ainda que eu não veja porque pessoas de outras orientações não poderiam ter atração por seres como alienígenas ou anjos ou vampires caso tivessem contato com tais seres).


Em relação a estas quatro orientações, consigo ver que se dividem em dois tipos: atração que não precisa incluir todos os gêneros (bi, poli) e atração que geralmente inclui todos os gêneros (pan, omni).

Embora pessoas que sejam bi e poli possam ter atração por todos os gêneros, é importante incluir as que não possuem. Dizer que são a mesma coisa que pan (que inclui atração em potencial por pessoas de qualquer identidade de gênero em todas as suas definições) é excluir pessoas que sentem atração por mais de uma identidade não-binária sem sentir atração por gêneros binários, pessoas que sentem atração por homens e mulheres sem sentirem atração por nenhuma identidade não-binária ou só por algumas identidades não-binárias e pessoas que sentem atração por um gênero binário e por uma ou mais identidades não-binárias sem sentir atração pelo outro gênero binário.

Essa é uma questão séria porque isso deixa essas pessoas sem nenhuma opção de rótulo popular que não as apague. E efetivamente as exclui de espaços multi, como se fossem “basicamente mono” só por não terem atração por todas as identidades de gênero.

Observação: E, sim, pessoas binárias, atração por pessoas não-binárias é relevante. Alguém que é bi por sentir atração por mulheres e por pessoas gênero neutro é tão bi quanto alguém que sente atração por homens e mulheres. Se você imediatamente pensa que alguém que sente atração só por mulheres e por pessoas gênero neutro é alguém que “sente atração por pessoas que parecem mulheres e quer disfarçar”, é você quem está reduzindo pessoas à sua aparência e possível genitália de forma cissexista.

Uma pessoa que sente atração só por mulheres, de diferentes expressões de gênero e gêneros designados, sente atração por um gênero. Uma pessoa que sente atração por diversas identidades de gênero sente atração por múltiplas identidades de gênero independentemente de passabilidade, expressão de gênero, gênero designado ou corporalidade.

Voltando ao assunto: Você pode, sim, se definir como bi ou poli por sentir atração por todos os gêneros. Porém, definir estas orientações como restritas a quem tem atração por todos os gêneros é excluir pessoas dela.

Da mesma forma, você pode se definir como bi por sentir atração por dois gêneros, mas dizer que todas as pessoas bi sentem atração por dois gêneros é apagar a experiência de outras pessoas bi. E você pode se definir como poli por sentir atração por “muitos gêneros mas não todos”, “três ou mais gêneros” ou “algum número de gêneros entre dois e todos, sem incluir esses extremos”, mas há outras pessoas que usam esta identidade que não possuem tais experiências, e elas não estão “deturpando o rótulo” quando a maioria das definições já as inclui.

Também quero destacar que em nenhuma definição existe algum critério como “ter que sentir atração por mais de um gênero igualmente” ou “ter que sentir atração por gêneros diferentes de formas diferentes”. Algumas pessoas bi/poli vão ter preferência por certos gêneros, outras não. Isso não é algo que diferencia bi de poli, ou bi/poli de pan e/ou omni.

Eu espero que já tenha ficado óbvia a distinção entre bi/poli e pan, mas e a distinção entre pan e omni?

Sinceramente, é o que já foi escrito lá em cima. Muitas pessoas veem os rótulos como a mesma coisa, outras gostam do aspecto sobrenatural de omni, outras querem se afastar da conotação de “atração não influenciada por gênero” que muitas pessoas pan se identificam como tendo.

Isso não significa que pessoas pan estejam apagando a identidade omni caso sua atração seja influenciada por gênero. Também não significa que pessoas omni só querem se achar melhores do que pessoas pan. Os motivos pessoais para pessoas se identificarem com um rótulo ao invés do outro podem vir de “a bandeira é mais legal” até “tenho trauma do termo porque sofri abuso de alguém que o usa”, além de virem de alguma das ênfases citadas.

Múltiplas palavras possuem sinônimos, muitas vezes que possam ser mais adequados em situações diferentes. Não é ruim que pessoas possam escolher que rótulo achem melhor.

Quanto a pessoas “se excluindo e fragmentando a comunidade”: quem está mesmo fazendo isso é quem insiste em só incluir rótulos mais antigos/populares. Se você insiste que seu espaço é só bissexual e que todo mundo que quer participar precisa lidar com pessoas presumindo que são bissexuais, ainda que você queira atingir toda a população multi, sim, seu espaço é excludente e está contribuindo com a fragmentação da comunidade, mais do que pessoas que preferem usar alguma palavra mais específica por representá-las melhor.

Existem termos guarda-chuva inclusivos: multi, pluraliane, monodissidente, não-monoatraíde (estes últimos dois também incluem ou deveriam incluir pessoas a-espectrais, de orientações fluidas, de orientações indefinidas e outras que sofrem com monossexismo). Existem espaços que usam BiPanPoli+, BPQ+ ou outras siglas, e embora não sejam tão inclusivas, podem ser um começo para quem tem medo de que só os termos citados não sejam suficientes para atrair gente.

A ideia de que existe um número limitado de termos aceitáveis para orientações é, também, monossexista. Assim como a ideia de que qualquer orientação precise ser completamente exclusiva de outras, sem ter nenhuma sobreposição entre elas. Afinal, é o tipo de normatividade pregada por quem diz que só existe “gay(/lésbica) ou hétero”, que o resto é desnecessário, complicado demais, irrelevante, tentativa de conseguir atenção, falta de caráter, contraprodutivo, inexistente. Que essas acusações não sejam feitas por outras pessoas multi também.

Finalmente, gostaria de pedir que pessoas usem definições como guias gerais, não como regras que precisam ser seguidas ao pé da letra. Pessoas podem se identificar como pan com exceções, e não ter atração por todos os gêneros. Pessoas podem se identificar como omni e sentir atração sem que gênero seja um fator. Talvez sejam casos menos comuns, mas ainda existem e devem ser respeitados.


O texto está bem mais longo do que eu planejava, então a conclusão em si está aí em cima. Mas aqui tem outras orientações multi, e suas similaridades e diferenças de outras orientações:

Toren/Trixen: Excluem atração por um gênero binário, mas incluem atração por um gênero binário e uma ou mais identidades não-binárias. São alternativas úteis a bi ou poli quando se quer especificar a falta de atração por um gênero binário (assim como pan é uma alternativa útil quando se quer especificar a atração por todos os gêneros).

Orientações flexíveis (heteroflexível, feminaflexível, torenflexível, etc.): Ao contrário do que muita gente prega, ser “de alguma orientação com exceções” não é exclusividade de quem não tem atração por pessoas não-binárias, ou de “pessoas inseguras que só não querem se dizer bi”. Uma pessoa pode se dizer bi, multi, poli, etc. e ainda usar um desses rótulos. Uma pessoa não-binária pode sentir atração frequente por mulheres e atração infrequente por qualquer outra identidade de gênero, e preferir feminaflexível a pan/omni, ou usar dois destes rótulos, ou os três. Estes rótulos não invalidam qualquer outro, só especificam atração. Também não são uma tentativa de não se dizerem multi, quando tais rótulos estão inclusos no critério de sentir atração por mais de um gênero.

Equ: É uma orientação definida como “atração por pessoas em geral, sem especificação; atração por todes igualmente”. Ou seja, é basicamente uma orientação que exclui gênero da definição (similar a uma das definições de pan), e que especifica que a atração é igual por todas as pessoas (similar a uma das definições de omni). Uma provável tentativa de fazer algo com uma definição mais específica.

Paro: Uma orientação para pessoas que explicitamente sentem atração por gêneros diferentes de formas diferentes. Mais específica do que bi ou poli, mais abrangente do que as orientações flexíveis. Este rótulo foi feito para pessoas que, por exemplo, sentem atração com frequência por pessoas não-binárias, mas só sentem atração por homens quando não são pessoas próximas, e só sentem atração por mulheres raramente. É bem importante como uma forma de especificar que a pessoa sente atração por mais de um gênero, mas não da mesma forma.

Orientações fluidas (abro, duo, crono, etc.): Enquanto muitas pessoas simplesmente colocam elas como parte do guarda-chuva multi, especialmente quando elas não são exclusivas de pessoas a-espectrais, pessoas com essas identidades já demonstraram vontade de só serem consideradas multi em momentos que sentem atração por mais de um gênero.

Pessoalmente, acho que qualquer pessoa que já tenha sentido atração por mais de um gênero, ainda que não no presente e/ou não ao mesmo tempo possa se considerar multi, mas é possível também que a orientação de alguém mude entre diversas orientações sem que a pessoa seja capaz de sentir atração por mais de um gênero (por exemplo, a pessoa pode fluir entre omniassexual, cupiossexual, demissexual, caligossexual e virsexual e sempre sentir atração somente por homens quando consegue senti-la), então acho que é bom deixar a critério de cada pessoa fluida se querem se dizer multi ou não.

Orientações indefinidas (pomo, com, novi, etc.): Novamente, muitas pessoas simplesmente dizem que essas pessoas são multi e ponto, já que esse é o caso de muitas pessoas que “não se encaixam em nenhuma orientação”, mas acho que é uma presunção muito grande dizer que todas essas pessoas sentem atração por mais de um gênero, quando as definições desses termos incluem outras possibilidades.

Acho importante incluir que há a possibilidade de pessoas fluidas/indefinidas serem multi, mas também acho importante incluir que elas nem sempre vão ser, e deixar a decisão de se identificar como multi pra cada pessoa.


Caso você não saiba e queira saber o que significa algum dos termos mencionados, procure-o na lista de orientações daqui.

Postagens de outros lugares que explicam conceitos básicos  0

Um monte de bandeiras de orgulho. É possível reconhecer as bandeiras multi, NCL, não-binária, NHINCQ+, altersexo, trans, variorientada e intersexo.

Infelizmente, eu acabo sentindo que não tem muita coisa que eu queira escrever que acho mais relevante postar aqui do que em outros lugares. Também tem conteúdo de outras pessoas que nem seria postado diretamente no Orientando, de qualquer forma. Então aqui está um compilado de textos e outros materiais dos últimos anos que podem te ajudar – ou ajudar pessoas próximas – a entender alguns conceitos básicos relacionados à comunidade LGBTQIAPN+.

Caso alguém esteja procurando por conteúdo ainda mais básico e mastigado, como “o que é intersexo” ou “o que é orientação romântica”, utilize o menu do site. Estes textos complementam os do site (incluindo os do blog), ao invés de resumi-los.

Conteúdos básicos / gerais

Conteúdos intersexo

Conteúdos cisdissidentes

Conteúdos sobre orientações e termos juvélicos

Conteúdos sobre linguagem pessoal e neolinguagem

Outros conteúdos

Alguns destes textos podem já estar ou serem adicionados futuramente ao tópico Recursos básicos, mas quis fazer uma postagem focando nestes textos mais novos que talvez nem todo mundo que acompanhe o site tenha visto.

Tentativa de conscientização sobre algumas identidades do espectro arromântico  2

Bandeira arromântica: 5 faixas horizontais de mesmo tamanho nas cores verde, verde clara, branca, cinza e preta.

Conceitos que recomendo saber sobre antes de ler o texto:

Hoje é o terceiro dia da Semana da Conscientização sobre o Espectro Arromântico de 2020 (dias 16 até 22 de fevereiro). Caso você queira postar o que fez/vai fazer para comemorar esta data, não deixe de passar neste tópico!

Como eu já escrevi em uma postagem hoje, ainda há uma ausência muito grande de conteúdo arromântico, então fica chato falar de algum assunto dentro da comunidade arromântica como se fosse mais obscuro do que outros quando não há conteúdo arromântico em geral.

E quando eu falo de conteúdo, eu falo em relação a tudo. Faltam personagens arromântiques em mídias populares; falta conteúdo informativo sobre o que é ser arromântique que não seja só sobre a definição de arromântique; faltam matérias bem feitas em revistas sobre o que é ser arromântique; faltam postagens, vídeos, podcasts e afins de pessoas arromânticas falando de suas histórias que alcançam pessoas fora da comunidade arromântica.

Esta postagem é sobre pessoas arromânticas que sentem alguma atração romântica. Porém, quero explicitar que minha intenção não é dizer que este grupo é mais apagado do que todos os outros em contextos arromânticos, e nem jogar pessoas arromânticas que não sentem atração romântica debaixo do ônibus. Este é apenas um assunto que escolhi, mas existem vários outros que merecem atenção também.

A possibilidade de pessoas serem arromânticas é extremamente apagada, em geral.

Quando é considerada, porém, é comum que esta consideração só se estenda à ideia de que a pessoa não sente atração romântica nenhuma.

E mesmo pessoas que aceitam a possibilidade de alguém não sentir atração romântica podem não aceitar que alguém se identifique como grisromântique, arofluxo, akoirromântique, demirromântique ou afins. Afinal, não sentir atração romântica comumente ou deixar de sentir atração depois de um tempo “é normal”, e portanto dentro dos padrões alorromânticos.

A questão é, ao lidar com algo “novo” que alguém está dizendo que é, algo fora do padrão que não tem boa representação na mídia, a tendência é duvidar. Isso é um problema para toda a comunidade, especialmente quando não existe forma de “provar” que alguém não tem gênero ou não sente atração por pessoas de certo gênero ou afins.

E atração romântica é algo que muita gente que é ou que se diz alorromântica vê como nebuloso, então, de fora, uma “escala cinza” entre alguém sem atração romântica nenhuma e com atração romântica forte/frequente/consistente pode não parecer “real” ou “útil”.

Eu vou citar aqui umas possibilidades que podem ser meio extremas, mas que podem dar uma ideia melhor dos motivos pelos quais pessoas podem se dizer de certas orientações no espectro arromântico.

Akoirromântique/lithromântique/etc.: Uma pessoa tem várias quedas durante sua vida, mas elas raramente são recíprocas, e, quando são, a pessoa perde interesse rapidamente. Mesmo que tente namorar e ache alguém de quem gosta muito, a atração romântica sempre parece sumir no início do relacionamento. A pessoa pode realmente querer que uma relação dê certo e pode realmente gostar de outras pessoas, mas não consegue se manter apaixonada por ninguém.

Amicusromântique: Uma pessoa nunca se apaixona por personagens, celebridades, ou por pessoas que conhece mais ou menos que se declaram para ela. Porém, frequentemente se apaixona por pessoas em seu grupo de amizades, por mais que seja pequeno e/ou que as pessoas nele estejam indisponíveis.

Arofluxo: Uma pessoa por anos não se apaixona por ninguém. Depois passa algum tempo se apaixonando por várias pessoas, mas tal paixão vai embora bem rápido após relacionamentos começarem. Depois a pessoa passa um ano sem se apaixonar por ninguém. Daí a pessoa se apaixona por uma única pessoa e a paixão permanece por alguns anos. Depois ela vai embora totalmente. Depois ela volta, e a pessoa se apaixona por várias pessoas bem rápido por algum tempo. Depois a pessoa para de se apaixonar e questiona se realmente é capaz disso.

Caligorromântique: Uma pessoa começa a se apaixonar anos depois de suas amizades, mas tal paixão parece ser extremamente fraca e a pessoa questiona várias vezes se tal atração é real ou apenas pressão social. Em todos os relacionamentos que entra, ainda que ame romanticamente as outras pessoas, parece que sempre as outras pessoas a amam muito mais.

Claperromântique: Uma pessoa sentia atração romântica com frequência, mas após um relacionamento abusivo, nunca mais sentiu atração romântica. Ainda que tivesse sido alorromântica antes, ela não vê sentido em se identificar como tal quando é atualmente incapaz de se apaixonar e desinteressada em ter outros relacionamentos românticos.

Cupiorromântique: Uma pessoa não sente atração romântica nenhuma, mas pensa que namorar pode ser divertido e quer ter relacionamentos românticos mesmo sem ser capaz de se apaixonar por outras pessoas.

Demirromântique: Uma pessoa nunca se apaixona por ninguém, e detesta o quanto outras pessoas ficam puxando o assunto de possíveis relacionamentos românticos como se pessoas tivessem que estar apaixonadas o tempo todo. Depois de anos, a pessoa se apaixona por uma pessoa ou outra, mas apenas por pessoas que admira muito e com quem conviveu por bastante tempo.

Grisromântique: Uma pessoa só se apaixonou uma vez na vida há anos atrás, e não considera que isso define mais sua orientação do que todos os outros anos nos quais não sentiu atração nenhuma.

Proculromântique: Uma pessoa tem paixões assim como suas amizades, mas ao contrário delas, suas paixões são sempre por celebridades, personagens fictícies, ou outras pessoas completamente inacessíveis. E não só como adolescente; isso continua por vários anos e a pessoa nunca se apaixona por pessoas de qualquer gênero que estão à sua volta.

Recipromântique: Uma pessoa nunca se apaixona ou tem interesse em relacionamentos. Porém, algumas das vezes nas quais outras pessoas se declararam apaixonadas por ela, a pessoa começou a se apaixonar por estas pessoas, sem nunca ter tido nenhuma paixão fora disso.

Independentemente das experiências de cada pessoa e da sua opinião sobre que rótulos deveriam estar usando, por favor, respeite a identificação alheia. Cada pessoa tem seus motivos para usar os termos que usa.

Como expressar linguagem em eventos físicos LGBTQIAPN+  0

Buttons contendo diversos conjuntos de linguagem por cima de uma série de folhas de adesivos que também contém diversos conjuntos de linguagem.

(Nota: Caso você esteja procurando por um texto mais básico que explique o que são conjuntos de linguagem pessoal, sugiro este texto se você quiser algo mais resumido, e este texto se você quiser algo mais completo.)

Eventos físicos são boas oportunidades de oferecer espaços de expressão que muitas vezes não existem na escola, no trabalho, na família ou em outros ambientes. Esses espaços podem ser úteis para trocar experiências, ajudar no processo de questionamento das próprias identidades, normalizar a existência de pessoas LGBTQIAPN+, trocar contatos, fazer amizades, etc.

Uma questão importante quando se tem interação direta entre pessoas é a da linguagem. Na maior parte dos ambientes, ao menos no período no qual este texto está sendo publicado, nenhum tipo de neutralização da linguagem sequer é considerada, e pessoas se referem entre si presumindo que alguém é “feminine” e portanto “deveria aceitar” a/ela/a, ou que alguém é “masculine” e portanto “deveria aceitar” o/ele/o.

Isso acaba por maldenominar (errar a linguagem e/ou o gênero de) muitas pessoas. Às vezes é só a pessoa corrigir que as outras respeitam, mas muitas vezes nem isso é respeitado. Por isso, em alguns lugares se tornou prática se apresentar já falando a própria linguagem, ou usar algum adesivo ou crachá com a própria linguagem. E isso vale para todes, não só pra quem não usa a linguagem que seria presumida no dia-a-dia, justamente para normalizar a ideia de que linguagem não deve ser presumida.

Mas então, como isso funciona? Como podemos incluir a linguagem como uma informação importante, excluíndo o menor número de pessoas possível?

 

1) Métodos visuais constantes (crachás, adesivos, camisetas, buttons, etc.)

Essas ideias funcionam de forma similar, afinal são rótulos de identificação que a pessoa pode usar no evento e depois guardar, devolver ou jogar fora.

Questões que precisam ser pensadas ao usar esses métodos são:

  • Os materiais necessários (papel, adesivo, caneta, etc.) precisam ser distribuídos na entrada, já que as pessoas podem não lembrar ou ficar com preguiça de trazer os próprios; especialmente quem acha que “é bobagem”.
  • A linguagem precisa estar disposta de forma que todes possam utilizá-la. Por exemplo, colocar opções pré-prontas como “masculina”/”feminina”/”neutra”/”outras” prioriza pessoas masculinas que usam o/ele/o e pessoas femininas que usam a/ela/a, enquanto pessoas neutras que usam o/ele/o, pessoas femininas que usam a/ila/e e pessoas que querem especificar sua linguagem além de “neutra” ou “outras”, entre outros casos, não são corretamente contempladas dentro dessas opções. Colocar um campo para gênero ao invés de linguagem também não ajuda a identificar a linguagem de pessoas não-binárias e/ou que não usam os conjuntos normalmente associados a suas identidades de gênero.
  • Pessoas precisam ser ensinadas a ler e usar sistemas de conjuntos que não sejam excludentes de pessoas que não usam “conjuntos óbvios”. Alguém que pensa que é só colocar sua linguagem como “ele/dele” ou como “feminina” pode não saber o que fazer quando ver alguém com “ze/elz/e” ou “o/ele/e”, e isso é um problema. Um panfleto informativo ou um exemplo junto ao preenchimento podem ajudar.
  • Como as pessoas no evento serão lembradas de que devem sempre checar a linguagem escrita, ao invés de presumirem? É um problema grande e comum existirem eventos aonde alguém pode preencher “-/elu/e” ou “ELD” em algum campo de conjunto ou pronome, sem ninguém perceber que esses termos são os que devem ser utilizados. Lembretes e repreensões podem ser bem-vindes.
  • Como serão tratadas as pessoas que não sinalizarem nada? Algumas pessoas podem não ter entendido o sistema, estarem se questionando e/ou estarem no armário. Se a pessoa colocou -/-/-, ok, nada deve ser utilizado, mas se a pessoa realmente não preencheu ou não está usando nada? O ideal seria evitar usar qualquer tipo de linguagem diferenciada, mas acho sempre bom preparar um conjunto neutro e avisar sobre ele. Por exemplo, um cartaz no local dizendo: Pessoas que não sinalizarem nenhum conjunto de linguagem serão tratadas por ê/elu/e.
  • Como será o apoio a quem usa mais de um conjunto? Pessoas que mudam de linguagem de tempos em tempos poderão ter mais de um crachá/adesivo? Se o registro for eletrônico, há como alguém mudar facilmente o conjunto que usa? Há espaço para colocar mais de um conjunto?
  • É necessário pensar nas pessoas que não vão conseguir ler ou enxergar as linguagens das outras pessoas; é recomendável que métodos orais também sejam utilizados em conjuntos com os visuais.

 

Prós de usar adesivos, pulseiras ou crachás:

  • Geralmente são feitos de forma barata e descartável, permitindo que pessoas mudem facilmente seus conjuntos e não precisem perder muito tempo escondendo o sinal de que não usam a linguagem esperada ao mudar de ambiente;
  • Geralmente possibilitam que as pessoas possam usar os conjuntos que quiserem, pois todo mundo tem que escrever os seus;
  • Ao serem preenchidos na hora do evento ou da inscrição, há como ensinar pessoas a usar conjuntos de linguagem mais completos e inclusivos;
  • Adesivos e crachás podem ser relativamente fáceis de ler em um evento de tamanho pequeno ou médio.

 

Contras de usar adesivos, crachás ou pulseiras:

  • Alguma forma de ensinar a escrever e interpretar conjuntos precisa ser providenciada;
  • O tamanho pode acabar sendo limitado e dificultando que pessoas leiam os conjuntos umas das outras, ou que alguém possa usar quantos conjuntos quiser;
  • Pode ficar muito óbvio que pessoas que podem querer esconder que não sabem que conjunto usar não estão usando o item;
  • Pulseiras podem ser difíceis de ler, por conta de sua posição.

 

Prós de usar buttons ou broches:

  • As pessoas podem utilizá-los em múltiplos eventos, por serem resistentes;
  • Caso a ideia seja fazer antes um item personalizado por pessoa, é possível incluir qualquer conjunto, desde que seja combinado com antecedência;
  • Ainda que não seja o método mais barato, pode ser uma opção viável para eventos menores;
  • Por ser algo que possa ser “bonitinho” ou “legal”, pode ser mais fácil convencer algumas pessoas a usar estes do que a usar crachás ou adesivos.

 

Contras de usar buttons ou broches:

  • Estes itens tendem a ser menores, e portanto mais difíceis de ler, do que crachás, adesivos ou camisetas; Como precisam ser feitos com antecedência, existe a possibilidade de algumas pessoas mudarem de ideia sobre seus conjuntos, caso os itens sejam personalizados;
  • Caso os buttons ou broches não sejam personalizados para cada pessoa, há a possibilidade de sobrarem ou faltarem buttons de certos conjuntos;
  • Pessoas que precisam de mais de um conjunto com certeza vão precisar de buttons/broches extras;
  • Algumas pessoas não usariam estes itens em lugares facilmente visíveis, por não quererem furar suas roupas ou seus acessórios.

 

Prós de usar camisetas:

  • É possível ter bastante espaço para deixar os conjuntos bem visíveis;
  • Caso sejam feitas com antecedência, é possível incluir quaisquer conjuntos;
  • Não há como alguém ter a desculpa de não querer estragar a roupa;
  • Dependendo da situação, pode ser possível usar as mesmas camisetas para múltiplos eventos.

 

Contras de usar camisetas:

  • É o método mais caro entre os citados, e eu só recomendaria para grupos pequenos com encontros frequentes;
  • Assim como buttons e broches, como camisetas precisam ser feitas com antecedência, ou há o risco de pessoas mudarem de ideia entre a confecção das camisetas e o evento, ou há o risco de faltarem e/ou sobrarem camisetas por não checarem quantas pessoas querem quais conjuntos;
  • Algum vestiário precisará ser providenciado, e muitas pessoas cisdissidentes não se sentem seguras em vestiários ou banheiros divididos entre gêneros binários;
  • É difícil de não notar alguém sem a camiseta, o que pode causar problemas para quem não quer declarar seu(s) conjunto(s).

 

2) Métodos ditos (apresentações, correções, perguntas na hora, etc.)

São métodos que não precisam de materiais prévios, e que só dependem de uma pessoa dizer para outras qual é a sua linguagem (ou qual é a linguagem de outra pessoa).

Apresentação seria quando alguém diz seu nome e outras informações relevantes para o evento, que neste caso incluiria um ou mais conjuntos de linguagem. Dependendo do evento, uma outra pessoa pode anunciar o nome e o conjunto de linguagem de cada pessoa. Correção seria esperar alguém maldenominar para corrigir com o conjunto certo. Perguntar na hora seria esperar até o momento de se referir a alguém para perguntar a palavra certa a ser utilizada.

Questões a serem pensadas em relação a isso:

  • É necessário incentivar pessoas a não presumirem linguagens alheias mesmo sem lembretes visuais de que nem todo mundo tem uma linguagem “óbvia”;
  • Ainda é bom ter uma explicação sobre artigo/pronome/final de palavra ou algum sistema inclusivo, para que pessoas não tenham que passar por invalidação ou vergonha;
  • Caso algum dos métodos específicos seja recomendado, isso precisa ficar bem explícito para todes es participantes do evento;
  • Para que pessoas com conjuntos de linguagem fora da norma se sintam confortáveis em dizer/afirmar seus conjuntos, é preciso haver pistas de que o ambiente é seguro para isso. Isso pode ser feito de várias formas, mas explicações sobre conjuntos de linguagem e presença forte de pessoas com conjuntos fora do padrão pode ajudar;
  • A pronúncia de palavras dentro da neolinguagem pode confundir algumas pessoas. Existe alguma forma de garantir que os conjuntos sejam entendidos por todo mundo, sem constranger pessoas para que soletrem seus conjuntos ou expliquem funções gramaticais?
  • Como não deixar pessoas “de linguagem óbvia” em sua zona de conforto, tirando sarro da ideia de que linguagem não é sempre óbvia, se recusando a dizer a própria linguagem e maldenominando outras pessoas, sem forçar pessoas a falar seus conjuntos caso realmente não queiram escolher ou culpar pessoas por não conseguirem lembrar dos conjuntos de todo mundo na sala?

 

Prós de uma apresentação que inclui conjunto(s) de linguagem:

  • Cada pessoa pode incluir que elementos quiser de seu conjunto de linguagem, e quantos conjuntos quiser, geralmente sem limites de espaço;
  • Pode ser mais fácil alguém que não quer revelar seu(s) conjunto(s) deixar de revelá-lo(s);
  • Ao pronunciar palavras, pessoas podem entender melhor como falar de quem usa neolinguagem sem terem que chutar se baseando em materiais que são somente visuais.

 

Contras de uma apresentação que inclui conjunto(s) de linguagem:

  • Não há como esperar que todas as pessoas lembrem dos conjuntos de todo mundo, especialmente se houverem várias pessoas que se apresentaram;
  • A inclusão do conjunto na apresentação pode pressionar alguém a escolher entre falar seu conjunto corretamente (e talvez explicá-lo) naquela hora ou arriscar ser maldenominade;
  • Por ser um formato mais livre, pessoas podem descrever seus conjuntos de formas pouco inclusivas ou complexas demais;
  • Pessoas podem esquecer ou omitir seus conjuntos com mais facilidade, o que pode desencorajar algumas pessoas de falarem de seus conjuntos, e/ou prejudicar pessoas que queriam ser chamadas por seus conjuntos.

 

Prós de corrigir pessoas quando ocorre maldenominação:

  • É mais fácil de alguém lembrar da linguagem certa para se referir a alguém quando há um lembrete na mesma hora sobre ela;
  • A maioria das pessoas não vai precisar falar seus conjuntos, já que eles só vão ser relevantes se alguma pessoa falar sobre outra, o que ajuda pessoas que não querem dizer seus conjuntos.

 

Contras de corrigir pessoas quando ocorre maldenominação:

  • Esperar ocorrer maldenominação para corrigir coloca esta responsabilidade somente na pessoa que está sendo maldenominada, o que vai afetar desproporcionalmente pessoas cuja linguagem não é presumida corretamente no dia-a-dia;
  • Enquanto é possível não usar linguagem específica para ninguém para não ocorrerem maldenominações, a maioria das pessoas não pensa em fazer isso, o que pode causar constrangimento para certas pessoas, que vão ter que ser corrigidas o tempo todo;
  • Algumas pessoas podem não se sentir à vontade de interromper a fala de alguém para corrigir, e algumas falas podem ser inadequadas de parar para corrigir, o que faz com que algumas maldenominações possam ficar sem ser corrigidas.

 

Prós de perguntar conjuntos para pessoas na hora de falar com elas/sobre elas:

  • A maioria das pessoas não é pressionada a falar de seus conjuntos;
  • Não há a necessidade de lembrar das apresentações de várias pessoas, apenas de lembrar de perguntar conjuntos na hora de falar sobre elas;
  • Não há nem a necessidade de presumir conjuntos, nem a necessidade de se forçar a não usar nenhuma linguagem específica.

 

Contras de perguntar conjuntos para pessoas na hora de falar com elas/sobre elas:

  • Caso a pessoa em questão vá embora, não vai mais ter como saber a linguagem da pessoa;
  • Pessoas que não querem revelar seus conjuntos podem ser mais intimidadas por esse jeito de lidar com a situação do que pelos outros;
  • Alguém pode ter que parar no meio de uma frase para perguntar a linguagem alheia, quebrando o ritmo de uma fala.

 

Mas e então, o que seria melhor?

O motivo desta postagem oferecer várias opções e seus prós e contras é que não existe uma solução perfeita, ao menos não enquanto existe a prática de presumir conjuntos de linguagem de outras pessoas.

Ao escolher que métodos serão utilizados, o tipo de evento deverá ser considerado: é um piquenique entre um grupo fechado aonde a maioria se conhece? É uma roda de conversa pública aonde poderão haver dezenas de pessoas que desconhecem o assunto? É um evento de premiação aonde não haverá muita interação entre quem está falando e a plateia? É um evento dividido entre várias atividades diferentes acontecendo ao mesmo tempo, sendo que haverá um mesmo período de confraternização para todes? É um evento aonde quase as mesmas pessoas se encontram toda semana ou todo mês, ou é provável que a maioria não se conheça?

Além do formato do evento, também pode ser importante considerar outros fatores: o quanto é esperado que quem vá para o evento saiba sobre o quanto é errado maldenominar pessoas? O quanto é esperado que vão saber lidar com o modelo de conjunto de linguagem escolhido? Ao levar em consideração com que roupas as pessoas vão para o evento, o quanto é provável que rejeitem adesivos, camisetas ou broches?

Eu diria que o fator mais importante nisso é que as organizações de eventos levem essa questão de conjuntos de linguagem a sério, a ponto de oferecer para todes es participantes explicações efetivas sobre conjuntos e sobre não presumi-los. Para que maldenominações, piadas com neolinguagem e descaso com explicações acerca de linguagem pessoal parem de ser norma, as organizações dos eventos precisam pensar em como vão lidar com estes problemas, e não só esperar que o oferecimento de crachás, adesivos ou possibilidade de falar dos próprios conjuntos enquanto cada pessoa se apresenta vá magicamente fazer com que pessoas com conjuntos de linguagem “inesperados” sejam respeitadas e contempladas.

Algumas cunhagens de 2017!  0

2017 recém acabou. Poucas identidades novas foram adicionadas às nossas listas, mas, como sempre, temos muitos termos novos.

Esta postagem não possui o objetivo de ditar quais são as identidades mais importantes do ano, nem de ditar que você deveria estar se identificando com essas ao invés de usar o que você usa atualmente. Também não são identidades que você precisa decorar. Estas são apenas algumas identidades que podem ser interessantes para quem se interessa em conhecer ou em recomendar rótulos.

Orientações

Descrição da imagem: um retângulo composto por cinco faixas horizontais do mesmo tamanho. As faixas são, respectivamente, vinho, branca, rosa, branca e verde escura.

Bandeira feminamórica

Viramórique e Feminamórique: São orientações para pessoas não-binárias que sentem atração apenas por um gênero: homens no caso de viramórique, e mulheres no caso de feminamórique.

Enquanto os prefixos vir e femina já haviam sido sugeridos como alternativas a home e mulhe, foi apenas neste ano que sugeriram utilizar estes com o sufixo amórique. A intenção é não ter que depender de sufixos como sexual ou romântique. Ainda assim, é possível se chamar de feminassexual ou de virromântique, caso queiram.

Não consegui achar provas concretas de que os termos foram cunhados em 2017, mas todas as postagens que consegui achar com os termos foram feitos a partir de junho. Aqui está uma delas.

Netúnique (ou neptúnique) e Urânique: Ao contrário das orientações acima, estas são baseadas em exclusão. Uma pessoa netúnica sente atração por todas as pessoas que não são homens ou pessoas não-binárias que sentem conexão com o gênero masculino ou com masculinidade. Uma pessoa urânica sente atração por todas as pessoas que não são mulheres ou pessoas não-binárias que sentem conexão com o gênero feminino ou com feminilidade.

Descrição da imagem: um retângulo composto de seis faixas horizontais de mesmo tamanho. As quatro primeiras formam um degradê de azul até ciano claro, a quinta é um tom claro de creme, e a última é um tom não tão claro de creme.

Bandeira urânica

Estes termos não são exclusivos a pessoas não-binárias, e foram feitos como alternativas ao que seriam mais ou menos orientações como nomin (atração por qualquer pessoa sem conexão com masculinidade), nofin (atração por qualquer pessoa sem conexão com feminilidade), nãomem (atração por qualquer pessoa não-homem) e nãolher (atração por qualquer pessoa não-mulher).

Quem cunhou estes termos foi Ichi, socialjusticeichigo no Tumblr, em 31 de agosto.

Paro-: Esta é uma orientação para pessoas que sentem atração por diferentes gêneros de forma diferente. Por exemplo, a pessoa sente atração por mulheres frequentemente, mas para sentir atração por homens, precisa de um laço especial primeiro. Ou a pessoa tem atração por pessoas agênero frequentemente e por outras pessoas não-binárias às vezes sim e às vezes não, enquanto sua atração por homens e mulheres é presente mas fraca.

É uma orientação multi, por requerer atração por múltiplos gêneros. Pessoas com esta orientação geralmente não se sentem confortáveis em se sentir parte do espectro assexual/arromântico/etc., pois geralmente consideram que ao menos parte da sua atração é completamente alo (frequente/forte/etc.; fora do espectro assexual/arromântico/etc).

Esta orientação foi cunhada por Beau, beau-is-gai (previamente hello-im-cielo) no Tumblr. Aqui está uma postagem com a discussão da bandeira.

Nomaflux (e, consequentemente, nowomaflux): Uma orientação para quem geralmente não sente atração por homens, mas que pode sentir ao menos um pouco de vez em quando. Nowomaflux seria alguém que geralmente não sente atração por mulheres, mas que pode sentir ao menos um pouco de vez em quando. É similar ao conceito de orientações flexíveis, mas é definida de forma mais específica.

Esta orientação também foi cunhada por Beau. Aqui está a sugestão dada.

Path- (é possível traduzir como pat-): Um rótulo para quem não consegue entender sua orientação devido a uma natureza empática.

Além da informação de que o rótulo pode ser usado junto a bi-, a- ou a outros prefixos, não há informação sobre qual a intenção do rótulo. Talvez a pessoa sinta empatia de forma que sinta ter a orientação de outras pessoas, talvez a pessoa não saiba diferenciar a empatia por outras pessoas de atração sexual, romântica, ou outra. Talvez se aplique a ambas as situações.

A cunhagem desta orientação é creditada a caijda no Tumblr, mas a única postagem sobre essa orientação foi postada pelo blog Uncommon Genders.

Gêneros

Descrição da imagem: Um retângulo composto por cinco faixas horizontais de mesmo tamanho. A primeira faixa é turquesa clara. A segunda é amarela clara. A terceira é rosa. A quarta é roxa clara. A quinta é roxa. No centro da terceira faixa, há o símbolo estelariano, uma grande estrela de cinco pontas rodeada de três outras estrelas, uma menor do que a outra. As estrelas são pretas.

Bandeira lunetiana

Jupariane, lunetiane, saturniane e mercuriane: São gêneros não-binários ligados a leves energias celestiais, as quais possuem certas características de gêneros, embora não necessariamente indiquem proximidade destes gêneros. Esta energia pode mudar e variar em intensidade.

A energia celestial de juparianes é masculina, a de lunetianes é feminina, a de saturnianes masculina e feminina, e a de mercurianes é alguma energia que pode ou não ter gênero, mas que de qualquer forma não é masculina, feminina ou de alguma combinação entre as duas.

Estes termos foram criados a partir de outubro de 2017. Evian, juparian no Tumblr, cunhou jupariane, e a partir daí, outros termos foram surgindo.

Gênero-Netuno: Um gênero que de início parece grande e fluido, mas que com o tempo é possível perceber que é relativamente sólido e estável.

Nomeado desta forma porque Netuno é um planeta gasoso com um núcleo sólido.

Este gênero foi cunhado com outros gêneros planetários, lá pelo meio do ano. Confira o resto da lista aqui!

Descrição da imagem: Um retângulo composto por diversas faixas vermelho-rosadas em tons e tamanhos diferentes. A bandeira é simétrica e imita um degradê, de forma que a faixa no centro da bandeira é mais clara e as das pontas são mais escuras.

Bandeira gênero-rubi

Gênero-rubi, gênero-safira e gênero-esmeralda: São gêneros não-binários vagamente fluidos associados esteticamente com suas respectivas pedras. Gênero-rubi é associado com masculinidade, gênero-safira com feminilidade e gênero-esmeralda com neutralidade.

Estes foram cunhados no primeiro semestre. A cunhagem de gênero-rubi e de gênero-safira foi num chat, mas é possível ver a cunhagem de gênero-esmeralda aqui.

Pirogênero: Um gênero associado com fogo. Não apenas com o movimento do fogo, que é o caso de gênero-fogo, mas também com o consumo do fogo, e/ou com a alta temperatura do fogo (que também pode ser relacionada com alguma emoção em relação ao gênero).

Descrição da imagem: Uma bandeira retangular formada por diversos triângulos. O triângulo menor, central na parte inferior, é de uma cor creme. Atrás dele, há um triângulo maior laranja claro. Atrás deste, um triângulo maior laranja avermelhado. Atras deste, podem ser vistas faixas marrons. Atrás delas, é possível ver um fundo preto, ou talvez marrom escuro.

Bandeira pirogênero

Este gênero foi cunhado próximo ao início do ano. A primeira postagem sobre ele está aqui, e alguns outros comentários sobre o gênero estão aqui.

Possigênero: Um gênero para quem não sabe se seu gênero é fluido ou não. Possi vem da palavra possível.

Este gênero foi cunhado anonimamente lá pelo meio do ano.

Feliz 2018, e lembre-se de que sempre há novos termos sendo cunhados para aprender e pesquisar!

Mais mitos e verdades sobre pessoas não-binárias  2

Mitos e verdades é uma série de postagens que vão direto ao ponto sobre opiniões preconceituosas ou errôneas de alguma outra forma.

A presente postagem não cobre assuntos cobertos por esta outra postagem.

Mito: Qualquer conjunto que não é o/ele/o ou a/ela/a é neutro.
Verdade: Linguagem dita neutra é a utilizada para se referir a grupos de pessoas que usam diferentes linguagens, ou a pessoas às quais você não sabe como se referir. Existem conjuntos que raramente são utilizados como neutros (como i/íli/i ou u/ilu/u), e, em nossa sociedade, é possível assumir que o/ele/o é geralmente utilizado como conjunto neutro.
Caso alguma pessoa disser que “usa linguagem neutra”, recomendo perguntar qual a linguagem que utiliza como neutra, afinal neolinguagem oferece opções infinitas que alguém poderia teoricamente considerar neutra.

Mito: Todas as possibilidades de gêneros envolvem masculinidade, neutralidade, feminilidade ou relação a estes conceitos de alguma forma.
Verdade: Limitar as possibilidades de gêneros é sempre prejudicial a alguma categoria de pessoas. Existem diversas experiências de gêneros diferentes que utilizam outros conceitos para serem descritos, existem diferentes gêneros que rejeitam estes conceitos de diferentes formas. Alguns exemplos são maverique, egogênero e caelgênero.
Além disso, é possível ser mulher, ser homem, ou ter algum gênero relacionado a estes sem ter alguma ligação particular com masculinidade, neutralidade ou feminilidade.

Mito: Não existem orientações para pessoas não-binárias atraídas apenas por algum gênero binário.
Verdade: Existem diversas orientações feitas com esse propósito em mente, como home- e mulhe- e diversos prefixos que foram feitos para substituir tanto estes quanto andro- e gine- (prefixos que algumas vezes são utilizados como “atração por pênis” e “atração por vagina” e que por isso são evitados por muita gente). Viramórique ou vir- para atração por homens e feminamórique ou femina- para atração por mulheres são os termos mais populares atualmente, mas isso pode mudar, afinal criam termos novos para isso frequentemente.
Pessoas não-binárias que se sentem confortáveis com isso e que acreditam que estes termos se aplicam à sua experiência também podem utilizar gay, lésbica ou similares.

Mito: Pessoas não são atraídas por pessoas não-binárias, e sim por qual gênero cada pessoa parece ser.
Verdade: Atração por gêneros é por gênero. É possível mentir para si mesme para ver uma pessoa como outro gênero ainda que a pessoa não seja de tal gênero, ou mentir para outras pessoas para que vejam certa pessoa como outro gênero, mas pela consciência e conhecimento sobre o gênero alheio, a atração vai naturalmente começar a ocorrer, deixar de ocorrer, mudar de intensidade, etc., dependendo das orientações e dos gêneros envolvidos.

Mito: Pessoas que se identificam como bi/poli/multi que não sentem atração pelo próprio gênero estão fetichizando gêneros não-binários e tentando esconder que só aceitam sentir atração por um tipo de corpo.
Verdade: Pessoas que deixam de se identificar como hétero por reconhecerem que alguém por quem possuem atração possui um gênero diferente do qual imaginaram estão respeitando mais a existência de gêneros não-binários do que quem quer manter a “pureza” da comunidade LGBTQIAPN+ com a ideia de que só atração pelo mesmo gênero pode ser considerada não-hétero.
Pessoas multi sem atração pelo próprio gênero possivelmente aceitam mais a ideia de que corpo não determina gênero do que pessoas que suspeitam que alguém que (aparentemente) só sente atração por pessoas com certo tipo de corpo seja secretamente hétero.

Mito: Pessoas não-binárias não possuem demandas próprias, diferentes das de pessoas trans binárias.
Verdade: Exorsexismo existe. Pessoas não-binárias precisam de ao menos uma opção de neolinguagem sendo reconhecida oficialmente, precisam da aceitação da sociedade em relação à diversidade de identidades de gênero existentes, precisam de banheiros e espaços que não obriguem a escolher uma opção binária de gênero, precisam de acesso a procedimentos de transição que não assuma ou force pessoas a se identificarem com algum gênero binário. Precisam de que haja acesso à informação sobre pessoas não-binárias para a população geral, precisam poder ter suas identidades respeitadas em consultas, aulas e profissões. Precisam que a sociedade respeite que linguagem, nomes e maneiras de se vestir não devem ser sempre consideradas masculinas ou femininas, e nem prova de que alguém está mentindo sobre seu gênero. Um mundo ideal para pessoas não-binárias precisa de muito mais reestruturação social do que um mundo ideal apenas para pessoas trans binárias.

Mito: Neurogêneros (identidades exclusivas para pessoas neurodivergentes) dificultam o processo de recuperação de pessoas neurodivergentes.
Verdade: Nem toda neurodivergência é “curável”. De qualquer forma, pessoas neurodivergentes merecem palavras para descrever suas experiências, ainda que elas mudem no futuro por conta de certos sintomas amenizarem ou desaparecerem. Ninguém precisa ficar prese a rótulos que não são mais úteis.

Quer ver mais mitos e verdades? Comente!

26 de outubro: Dia da Visibilidade Intersexo  0

Uma das bandeiras intersexo, criada pela OII

Esta é uma das poucas datas dedicadas a pessoas intersexo. Nenhuma identidade LGBTQIAPN+ possui muitas datas por si só, mas levando em consideração a invisibilidade de questões intersexo dentro de espaços LGBTQIAPN+, parece que é pouco.

Caso você não saiba o que significa intersexo, você pode ver a página sobre isso aqui. Caso esteja sem tempo, pessoas intersexo são pessoas que, por motivos congênitos – ou seja, naturais, e não induzidos por acidentes, terapia hormonal ou cirurgias – não se encaixam nos padrões diadistas de “sexo feminino” ou “sexo masculino”. Isso pode ser devido a uma série de fatores, afinal existem dezenas de variações corporais relacionadas a sexo conhecidas.

Poucos países possuem o direito à autodefinição de gênero ou à autonomia corporal de pessoas intersexo. De fato, apenas Malta, um pequeno país europeu, atualmente garante integridade física, autonomia corporal, reparações, proteções anti-discriminação, acesso a documentos de identificação, acesso aos mesmos direitos de pessoas perissexo/diádicas (não-intersexo) cisgênero, direito a mudar seus documentos entre masculino e feminino e acesso a uma classificação X nos documentos caso não se sintam confortáveis com categorias binárias. (Fontes: 1, 2)

Ou seja, na maior parte dos países, pessoas intersexo não possuem acesso a classificações além de “masculina” ou “feminina” em seus documentos. Tais classificações não podem ser autodeterminadas. Pessoas intersexo menores de idade não possuem proteções contra terapias hormonais e cirurgias de mutilação genital forçadas e/ou erroneamente recomendadas por pessoas da área médica que acreditam que ser intersexo é “doença” ou “malformação” a ser “curada”. Não possuem nenhuma proteção contra discriminação por serem intersexo. Também não possuem nenhum direito a reparações pelo sofrimento que essas condições de vida podem causar. E, ainda assim, muitos grupos que lutam por direitos humanos nem mencionam questões intersexo.

A partir da introdução e da fortificação do binário de sexo e gênero, pessoas intersexo tornaram-se marginalizadas por seus corpos supostamente “não alinharem” com seus gêneros, assim como outras pessoas não-cis (outras porque pessoas intersexo não possuem privilégio cis), e assim como pessoas não-hétero são excluídas pelos seus gêneros/corpos “não alinharem” com as expectativas sobre suas atrações. Por isso, pessoas intersexo fazem parte da comunidade LGBTQIAPN+, ainda que existam pessoas intersexo que não se sentem seguras ou que não fazem questão de participar de espaços para a comunidade, assim como existem pessoas gays, bi, assexuais, não-binárias, etc. que fazem o mesmo.

Algumas organizações atualmente incluem pessoas intersexo em suas versões da sigla (LGBTI, LGBTIQ, LGBTQIA, etc.), mas muitas tentam passar a ideia de que questões intersexo são totalmente diferentes de “questões LGBT” (como se as identidades cobertas por essas quatro letras não tivessem demandas diferentes entre si), que pessoas intersexo “cis e hétero” estão “se forçando na comunidade”, ou que pessoas de alguma outra identidade “controversa” (queer, assexual, arromântica, não-binária, etc.) estão “forçando pessoas intersexo na comunidade” para “confundir as pessoas e arranjar desculpas para invadir a comunidade”. Essas versões da história ou do propósito da comunidade são desrespeitosas tanto a pessoas intersexo quanto a outras pessoas que não são visivelmente parte da sigla que foi definida como “tradicional” ou “consagrada”.

Como comunidade e como pessoas, devemos aceitar, respeitar e incluir pessoas intersexo, não só por suas demandas serem parecidas com outras partes da comunidade, mas também por serem um grupo marginalizado pela sociedade dicissexista por si só.

Procurem se informar, especialmente pelo dia de hoje ter gerado diversas postagens sobre questões intersexo.

Intersex Day (inglês/espanhol) (+ Facebook)

Visibilidade Intersexo (+ Tumblr)

Intersexo e Dignidade

Coletivo Intersexo RS (sem postagens informativas no momento, precisa de gente)

#VisibilidadeIntersexo no Twitter

#VisibilidadeIntersexo no Instagram

#Intersexo no Instagram

A culpa des excluídes  2

Boa parte das pessoas LGBTQIAPN+ – e, convenhamos, especialmente quem tem não tem sua identidade explicitamente descrita na sigla – já ouviu falar que estamos “complicando as coisas demais”, que estamos criando rótulos “desnecessários” ou “específicos demais”, que temos “fetiche por rótulos”, que estamos “reforçando normas” ou “colocando pessoas em caixas” por meio da existência de rótulos, ou da identificação com estes rótulos.

Já escrevi sobre o possível motivo das pessoas preferirem certos rótulos ao invés de rótulos mais “comuns” ou “óbvios”. Esta postagem é mais para questionar a direção da raiva, indignação ou frustração das pessoas que não compreendem o motivo desses rótulos existirem.

Quando questionam a existência da identidade pan, já que bi supostamente incluiria qualquer tipo de atração por mais de um gênero, é a comunidade pan que é questionada, ou vista como dramática: não se pensa em quanto comunidades bi empurraram tanto ideais cissexistas (de não incluir pessoas trans em sua atração) ou exorsexistas (de considerar que só existem dois gêneros, homem e mulher, e que esses devem ser os gêneros pelos quais pessoas bi são atraídas).

Aliás, quando questionam a existência da identidade bi, é a culpa da própria comunidade bi que “quer fazer modinha”, e não do heterossexismo que coloca a atração por determinado gênero como importante, ou do monossexismo da sociedade em acreditar que uma pessoa só pode ter atração por um ou por outro gênero.

Quando questionam o uso de bi e pan ao invés de bissexual ou pansexual, a culpa é das comunidades assexual e arromântica que quiseram “esmiuçar orientações desnecessariamente”, não da insistência da sociedade em tratar amor e sexo como um pacote único.

Quando questionam identidades como gênero-fofo, gênero-estrela e altegênero, são essas pessoas as culpadas por “confundir gostos/personalidade com gênero”, “trivializar questões trans” ou “criar caixinhas”, e não a sociedade que é culpada por reforçar a ideia de dois gêneros binários distintos com expectativas definidas, e depois reclamar que várias pessoas não querem se identificar com esses gêneros não importa o quanto há uma flexibilidade maior dessas expectativas.

A culpa também certamente não é das pessoas que assumem coisas sobre rótulos menos específicos como não-binárie e gênero queer, descrevendo pessoas que se identificam como tal como “sem gênero” ou “meio homem meio mulher” ou “neutras” ou “confusas sobre gênero” sem ao menos perguntar como experienciam sua não-binariedade. A culpa também não é de pessoas não-binárias de rótulos mais abrangentes ou até mesmo “aceitáveis” que pregam o quanto suas experiências não-binárias são as únicas que existem.

Transgênero como palavra para substituir transexual? A culpa é desse bando de floquinhos de neve especiais que não conseguem se decidir se são trans ou não e que se ofendem com qualquer tipo de cissexismo casual, não da comunidade médica que usa transexual como diagnose, ou de setores da comunidade transexual que reforçam ideais exorsexistas, ou até mesmo a ideia cissexista de que só pessoas trans que passam por transição médica possuem o direito de serem respeitadas como seu gênero de verdade.

Rotular a orientação como queer? Pra quê, pra se achar? Porque certamente não é por causa do cissexismo em comunidades gays e lésbicas, ou do estigma da palavra bissexual, ou da rejeição de outros rótulos pela sociedade em geral ou mesmo por comunidades LGBT- como ridículos e desnecessários.

Cupiossexual, demissexual, gray-assexual? Só diga assexual! Mesmo que isso faça as pessoas questionarem sua identidade assim que você expressar interesse sexual em alguém, ou falar que gosta de sexo, ou que quer sexo. Mesmo dentro da própria comunidade assexual.

Se palavras existem, há razão para elas. Não importa o quanto você não as usaria. Rótulos servem para mostrar que existem possibilidades, não para estereotipar ou limitar. Caso você não se sinta confortável com seu rótulo, use outro, e confie que outras pessoas possuem discernimento para fazer o mesmo.