Um espaço de aprendizagem

Posts for Tag : rótulos

As diferenças (ou não diferenças) entre orientações multi  0

Uma bandeira composta por cinco faixas horizontais: uma rosa, uma roxa, uma amarela, uma verde e uma azul. As faixas centrais são um terço do tamanho da primeira e da última faixa.

É extremamente comum haverem discussões sobre o que significam as orientações dentro do guarda-chuva multi – ou seja, as que são definidas por atração por mais de um gênero – especialmente hoje em dia, quando existem pessoas usando várias orientações diferentes.

Existem, assim, duas visões principais contrárias sobre o assunto:

  • Todas estas orientações são idênticas, e dentro deste campo existem tanto as pessoas que acham que por isso todo mundo deveria usar um rótulo só (geralmente bi) quanto as pessoas que veem rótulos como uma preferência pessoal que, ainda que inútil, deva ser respeitada;
  • Todas estas orientações são completamente diferentes, e duas pessoas que sentem atração da mesma forma usando rótulos diferentes ou estão desinformadas, ou ao menos uma das pessoas está ativamente cometendo apagamento contra o rótulo que ela deveria estar usando.

Como dá para perceber lendo a lista de orientações disponíveis neste site ou a matéria na Revista Elx que escrevi há anos atrás sobre isso (página 15), acredito que ambas as visões estão (parcialmente) erradas.

Isso não porque simplesmente quero ter uma opinião diferente, mas sim porque ambas as ideias vão contra a identificação de muitas pessoas, e muitas vezes até mesmo contra as definições que boa parte das comunidades dessas identidades específicas usam para elas.


Vou começar a explicar isso pelas orientações mais comumente discutidas nesse tipo de briga: bi, poli, pan e o(m)ni. Dentro de suas próprias comunidades, elas são comumente definidas como:

Bi: atração por mais de um gênero (x), atração por múltiplos gêneros (x), atração por dois ou mais gêneros (x) (x) (x).

Enquanto o texto não define o que é ser bi, o Manifesto Bissexual diz explicitamente para as pessoas não verem bi como uma identidade com “dois lados”, ou como algo que se resume a sentir atração pelos dois gêneros binários.

Ainda que estas sejam definições colocadas de formas diferentes, é importante destacar que estas comunidades não restringem bi a sentir atração por dois gêneros, por poucos gêneros ou por todos os gêneros; qualquer quantidade de gêneros maior do que um é inclusa nessas definições.

Poli: atração por múltiplos gêneros (x) (x), atração por múltiplos gêneros mas não necessariamente todos (x) atração por múltiplos gêneros mas não todos (x) (x), atração por mais de um gênero (x).

Uma das definições exclui pessoas que sentem atração por todos os gêneros, mas as outras não; por isso, acredito que faça mais sentido definir poli simplesmente como atração por múltiplos gêneros (a parte “não necessariamente todos” está implícita na definição, e pode ou não ser adicionada sem excluir ninguém).

Pan: atração por todos os gêneros ou que não é determinada por gênero (x) (x) (x), atração por todos os sexos e gêneros ou, para algumas pessoas, independentemente de gênero (x), atração por todos os sexos e gêneros (x), atração não limitada por gênero (x).

Observação: A questão de atração por sexo é excludente. Enquanto pessoas pan vão sentir atração por pessoas de qualquer sexo se gênero não é um fator em sua atração, ou se sentem atração por pessoas de qualquer identidade de gênero, colocar isso na definição infere que outras pessoas estão certas em excluir pessoas intersexo ou trans de sua atração, ou incluí-las injustamente, porque “sentem atração por certo(s) sexo(s)”.

Qualquer pessoa pode recusar a se relacionar com outras por qualquer motivo. Qualquer pessoa pode ter certos fetiches ou preferências do que gostaria ou não gostaria de fazer durante relações sexuais. Mas essas coisas não são determinadas pela capacidade da pessoa de sentir atração por certo(s) gênero(s), que é o que uma orientação definida por atração por certo(s) gênero(s) descreve. Nem é como se fosse possível saber quais hormônios, cromossomos e genitálias que todas as pessoas possuem antes de sentir atração (enquanto identidade de gênero em geral é algo que a pessoa vai dizer antes de tirar a roupa ou mostrar exames médicos).

Por isso, nenhuma orientação deve ser definida como “atração por tal sexo”, e a capacidade de sentir atração independentemente do sexo não é exclusiva de qualquer orientação.

Deixando isso de lado, as definições comumente usam dois possíveis critérios: atração por todos os gêneros e atração que não é limitada por gênero. Uma pessoa pan pode achar que um desses dois a representa mais do que o outro, ou pode não ter preferência entre eles. Mais sobre isso na página sobre a identidade pan.

Mas acho bom destacar que pessoas pan podem, sim, sentir atração mais por uns gêneros do que por outros. A questão de sentir atração sem o gênero ser o fator é uma possibilidade, não uma obrigação.

Em relação a omni, a coisa é mais complicada, porque poucas pessoas se identificam como tal, não existindo grupos maiores definindo esta orientação. Portanto, as perspectivas acabam sendo mais pessoais, e não necessariamente são resultados de interagir com mais pessoas da comunidade para achar pontos em comum.

Mas aqui estão algumas definições: atração por todos os gêneros, vendo eles de forma diferente (ou seja, atração por todos os gêneros mas que é determinada por gênero) (x) (x), atração por muitos gêneros (x), atração por todos os gêneros igualmente ou diferentemente, e talvez atração por otherkin/therians (x), atração por muitos gêneros mas não todos, sendo que a atração pode não ser por todos os gêneros por conta de escolha (x), atração por todos os gêneros que pode não ser limitada a humanes (e que pode teoricamente incluir outras espécies que podem consentir, como aliens) (x), atração por todos os gêneros igualmente (x), atração por todos os gêneros e expressões de gênero (x), atração por todos os gêneros de múltiplas espécies que podem consentir (x), atração por tudo (x).

Tentando organizar isso:

  • A grande maioria das definições inclui atração por todos os gêneros;
  • Muitas definições restringem ou enfatizam que pessoas omni em geral sentem atração por gêneros diferentes de formas diferentes;
  • Algumas definições dizem que pessoas omni sentem atração igual por todos os gêneros;
  • Algumas definições incluem não-humanes na atração;
  • Uma ou outra definição considera que pessoas omni não precisam sentir atração por todos os gêneros, ou não sentem atração por todos os gêneros.

Como estas definições são contraditórias, é difícil definir omni como uma coisa só, mas eu prefiro dizer que é atração por todos os gêneros, e que esta orientação geralmente é usada por pessoas que não querem se associar à identidade pan, ou pela conotação de “gênero não ser fator na atração” ser algo que queiram evitar (mesmo que ela seja opcional), ou por serem basicamente pan mas não sentirem atração por todos os gêneros, ou por quererem expressar de alguma forma que sua atração é “maior do que só por humanes” (ainda que eu não veja porque pessoas de outras orientações não poderiam ter atração por seres como alienígenas ou anjos ou vampires caso tivessem contato com tais seres).


Em relação a estas quatro orientações, consigo ver que se dividem em dois tipos: atração que não precisa incluir todos os gêneros (bi, poli) e atração que geralmente inclui todos os gêneros (pan, omni).

Embora pessoas que sejam bi e poli possam ter atração por todos os gêneros, é importante incluir as que não possuem. Dizer que são a mesma coisa que pan (que inclui atração em potencial por pessoas de qualquer identidade de gênero em todas as suas definições) é excluir pessoas que sentem atração por mais de uma identidade não-binária sem sentir atração por gêneros binários, pessoas que sentem atração por homens e mulheres sem sentirem atração por nenhuma identidade não-binária ou só por algumas identidades não-binárias e pessoas que sentem atração por um gênero binário e por uma ou mais identidades não-binárias sem sentir atração pelo outro gênero binário.

Essa é uma questão séria porque isso deixa essas pessoas sem nenhuma opção de rótulo popular que não as apague. E efetivamente as exclui de espaços multi, como se fossem “basicamente mono” só por não terem atração por todas as identidades de gênero.

Observação: E, sim, pessoas binárias, atração por pessoas não-binárias é relevante. Alguém que é bi por sentir atração por mulheres e por pessoas gênero neutro é tão bi quanto alguém que sente atração por homens e mulheres. Se você imediatamente pensa que alguém que sente atração só por mulheres e por pessoas gênero neutro é alguém que “sente atração por pessoas que parecem mulheres e quer disfarçar”, é você quem está reduzindo pessoas à sua aparência e possível genitália de forma cissexista.

Uma pessoa que sente atração só por mulheres, de diferentes expressões de gênero e gêneros designados, sente atração por um gênero. Uma pessoa que sente atração por diversas identidades de gênero sente atração por múltiplas identidades de gênero independentemente de passabilidade, expressão de gênero, gênero designado ou corporalidade.

Voltando ao assunto: Você pode, sim, se definir como bi ou poli por sentir atração por todos os gêneros. Porém, definir estas orientações como restritas a quem tem atração por todos os gêneros é excluir pessoas dela.

Da mesma forma, você pode se definir como bi por sentir atração por dois gêneros, mas dizer que todas as pessoas bi sentem atração por dois gêneros é apagar a experiência de outras pessoas bi. E você pode se definir como poli por sentir atração por “muitos gêneros mas não todos”, “três ou mais gêneros” ou “algum número de gêneros entre dois e todos, sem incluir esses extremos”, mas há outras pessoas que usam esta identidade que não possuem tais experiências, e elas não estão “deturpando o rótulo” quando a maioria das definições já as inclui.

Também quero destacar que em nenhuma definição existe algum critério como “ter que sentir atração por mais de um gênero igualmente” ou “ter que sentir atração por gêneros diferentes de formas diferentes”. Algumas pessoas bi/poli vão ter preferência por certos gêneros, outras não. Isso não é algo que diferencia bi de poli, ou bi/poli de pan e/ou omni.

Eu espero que já tenha ficado óbvia a distinção entre bi/poli e pan, mas e a distinção entre pan e omni?

Sinceramente, é o que já foi escrito lá em cima. Muitas pessoas veem os rótulos como a mesma coisa, outras gostam do aspecto sobrenatural de omni, outras querem se afastar da conotação de “atração não influenciada por gênero” que muitas pessoas pan se identificam como tendo.

Isso não significa que pessoas pan estejam apagando a identidade omni caso sua atração seja influenciada por gênero. Também não significa que pessoas omni só querem se achar melhores do que pessoas pan. Os motivos pessoais para pessoas se identificarem com um rótulo ao invés do outro podem vir de “a bandeira é mais legal” até “tenho trauma do termo porque sofri abuso de alguém que o usa”, além de virem de alguma das ênfases citadas.

Múltiplas palavras possuem sinônimos, muitas vezes que possam ser mais adequados em situações diferentes. Não é ruim que pessoas possam escolher que rótulo achem melhor.

Quanto a pessoas “se excluindo e fragmentando a comunidade”: quem está mesmo fazendo isso é quem insiste em só incluir rótulos mais antigos/populares. Se você insiste que seu espaço é só bissexual e que todo mundo que quer participar precisa lidar com pessoas presumindo que são bissexuais, ainda que você queira atingir toda a população multi, sim, seu espaço é excludente e está contribuindo com a fragmentação da comunidade, mais do que pessoas que preferem usar alguma palavra mais específica por representá-las melhor.

Existem termos guarda-chuva inclusivos: multi, pluraliane, monodissidente, não-monoatraíde (estes últimos dois também incluem ou deveriam incluir pessoas a-espectrais, de orientações fluidas, de orientações indefinidas e outras que sofrem com monossexismo). Existem espaços que usam BiPanPoli+, BPQ+ ou outras siglas, e embora não sejam tão inclusivas, podem ser um começo para quem tem medo de que só os termos citados não sejam suficientes para atrair gente.

A ideia de que existe um número limitado de termos aceitáveis para orientações é, também, monossexista. Assim como a ideia de que qualquer orientação precise ser completamente exclusiva de outras, sem ter nenhuma sobreposição entre elas. Afinal, é o tipo de normatividade pregada por quem diz que só existe “gay(/lésbica) ou hétero”, que o resto é desnecessário, complicado demais, irrelevante, tentativa de conseguir atenção, falta de caráter, contraprodutivo, inexistente. Que essas acusações não sejam feitas por outras pessoas multi também.

Finalmente, gostaria de pedir que pessoas usem definições como guias gerais, não como regras que precisam ser seguidas ao pé da letra. Pessoas podem se identificar como pan com exceções, e não ter atração por todos os gêneros. Pessoas podem se identificar como omni e sentir atração sem que gênero seja um fator. Talvez sejam casos menos comuns, mas ainda existem e devem ser respeitados.


O texto está bem mais longo do que eu planejava, então a conclusão em si está aí em cima. Mas aqui tem outras orientações multi, e suas similaridades e diferenças de outras orientações:

Toren/Trixen: Excluem atração por um gênero binário, mas incluem atração por um gênero binário e uma ou mais identidades não-binárias. São alternativas úteis a bi ou poli quando se quer especificar a falta de atração por um gênero binário (assim como pan é uma alternativa útil quando se quer especificar a atração por todos os gêneros).

Orientações flexíveis (heteroflexível, feminaflexível, torenflexível, etc.): Ao contrário do que muita gente prega, ser “de alguma orientação com exceções” não é exclusividade de quem não tem atração por pessoas não-binárias, ou de “pessoas inseguras que só não querem se dizer bi”. Uma pessoa pode se dizer bi, multi, poli, etc. e ainda usar um desses rótulos. Uma pessoa não-binária pode sentir atração frequente por mulheres e atração infrequente por qualquer outra identidade de gênero, e preferir feminaflexível a pan/omni, ou usar dois destes rótulos, ou os três. Estes rótulos não invalidam qualquer outro, só especificam atração. Também não são uma tentativa de não se dizerem multi, quando tais rótulos estão inclusos no critério de sentir atração por mais de um gênero.

Equ: É uma orientação definida como “atração por pessoas em geral, sem especificação; atração por todes igualmente”. Ou seja, é basicamente uma orientação que exclui gênero da definição (similar a uma das definições de pan), e que especifica que a atração é igual por todas as pessoas (similar a uma das definições de omni). Uma provável tentativa de fazer algo com uma definição mais específica.

Paro: Uma orientação para pessoas que explicitamente sentem atração por gêneros diferentes de formas diferentes. Mais específica do que bi ou poli, mais abrangente do que as orientações flexíveis. Este rótulo foi feito para pessoas que, por exemplo, sentem atração com frequência por pessoas não-binárias, mas só sentem atração por homens quando não são pessoas próximas, e só sentem atração por mulheres raramente. É bem importante como uma forma de especificar que a pessoa sente atração por mais de um gênero, mas não da mesma forma.

Orientações fluidas (abro, duo, crono, etc.): Enquanto muitas pessoas simplesmente colocam elas como parte do guarda-chuva multi, especialmente quando elas não são exclusivas de pessoas a-espectrais, pessoas com essas identidades já demonstraram vontade de só serem consideradas multi em momentos que sentem atração por mais de um gênero.

Pessoalmente, acho que qualquer pessoa que já tenha sentido atração por mais de um gênero, ainda que não no presente e/ou não ao mesmo tempo possa se considerar multi, mas é possível também que a orientação de alguém mude entre diversas orientações sem que a pessoa seja capaz de sentir atração por mais de um gênero (por exemplo, a pessoa pode fluir entre omniassexual, cupiossexual, demissexual, caligossexual e virsexual e sempre sentir atração somente por homens quando consegue senti-la), então acho que é bom deixar a critério de cada pessoa fluida se querem se dizer multi ou não.

Orientações indefinidas (pomo, com, novi, etc.): Novamente, muitas pessoas simplesmente dizem que essas pessoas são multi e ponto, já que esse é o caso de muitas pessoas que “não se encaixam em nenhuma orientação”, mas acho que é uma presunção muito grande dizer que todas essas pessoas sentem atração por mais de um gênero, quando as definições desses termos incluem outras possibilidades.

Acho importante incluir que há a possibilidade de pessoas fluidas/indefinidas serem multi, mas também acho importante incluir que elas nem sempre vão ser, e deixar a decisão de se identificar como multi pra cada pessoa.


Caso você não saiba e queira saber o que significa algum dos termos mencionados, procure-o na lista de orientações daqui.

Tentativa de conscientização sobre algumas identidades do espectro arromântico  2

Bandeira arromântica: 5 faixas horizontais de mesmo tamanho nas cores verde, verde clara, branca, cinza e preta.

Conceitos que recomendo saber sobre antes de ler o texto:

Hoje é o terceiro dia da Semana da Conscientização sobre o Espectro Arromântico de 2020 (dias 16 até 22 de fevereiro). Caso você queira postar o que fez/vai fazer para comemorar esta data, não deixe de passar neste tópico!

Como eu já escrevi em uma postagem hoje, ainda há uma ausência muito grande de conteúdo arromântico, então fica chato falar de algum assunto dentro da comunidade arromântica como se fosse mais obscuro do que outros quando não há conteúdo arromântico em geral.

E quando eu falo de conteúdo, eu falo em relação a tudo. Faltam personagens arromântiques em mídias populares; falta conteúdo informativo sobre o que é ser arromântique que não seja só sobre a definição de arromântique; faltam matérias bem feitas em revistas sobre o que é ser arromântique; faltam postagens, vídeos, podcasts e afins de pessoas arromânticas falando de suas histórias que alcançam pessoas fora da comunidade arromântica.

Esta postagem é sobre pessoas arromânticas que sentem alguma atração romântica. Porém, quero explicitar que minha intenção não é dizer que este grupo é mais apagado do que todos os outros em contextos arromânticos, e nem jogar pessoas arromânticas que não sentem atração romântica debaixo do ônibus. Este é apenas um assunto que escolhi, mas existem vários outros que merecem atenção também.

A possibilidade de pessoas serem arromânticas é extremamente apagada, em geral.

Quando é considerada, porém, é comum que esta consideração só se estenda à ideia de que a pessoa não sente atração romântica nenhuma.

E mesmo pessoas que aceitam a possibilidade de alguém não sentir atração romântica podem não aceitar que alguém se identifique como grisromântique, arofluxo, akoirromântique, demirromântique ou afins. Afinal, não sentir atração romântica comumente ou deixar de sentir atração depois de um tempo “é normal”, e portanto dentro dos padrões alorromânticos.

A questão é, ao lidar com algo “novo” que alguém está dizendo que é, algo fora do padrão que não tem boa representação na mídia, a tendência é duvidar. Isso é um problema para toda a comunidade, especialmente quando não existe forma de “provar” que alguém não tem gênero ou não sente atração por pessoas de certo gênero ou afins.

E atração romântica é algo que muita gente que é ou que se diz alorromântica vê como nebuloso, então, de fora, uma “escala cinza” entre alguém sem atração romântica nenhuma e com atração romântica forte/frequente/consistente pode não parecer “real” ou “útil”.

Eu vou citar aqui umas possibilidades que podem ser meio extremas, mas que podem dar uma ideia melhor dos motivos pelos quais pessoas podem se dizer de certas orientações no espectro arromântico.

Akoirromântique/lithromântique/etc.: Uma pessoa tem várias quedas durante sua vida, mas elas raramente são recíprocas, e, quando são, a pessoa perde interesse rapidamente. Mesmo que tente namorar e ache alguém de quem gosta muito, a atração romântica sempre parece sumir no início do relacionamento. A pessoa pode realmente querer que uma relação dê certo e pode realmente gostar de outras pessoas, mas não consegue se manter apaixonada por ninguém.

Amicusromântique: Uma pessoa nunca se apaixona por personagens, celebridades, ou por pessoas que conhece mais ou menos que se declaram para ela. Porém, frequentemente se apaixona por pessoas em seu grupo de amizades, por mais que seja pequeno e/ou que as pessoas nele estejam indisponíveis.

Arofluxo: Uma pessoa por anos não se apaixona por ninguém. Depois passa algum tempo se apaixonando por várias pessoas, mas tal paixão vai embora bem rápido após relacionamentos começarem. Depois a pessoa passa um ano sem se apaixonar por ninguém. Daí a pessoa se apaixona por uma única pessoa e a paixão permanece por alguns anos. Depois ela vai embora totalmente. Depois ela volta, e a pessoa se apaixona por várias pessoas bem rápido por algum tempo. Depois a pessoa para de se apaixonar e questiona se realmente é capaz disso.

Caligorromântique: Uma pessoa começa a se apaixonar anos depois de suas amizades, mas tal paixão parece ser extremamente fraca e a pessoa questiona várias vezes se tal atração é real ou apenas pressão social. Em todos os relacionamentos que entra, ainda que ame romanticamente as outras pessoas, parece que sempre as outras pessoas a amam muito mais.

Claperromântique: Uma pessoa sentia atração romântica com frequência, mas após um relacionamento abusivo, nunca mais sentiu atração romântica. Ainda que tivesse sido alorromântica antes, ela não vê sentido em se identificar como tal quando é atualmente incapaz de se apaixonar e desinteressada em ter outros relacionamentos românticos.

Cupiorromântique: Uma pessoa não sente atração romântica nenhuma, mas pensa que namorar pode ser divertido e quer ter relacionamentos românticos mesmo sem ser capaz de se apaixonar por outras pessoas.

Demirromântique: Uma pessoa nunca se apaixona por ninguém, e detesta o quanto outras pessoas ficam puxando o assunto de possíveis relacionamentos românticos como se pessoas tivessem que estar apaixonadas o tempo todo. Depois de anos, a pessoa se apaixona por uma pessoa ou outra, mas apenas por pessoas que admira muito e com quem conviveu por bastante tempo.

Grisromântique: Uma pessoa só se apaixonou uma vez na vida há anos atrás, e não considera que isso define mais sua orientação do que todos os outros anos nos quais não sentiu atração nenhuma.

Proculromântique: Uma pessoa tem paixões assim como suas amizades, mas ao contrário delas, suas paixões são sempre por celebridades, personagens fictícies, ou outras pessoas completamente inacessíveis. E não só como adolescente; isso continua por vários anos e a pessoa nunca se apaixona por pessoas de qualquer gênero que estão à sua volta.

Recipromântique: Uma pessoa nunca se apaixona ou tem interesse em relacionamentos. Porém, algumas das vezes nas quais outras pessoas se declararam apaixonadas por ela, a pessoa começou a se apaixonar por estas pessoas, sem nunca ter tido nenhuma paixão fora disso.

Independentemente das experiências de cada pessoa e da sua opinião sobre que rótulos deveriam estar usando, por favor, respeite a identificação alheia. Cada pessoa tem seus motivos para usar os termos que usa.

Algumas cunhagens de 2017!  0

2017 recém acabou. Poucas identidades novas foram adicionadas às nossas listas, mas, como sempre, temos muitos termos novos.

Esta postagem não possui o objetivo de ditar quais são as identidades mais importantes do ano, nem de ditar que você deveria estar se identificando com essas ao invés de usar o que você usa atualmente. Também não são identidades que você precisa decorar. Estas são apenas algumas identidades que podem ser interessantes para quem se interessa em conhecer ou em recomendar rótulos.

Orientações

Descrição da imagem: um retângulo composto por cinco faixas horizontais do mesmo tamanho. As faixas são, respectivamente, vinho, branca, rosa, branca e verde escura.

Bandeira feminamórica

Viramórique e Feminamórique: São orientações para pessoas não-binárias que sentem atração apenas por um gênero: homens no caso de viramórique, e mulheres no caso de feminamórique.

Enquanto os prefixos vir e femina já haviam sido sugeridos como alternativas a home e mulhe, foi apenas neste ano que sugeriram utilizar estes com o sufixo amórique. A intenção é não ter que depender de sufixos como sexual ou romântique. Ainda assim, é possível se chamar de feminassexual ou de virromântique, caso queiram.

Não consegui achar provas concretas de que os termos foram cunhados em 2017, mas todas as postagens que consegui achar com os termos foram feitos a partir de junho. Aqui está uma delas.

Netúnique (ou neptúnique) e Urânique: Ao contrário das orientações acima, estas são baseadas em exclusão. Uma pessoa netúnica sente atração por todas as pessoas que não são homens ou pessoas não-binárias que sentem conexão com o gênero masculino ou com masculinidade. Uma pessoa urânica sente atração por todas as pessoas que não são mulheres ou pessoas não-binárias que sentem conexão com o gênero feminino ou com feminilidade.

Descrição da imagem: um retângulo composto de seis faixas horizontais de mesmo tamanho. As quatro primeiras formam um degradê de azul até ciano claro, a quinta é um tom claro de creme, e a última é um tom não tão claro de creme.

Bandeira urânica

Estes termos não são exclusivos a pessoas não-binárias, e foram feitos como alternativas ao que seriam mais ou menos orientações como nomin (atração por qualquer pessoa sem conexão com masculinidade), nofin (atração por qualquer pessoa sem conexão com feminilidade), nãomem (atração por qualquer pessoa não-homem) e nãolher (atração por qualquer pessoa não-mulher).

Quem cunhou estes termos foi Ichi, socialjusticeichigo no Tumblr, em 31 de agosto.

Paro-: Esta é uma orientação para pessoas que sentem atração por diferentes gêneros de forma diferente. Por exemplo, a pessoa sente atração por mulheres frequentemente, mas para sentir atração por homens, precisa de um laço especial primeiro. Ou a pessoa tem atração por pessoas agênero frequentemente e por outras pessoas não-binárias às vezes sim e às vezes não, enquanto sua atração por homens e mulheres é presente mas fraca.

É uma orientação multi, por requerer atração por múltiplos gêneros. Pessoas com esta orientação geralmente não se sentem confortáveis em se sentir parte do espectro assexual/arromântico/etc., pois geralmente consideram que ao menos parte da sua atração é completamente alo (frequente/forte/etc.; fora do espectro assexual/arromântico/etc).

Esta orientação foi cunhada por Beau, beau-is-gai (previamente hello-im-cielo) no Tumblr. Aqui está uma postagem com a discussão da bandeira.

Nomaflux (e, consequentemente, nowomaflux): Uma orientação para quem geralmente não sente atração por homens, mas que pode sentir ao menos um pouco de vez em quando. Nowomaflux seria alguém que geralmente não sente atração por mulheres, mas que pode sentir ao menos um pouco de vez em quando. É similar ao conceito de orientações flexíveis, mas é definida de forma mais específica.

Esta orientação também foi cunhada por Beau. Aqui está a sugestão dada.

Path- (é possível traduzir como pat-): Um rótulo para quem não consegue entender sua orientação devido a uma natureza empática.

Além da informação de que o rótulo pode ser usado junto a bi-, a- ou a outros prefixos, não há informação sobre qual a intenção do rótulo. Talvez a pessoa sinta empatia de forma que sinta ter a orientação de outras pessoas, talvez a pessoa não saiba diferenciar a empatia por outras pessoas de atração sexual, romântica, ou outra. Talvez se aplique a ambas as situações.

A cunhagem desta orientação é creditada a caijda no Tumblr, mas a única postagem sobre essa orientação foi postada pelo blog Uncommon Genders.

Gêneros

Descrição da imagem: Um retângulo composto por cinco faixas horizontais de mesmo tamanho. A primeira faixa é turquesa clara. A segunda é amarela clara. A terceira é rosa. A quarta é roxa clara. A quinta é roxa. No centro da terceira faixa, há o símbolo estelariano, uma grande estrela de cinco pontas rodeada de três outras estrelas, uma menor do que a outra. As estrelas são pretas.

Bandeira lunetiana

Jupariane, lunetiane, saturniane e mercuriane: São gêneros não-binários ligados a leves energias celestiais, as quais possuem certas características de gêneros, embora não necessariamente indiquem proximidade destes gêneros. Esta energia pode mudar e variar em intensidade.

A energia celestial de juparianes é masculina, a de lunetianes é feminina, a de saturnianes masculina e feminina, e a de mercurianes é alguma energia que pode ou não ter gênero, mas que de qualquer forma não é masculina, feminina ou de alguma combinação entre as duas.

Estes termos foram criados a partir de outubro de 2017. Evian, juparian no Tumblr, cunhou jupariane, e a partir daí, outros termos foram surgindo.

Gênero-Netuno: Um gênero que de início parece grande e fluido, mas que com o tempo é possível perceber que é relativamente sólido e estável.

Nomeado desta forma porque Netuno é um planeta gasoso com um núcleo sólido.

Este gênero foi cunhado com outros gêneros planetários, lá pelo meio do ano. Confira o resto da lista aqui!

Descrição da imagem: Um retângulo composto por diversas faixas vermelho-rosadas em tons e tamanhos diferentes. A bandeira é simétrica e imita um degradê, de forma que a faixa no centro da bandeira é mais clara e as das pontas são mais escuras.

Bandeira gênero-rubi

Gênero-rubi, gênero-safira e gênero-esmeralda: São gêneros não-binários vagamente fluidos associados esteticamente com suas respectivas pedras. Gênero-rubi é associado com masculinidade, gênero-safira com feminilidade e gênero-esmeralda com neutralidade.

Estes foram cunhados no primeiro semestre. A cunhagem de gênero-rubi e de gênero-safira foi num chat, mas é possível ver a cunhagem de gênero-esmeralda aqui.

Pirogênero: Um gênero associado com fogo. Não apenas com o movimento do fogo, que é o caso de gênero-fogo, mas também com o consumo do fogo, e/ou com a alta temperatura do fogo (que também pode ser relacionada com alguma emoção em relação ao gênero).

Descrição da imagem: Uma bandeira retangular formada por diversos triângulos. O triângulo menor, central na parte inferior, é de uma cor creme. Atrás dele, há um triângulo maior laranja claro. Atrás deste, um triângulo maior laranja avermelhado. Atras deste, podem ser vistas faixas marrons. Atrás delas, é possível ver um fundo preto, ou talvez marrom escuro.

Bandeira pirogênero

Este gênero foi cunhado próximo ao início do ano. A primeira postagem sobre ele está aqui, e alguns outros comentários sobre o gênero estão aqui.

Possigênero: Um gênero para quem não sabe se seu gênero é fluido ou não. Possi vem da palavra possível.

Este gênero foi cunhado anonimamente lá pelo meio do ano.

Feliz 2018, e lembre-se de que sempre há novos termos sendo cunhados para aprender e pesquisar!

Libertação x Cissexismo  0

Existem dois extremos em relação a como tratar gêneros.

Um deles é o cissexista: só existem dois gêneros, determinados por dois sexos, que supostamente causam também certas escolhas em comportamento e apresentação. Cada um desses gêneros possui uma linguagem associada a tal (o/ele/o para homens e a/ela/a para mulheres).

O outro é supostamente libertador e vanguardista: a ideia de que gênero não existe e não deveria ser levado em consideração, de que pessoas deveriam utilizar qualquer pronome e roupa porque nada dita o gênero de alguém. De que deveríamos ser uma sociedade pós-gênero.

Enquanto esta segunda opção é tentadora para várias pessoas não-binárias, ela também é desrespeitosa com várias pessoas não-cis, e ignora a realidade em que vivemos. Ela também reproduz partes do cissexismo, dependendo de como é tratada.

Bandeira genderqueer

A comunidade genderqueer é formada tanto por pessoas que querem quebrar as normas e o conceito de gênero quanto por pessoas que querem ter sua identidade respeitada, seja qual for.

Caso você queira se identificar como alguém que vai além de gênero – seja como pomogênero, pangênero, sem gênero ou sem rótulos – você pode fazer isso pessoalmente. Caso você queira aceitar qualquer tipo de linguagem e usar qualquer tipo de roupa, você também pode fazer isso.

Porém, você não pode forçar pessoas a agir desta forma, ou fazê-las se sentirem culpadas por perpetuarem estereótipos de gênero, quando estas pessoas também são vítimas do cissexismo.

Uma pessoa gênero-estrela que enfrenta forte disforia social e não aguenta mais escolher entre ser chamada de “ela” ou “ele” não deveria ter que se sentir culpada por buscar um visual ambíguo e insistir em linguagem alternativa.

Uma mulher trans que tem medo de andar na rua e sofrer violência por parecer “homem vestido de mulher” não deveria ser culpada por “perpetuar estereótipos femininos” como se depilar e usar maquiagem e roupas vistas pela sociedade como femininas, para parecer menos com o que a sociedade enxerga como homem e se sentir mais segura.

Uma pessoa transmasculina que tem sua identidade constantemente invalidada por sua família e escola tem o direito de se sentir braba com pessoas que acham que essa pessoa deveria aceitar usar qualquer pronome e qualquer roupa, já que tecnicamente essas coisas não possuem gênero.

Uma pessoa dois-espíritos não deveria ter que encontrar pessoas dizendo que gênero e rótulos relacionados a gênero não importam e deveriam sumir.

Não, você não pode olhar para uma pessoa e decidir sua linguagem, seu gênero, e se essa pessoa é trans ou cis ou não. Mas só agir como se gênero e linguagem não tivesse significado nenhum – especialmente quando isso é direcionado a pessoas não-cis – só isola pessoas que possuem a coragem de explorar e de se identificar com gêneros que a sociedade cissexista e exorsexista diz que não podem. E tem pouco efeito em uma população cis que pode justificar seu gênero de acordo com uma lógica cissexista, sexista e diadista.

Mitos e verdades sobre orientações  0

Mitos e verdades é uma série de posts que vão direto ao ponto sobre opiniões preconceituosas ou errôneas de alguma outra forma.

Mito: Pessoas que defendem que existem infinitas orientações obrigam pessoas a se encaixarem em orientações extremamente específicas
Verdade: A maioria das pessoas que defendem que existem infinitas orientações também defendem que cada pessoa tenha o direito de se identificar como queira, desde que não seja de forma preconceituosa.
Por exemplo: uma pessoa que já se apaixonou por pessoas de diversos gêneros, mas que nunca sentiu atração sexual, pode se chamar de bissexual apenas, se preferir isso a se chamar de assexual birromântica ou polirromântica. Uma mulher não-binária que apenas sente atração por mulheres e por outras mulheres não-binárias pode se chamar de lésbica, ao invés de proquassexual ou finsexual.

Mito: Pessoas bissexuais são pessoas que são atraídas apenas por gêneros binários
Verdade: Qualquer pessoa que se sente atraída por mais de um gênero pode se chamar de bi, não importa quais os gêneros ou quantos são.

Mito: Homossexual é a maneira mais formal/correta de se referir à identidade de uma pessoa gay
Verdade: Homossexual foi uma palavra muito utilizada para classificar pessoas com atração pelo mesmo gênero no meio médico. A palavra homossexualidade era listada como o nome de um transtorno psicológico nos Estados Unidos até 1973, por exemplo. Por isso, as palavras “homo” e “homossexual” são consideradas estigmatizadas, e não devem ser utilizadas para descrever pessoas que não se identificam especificamente como tal, ou para descrever a comunidade gay e lésbica num geral.
As palavras gay, lésbica, e bissexual também possuem origem em insultos ou patologizações, porém, houveram movimentos bem maiores para utilizar estas palavras em contextos não ofensivos.

Mito: Orientação sexual é baseada em sexo biológico
Verdade: Orientação sexual é baseada em gênero. Quando há atração por pessoas que são vistas na rua, tal atração não é pela genitália, que nem pode ser vista (na maior parte das vezes). Muito menos é pela quantidade de hormônios ou pelos cromossomos de alguém.
Enquanto pessoas podem ter certo nojo de fazer sexo com alguém com certos tipos de genitália, muitas vezes é mais pela associação da genitália com um certo gênero do que pela genitália em si. É claro que tal repulsa deve ser respeitada, mas ela não existe até que a pessoa tira a roupa.

Mito: Pessoas cetero são simplesmente pessoas gay
Verdade: Pessoas cetero são pessoas não-binárias que sentem atração apenas por outras pessoas não-binárias. Porém, existe uma infinidade de gêneros não-binários; existem pessoas agênero, pessoas poligênero, maveriques, andrógines, pessoas gênero-fluxo, pessoas gênero-estrela, magimeninos, juxeras, pessoas gênero-cinza, pessoas gênero-vago… enfim. Vários destes gêneros são muito diferentes uns dos outros, mesmo que todos sejam não-binários.
Pessoas cetero podem se identificar como gay, dependendo da situação… mas é importante saber que cetero não é uma substituição eficiente para “pessoa gay não-binária”.

Mito: Homens são gays, mulheres são lésbicas
Verdade: Originalmente, realmente era assim. Porém, o tempo passou, e agora gay é uma palavra que pode ser utilizada por pessoas de qualquer gênero que se identificam como tal.

Mito: Qualquer relação entre gêneros diferentes é hétero
Verdade: Além dessa suposição ser danosa para pessoas multi no geral, ela também é ruim para pessoas em relações diamóricas; ou seja, relações envolvendo no mínimo uma pessoa não-binária. Relações diamóricas podem “parecer hétero” em certos casos, e “parecer gay” em outros. Porém, muitas vezes, tais descrições desconsideram totalmente o gênero das pessoas não-binárias envolvidas em tal relação. Pessoas não-binárias não são um coringa que servem para ser o mesmo gênero de sues companheires, e nem pessoas que devem ter seu gênero desconsiderado por não parecerem gay ou trans o suficiente.

Mito: Novos termos para orientações vêm de fora da comunidade LGBTQIAP+
Verdade: Normalmente, novos termos possuem origem em comunidades LGBTQIAP+ já existentes, para melhor definir certos grupos. Por exemplo: a comunidade assexual veio da comunidade bissexual, já que um nível de atração igual em relação a todos os gêneros é uma característica assexual, mesmo que tal nível de atração seja zero. A comunidade arromântica veio da comunidade assexual, onde se discutiu sobre pessoas assexuais terem atração romântica de formas diferentes umas das outras. As comunidades polissexual e pansexual provavelmente vieram da comunidade bissexual, quando houve a necessidade para termos que não parecem se referir ao binário de gênero.

“Por que usar [y] ao invés de [x]?”  0

É muito comum haverem dúvidas – muitas vezes por parte de pessoas que querem simplificar rótulos LGBTQIAP+ por não quererem que pessoas possam definir a si mesmas, ou por parte de pessoas que querem se mostrar mais respeitáveis do que “esses aí que querem ser especiais e criam palavras novas o tempo todo” – sobre o motivo de existirem “rótulos demais”, ou “rótulos redundantes”, para definir gênero e orientação.

Seguem os motivos para tais identidades:

a) Experiências separadas

A maioria das pessoas em comunidades assexuais nunca sente atração sexual ou vontade de fazer sexo. Afinal, é por isso que vão parar em comunidades assexuais!

Portanto, é natural que certas pessoas que tenham vontade de fazer sexo, sem sentir atração sexual (cupiossexuais), ou que pessoas que às vezes sentem atração sexual (gray-assexuais e outros termos do espectro assexual), criem seus próprios termos e comunidades.

O mesmo ocorre com outras identidades. Não que todas estas derivem das outras citadas, mas:

  • Muitas pessoas poli se identificam como tal porque bi é uma orientação muitas vezes utilizada ou atribuída a quem sente atração por “ambos os gêneros”, ou ainda, por “ambos os sexos”. Uma pessoa poli pode se identificar como bi, por sentir atração por dois ou mais gêneros, mas pode preferir uma comunidade que aceite mais a existência de gêneros não-binários.
  • Muitas pessoas que se identificam como omni, mas não como pan, o fazem porque pan é uma orientação descrita muitas vezes como “atração independentemente do gênero”. Pessoas omni podem aceitar que certas pessoas pan sentem atração por todos os gêneros sem “ignorar” o gênero, enquanto podem não querer uma conotação errônea para sua orientação.
  • Uma das definições de neutrois é “um gênero separado do masculino e do feminino”. Mesmo assim, outra definição de neutrois é “um gênero completamente neutro”. Pessoas que não sentem que seu gênero é neutro podem preferir se identificar como genderqueer ou maverique, por exemplo.
  • Gênero-fluido é uma expressão que serve para qualquer pessoa cujo gênero muda, mas como pessoas podem ter experiências completamente diferentes em relação a esta fluidez, existem termos como condigênero (um gênero experienciado sob circunstâncias específicas), eafluíde (alguém que tem seu gênero fluido apenas entre gêneros não-binários), gênero-fluxo (alguém que experiencia mudanças na intensidade de gênero), fluxofluide (alguém cuja identidade muda tanto em gênero quanto em intensidade) e bigênero-fluido (alguém cujo gênero é fluido entre apenas dois gêneros), entre outros.

b) Os termos podem ter sido criados na mesma época

Às vezes, não tem a ver com algum tipo de sentimento em relação ao grupo ou em relação a outras pessoas desconsiderarem outros significados da identidade. Como a comunidade LGBTQIAP+ não é unificada, termos diferentes e parecidos podem pipocar em diferentes regiões, especialmente se não há um espaço de tempo grande o suficiente para um dos termos se espalhar.

Fica a critério de cada ume qual o termo/descrição que prefere. Mas é bom notar que estes termos normalmente são ligeiramente diferentes um do outro. Por exemplo, aporagênero e maverique são termos que surgiram mais ou menos na mesma época, e são ambos gêneros completamente separados de gêneros masculinos, femininos e/ou neutros. No entanto, a definição de maverique coloca ênfase na certeza sobre o próprio gênero e na independência pessoal de maveriques, enquanto aporagênero só é descrito como um gênero que certamente existe, mas que não é nem masculino, nem feminino, nem neutro.

c) Os termos podem ajudar pessoas a se entenderem melhor

Uma pessoa pode nunca pensar em si mesma como bissexual, mesmo que já tenha tido atrações por pessoas de vários gêneros, mas não o tempo todo. Mas tal pessoa pode acabar descobrindo o termo abrossexual, e descobrir que existe uma palavra para o que esta pessoa está sentindo! Talvez, de agora em diante, a pessoa até consiga dizer que é bissexual, para simplificar as coisas, porque já sabe que sua experiência é uma experiência multissexual válida.

Alguns outros exemplos de como isso pode acontecer:

  • Uma pessoa não se sente arromântica o suficiente e nem allorromântica o suficiente, e só consegue se entender quando descobre o termo akoirromântique.
  • Uma mulher não sente que é não-binária o suficiente, mas também sente que não é cis. Passa a se identificar como mulher não-binária ou como magimulher.
  • Um homem trans sofre com disforia e certamente sabe que não é uma mulher, se identificando como homem porque acha que não existem mais opções. Posteriormente, descobre que é neutrois.
  • Uma pessoa não consegue entender o conceito de gênero e como isso pode ser importante, mas gosta de utilizar roupas “masculinas” e por isso se identifica como homem ao invés de agênero, já que não consegue pensar em se apresentar de forma “andrógena”. Após descobrir o termo libragênero, esta pessoa descobre ser libramasculina.
  • Uma pessoa não quer se chamar de bissexual porque não possui atração por homens, mesmo que esta pessoa já tenha tido atração por pessoas agênero, maveriques e mulheres. Essa pessoa acaba se identificando como polissexual e como nãomensexual.
  • Uma pessoa pensa em si mesma como assexual, mas eventualmente sente atração sexual por alguém. A pessoa teme ter sido apenas uma fase ou uma repressão, e não sabe mais seu lugar na comunidade. Eventualmente, esta pessoa descobre que há pessoas assexuais que sentem atração com algumas condições, como pessoas gray-assexuais, demissexuais, e amicussexuais.

Existem pessoas que tentam categorizar todos os termos em “úteis” e “inúteis”, ou que tentam redefinir termos sem as comunidades que utilizam esses termos concordarem, para sua própria conveniência. Existem pessoas que tentam pintar certos termos como monossexistas, heterossexistas ou cissexistas, quando, enquanto podem ser utilizados destas maneiras, podem também ser termos úteis para quem quer descrever suas orientações.

Por exemplo, os termos heteroflexível e homoflexível podem ser monossexistas, para quem não quer se identificar como bi por pessoas bi “não conseguirem escolher um gênero logo”, ou por não quererem se associar com promiscuidade, ou por não quererem “trair” a própria orientação. Porém, são termos úteis para quem raramente sente atração em relação a certo gênero, e acha que isso não é destacado o suficiente com bi ou poli.

O termo bi também recebe reclamações de vários lados. Pessoas bi são acusadas de “apropriar” as orientações poli, pan e omni, por elas caberem na definição de “dois ou mais gêneros”, ou de afirmar com sua orientação que só existem dois gêneros. A comunidade bi, porém, se define como atração por mais de um gênero por décadas, antes mesmo de outras orientações multissexuais serem definidas.

E isso não significa que pessoas não possam preferir colocar ênfase em sua atração por muitos/todos gêneros, utilizando termos como poli, penúlti, pan e omni.

O objetivo desta postagem é mostrar que, desde que a pessoa se sinta confortável com sua identidade, não importa se outra identidade é mais simples de entender, ou mais específica para a situação. Uma pessoa pode se identificar como bi, pan e abro em diferentes situações, ou ao mesmo tempo, e isto não está errado. Uma pessoa pode só querer se identificar como não-binária e/ou como transgênero após entender exatamente como é seu gênero, e isto não está errado.

A complexidade de rótulos  0

Algumas vezes, vejo pessoas confusas quando veem orientações complexas.

Primeiramente, há pessoas cujas orientações sexual e romântica são diferentes uma da outra. Isso já é explicado nas páginas O que é orientação sexual? e O que é orientação romântica?. Algumas pessoas são arromânticas e pansexuais, ou birromânticas e heterossexuais.

Pessoas arromânticas e/ou assexuais também muitas vezes especificam outros tipos de atração, o que é também coberto por uma página daqui: Outros tipos de orientações.

E então temos casos um pouco mais complexos.

Várias orientações dos espectros assexual e arromântico podem ser utilizadas em combinação com outros rótulos.

Por exemplo, uma pessoa pode ser demissexual ou greyssexual, e isso denota que tal pessoa só sente atração raramente. Mas não denota qual ou quais gêneros podem ser alvos da atração sexual, quando ela ocorre. E daí surgem identidades como demiheterosexual ou greypolissexual. Note que estas identidades nem levam em conta orientação romântica, ou qualquer outra além da sexual.

Várias identidades dos espectros assexual e arromântico também podem ser coerentes umas com as outras. Uma pessoa pode ser cupiograyrromântica – raramente se apaixonar, mas querer um relacionamento amoroso mesmo sem a atração romântica. Alguém pode até ser cupiograyfrayrromântique – raramente se apaixonar (gray), só se apaixonar por pessoas não muito próximas (fray), e ainda assim querer um relacionamento amoroso (cupio). E isso nem leva gênero em consideração – a pessoa poderia adicionar ali que é panromântica (pode se apaixonar por qualquer gênero), por exemplo.

Existe o prefixo myr- (que pode ser “traduzido” como mir-), que é para pessoas que se encaixam em várias orientações do espectro a-. Então, por exemplo, uma pessoa cupiograyfrayrromântica poderia se dizer mirromântica.

Enfim, estes rótulos são apenas para cada pessoa poder expressar corretamente como sua atração é sentida. Ninguém é obrigade a utilizar todos os rótulos que se encaixam, e nem a divulgar todos os rótulos que se encaixam.

Mesmo assim, é importante respeitar que uma pessoa que se diz cupiograyfrayrromântica biaceflux não está “só confusa” ou “querendo ser especial” por não utilizar só bissexual, arromântica ou aceflux como identidade. É uma identidade tão válida quanto alguém que só se diz ser gay ou assexual; está apenas falando de uma experiência mais específica, e não obriga ninguém a se categorizar de maneira similar.