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Posts for Tag : preconceito

Tentativa de conscientização sobre algumas identidades do espectro arromântico  2

Bandeira arromântica: 5 faixas horizontais de mesmo tamanho nas cores verde, verde clara, branca, cinza e preta.

Conceitos que recomendo saber sobre antes de ler o texto:

Hoje é o terceiro dia da Semana da Conscientização sobre o Espectro Arromântico de 2020 (dias 16 até 22 de fevereiro). Caso você queira postar o que fez/vai fazer para comemorar esta data, não deixe de passar neste tópico!

Como eu já escrevi em uma postagem hoje, ainda há uma ausência muito grande de conteúdo arromântico, então fica chato falar de algum assunto dentro da comunidade arromântica como se fosse mais obscuro do que outros quando não há conteúdo arromântico em geral.

E quando eu falo de conteúdo, eu falo em relação a tudo. Faltam personagens arromântiques em mídias populares; falta conteúdo informativo sobre o que é ser arromântique que não seja só sobre a definição de arromântique; faltam matérias bem feitas em revistas sobre o que é ser arromântique; faltam postagens, vídeos, podcasts e afins de pessoas arromânticas falando de suas histórias que alcançam pessoas fora da comunidade arromântica.

Esta postagem é sobre pessoas arromânticas que sentem alguma atração romântica. Porém, quero explicitar que minha intenção não é dizer que este grupo é mais apagado do que todos os outros em contextos arromânticos, e nem jogar pessoas arromânticas que não sentem atração romântica debaixo do ônibus. Este é apenas um assunto que escolhi, mas existem vários outros que merecem atenção também.

A possibilidade de pessoas serem arromânticas é extremamente apagada, em geral.

Quando é considerada, porém, é comum que esta consideração só se estenda à ideia de que a pessoa não sente atração romântica nenhuma.

E mesmo pessoas que aceitam a possibilidade de alguém não sentir atração romântica podem não aceitar que alguém se identifique como grisromântique, arofluxo, akoirromântique, demirromântique ou afins. Afinal, não sentir atração romântica comumente ou deixar de sentir atração depois de um tempo “é normal”, e portanto dentro dos padrões alorromânticos.

A questão é, ao lidar com algo “novo” que alguém está dizendo que é, algo fora do padrão que não tem boa representação na mídia, a tendência é duvidar. Isso é um problema para toda a comunidade, especialmente quando não existe forma de “provar” que alguém não tem gênero ou não sente atração por pessoas de certo gênero ou afins.

E atração romântica é algo que muita gente que é ou que se diz alorromântica vê como nebuloso, então, de fora, uma “escala cinza” entre alguém sem atração romântica nenhuma e com atração romântica forte/frequente/consistente pode não parecer “real” ou “útil”.

Eu vou citar aqui umas possibilidades que podem ser meio extremas, mas que podem dar uma ideia melhor dos motivos pelos quais pessoas podem se dizer de certas orientações no espectro arromântico.

Akoirromântique/lithromântique/etc.: Uma pessoa tem várias quedas durante sua vida, mas elas raramente são recíprocas, e, quando são, a pessoa perde interesse rapidamente. Mesmo que tente namorar e ache alguém de quem gosta muito, a atração romântica sempre parece sumir no início do relacionamento. A pessoa pode realmente querer que uma relação dê certo e pode realmente gostar de outras pessoas, mas não consegue se manter apaixonada por ninguém.

Amicusromântique: Uma pessoa nunca se apaixona por personagens, celebridades, ou por pessoas que conhece mais ou menos que se declaram para ela. Porém, frequentemente se apaixona por pessoas em seu grupo de amizades, por mais que seja pequeno e/ou que as pessoas nele estejam indisponíveis.

Arofluxo: Uma pessoa por anos não se apaixona por ninguém. Depois passa algum tempo se apaixonando por várias pessoas, mas tal paixão vai embora bem rápido após relacionamentos começarem. Depois a pessoa passa um ano sem se apaixonar por ninguém. Daí a pessoa se apaixona por uma única pessoa e a paixão permanece por alguns anos. Depois ela vai embora totalmente. Depois ela volta, e a pessoa se apaixona por várias pessoas bem rápido por algum tempo. Depois a pessoa para de se apaixonar e questiona se realmente é capaz disso.

Caligorromântique: Uma pessoa começa a se apaixonar anos depois de suas amizades, mas tal paixão parece ser extremamente fraca e a pessoa questiona várias vezes se tal atração é real ou apenas pressão social. Em todos os relacionamentos que entra, ainda que ame romanticamente as outras pessoas, parece que sempre as outras pessoas a amam muito mais.

Claperromântique: Uma pessoa sentia atração romântica com frequência, mas após um relacionamento abusivo, nunca mais sentiu atração romântica. Ainda que tivesse sido alorromântica antes, ela não vê sentido em se identificar como tal quando é atualmente incapaz de se apaixonar e desinteressada em ter outros relacionamentos românticos.

Cupiorromântique: Uma pessoa não sente atração romântica nenhuma, mas pensa que namorar pode ser divertido e quer ter relacionamentos românticos mesmo sem ser capaz de se apaixonar por outras pessoas.

Demirromântique: Uma pessoa nunca se apaixona por ninguém, e detesta o quanto outras pessoas ficam puxando o assunto de possíveis relacionamentos românticos como se pessoas tivessem que estar apaixonadas o tempo todo. Depois de anos, a pessoa se apaixona por uma pessoa ou outra, mas apenas por pessoas que admira muito e com quem conviveu por bastante tempo.

Grisromântique: Uma pessoa só se apaixonou uma vez na vida há anos atrás, e não considera que isso define mais sua orientação do que todos os outros anos nos quais não sentiu atração nenhuma.

Proculromântique: Uma pessoa tem paixões assim como suas amizades, mas ao contrário delas, suas paixões são sempre por celebridades, personagens fictícies, ou outras pessoas completamente inacessíveis. E não só como adolescente; isso continua por vários anos e a pessoa nunca se apaixona por pessoas de qualquer gênero que estão à sua volta.

Recipromântique: Uma pessoa nunca se apaixona ou tem interesse em relacionamentos. Porém, algumas das vezes nas quais outras pessoas se declararam apaixonadas por ela, a pessoa começou a se apaixonar por estas pessoas, sem nunca ter tido nenhuma paixão fora disso.

Independentemente das experiências de cada pessoa e da sua opinião sobre que rótulos deveriam estar usando, por favor, respeite a identificação alheia. Cada pessoa tem seus motivos para usar os termos que usa.

Mais mitos e verdades sobre pessoas não-binárias  2

Mitos e verdades é uma série de postagens que vão direto ao ponto sobre opiniões preconceituosas ou errôneas de alguma outra forma.

A presente postagem não cobre assuntos cobertos por esta outra postagem.

Mito: Qualquer conjunto que não é o/ele/o ou a/ela/a é neutro.
Verdade: Linguagem dita neutra é a utilizada para se referir a grupos de pessoas que usam diferentes linguagens, ou a pessoas às quais você não sabe como se referir. Existem conjuntos que raramente são utilizados como neutros (como i/íli/i ou u/ilu/u), e, em nossa sociedade, é possível assumir que o/ele/o é geralmente utilizado como conjunto neutro.
Caso alguma pessoa disser que “usa linguagem neutra”, recomendo perguntar qual a linguagem que utiliza como neutra, afinal neolinguagem oferece opções infinitas que alguém poderia teoricamente considerar neutra.

Mito: Todas as possibilidades de gêneros envolvem masculinidade, neutralidade, feminilidade ou relação a estes conceitos de alguma forma.
Verdade: Limitar as possibilidades de gêneros é sempre prejudicial a alguma categoria de pessoas. Existem diversas experiências de gêneros diferentes que utilizam outros conceitos para serem descritos, existem diferentes gêneros que rejeitam estes conceitos de diferentes formas. Alguns exemplos são maverique, egogênero e caelgênero.
Além disso, é possível ser mulher, ser homem, ou ter algum gênero relacionado a estes sem ter alguma ligação particular com masculinidade, neutralidade ou feminilidade.

Mito: Não existem orientações para pessoas não-binárias atraídas apenas por algum gênero binário.
Verdade: Existem diversas orientações feitas com esse propósito em mente, como home- e mulhe- e diversos prefixos que foram feitos para substituir tanto estes quanto andro- e gine- (prefixos que algumas vezes são utilizados como “atração por pênis” e “atração por vagina” e que por isso são evitados por muita gente). Viramórique ou vir- para atração por homens e feminamórique ou femina- para atração por mulheres são os termos mais populares atualmente, mas isso pode mudar, afinal criam termos novos para isso frequentemente.
Pessoas não-binárias que se sentem confortáveis com isso e que acreditam que estes termos se aplicam à sua experiência também podem utilizar gay, lésbica ou similares.

Mito: Pessoas não são atraídas por pessoas não-binárias, e sim por qual gênero cada pessoa parece ser.
Verdade: Atração por gêneros é por gênero. É possível mentir para si mesme para ver uma pessoa como outro gênero ainda que a pessoa não seja de tal gênero, ou mentir para outras pessoas para que vejam certa pessoa como outro gênero, mas pela consciência e conhecimento sobre o gênero alheio, a atração vai naturalmente começar a ocorrer, deixar de ocorrer, mudar de intensidade, etc., dependendo das orientações e dos gêneros envolvidos.

Mito: Pessoas que se identificam como bi/poli/multi que não sentem atração pelo próprio gênero estão fetichizando gêneros não-binários e tentando esconder que só aceitam sentir atração por um tipo de corpo.
Verdade: Pessoas que deixam de se identificar como hétero por reconhecerem que alguém por quem possuem atração possui um gênero diferente do qual imaginaram estão respeitando mais a existência de gêneros não-binários do que quem quer manter a “pureza” da comunidade LGBTQIAPN+ com a ideia de que só atração pelo mesmo gênero pode ser considerada não-hétero.
Pessoas multi sem atração pelo próprio gênero possivelmente aceitam mais a ideia de que corpo não determina gênero do que pessoas que suspeitam que alguém que (aparentemente) só sente atração por pessoas com certo tipo de corpo seja secretamente hétero.

Mito: Pessoas não-binárias não possuem demandas próprias, diferentes das de pessoas trans binárias.
Verdade: Exorsexismo existe. Pessoas não-binárias precisam de ao menos uma opção de neolinguagem sendo reconhecida oficialmente, precisam da aceitação da sociedade em relação à diversidade de identidades de gênero existentes, precisam de banheiros e espaços que não obriguem a escolher uma opção binária de gênero, precisam de acesso a procedimentos de transição que não assuma ou force pessoas a se identificarem com algum gênero binário. Precisam de que haja acesso à informação sobre pessoas não-binárias para a população geral, precisam poder ter suas identidades respeitadas em consultas, aulas e profissões. Precisam que a sociedade respeite que linguagem, nomes e maneiras de se vestir não devem ser sempre consideradas masculinas ou femininas, e nem prova de que alguém está mentindo sobre seu gênero. Um mundo ideal para pessoas não-binárias precisa de muito mais reestruturação social do que um mundo ideal apenas para pessoas trans binárias.

Mito: Neurogêneros (identidades exclusivas para pessoas neurodivergentes) dificultam o processo de recuperação de pessoas neurodivergentes.
Verdade: Nem toda neurodivergência é “curável”. De qualquer forma, pessoas neurodivergentes merecem palavras para descrever suas experiências, ainda que elas mudem no futuro por conta de certos sintomas amenizarem ou desaparecerem. Ninguém precisa ficar prese a rótulos que não são mais úteis.

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Orientações flexíveis: como utilizar  1

Na maioria das listas de orientações, as orientações que são listadas são hétero, lésbica, gay, e bi; em listas um pouco maiores, podem ser encontradas também as orientações pan, assexual, demi, e poli. As listas que vão além destas, mas que ainda focam em experiências mais diversas, podem incluir gray-a, cetero, e abro.

Porém, ocasionalmente, entre estas orientações, também podem ser encontradas as orientações homoflexível – alguém que geralmente sente atração por pessoas do mesmo gênero, com algumas exceções – e heteroflexível – alguém que geralmente sente atração pelo gênero considerado “oposto” pela sociedade, com algumas exceções. Estas são orientações relativamente controversas, geralmente pelas seguintes suposições:

  1. Heteroflexível é uma palavra para pessoas hétero que querem dizer ser oprimidas sem precisarem realmente tomar riscos. Este é um argumento monossexista muitas vezes utilizado contra pessoas multi também. Não há motivos para uma pessoa hétero “querer ser oprimida”. Nenhuma orientação é modinha o suficiente para valer a pena toda a discriminação sofrida por não ser hétero.
  2. Homoflexível é uma palavra empurrada para pessoas gays ficarem disponíveis para pessoas de outros gêneros contra suas vontades. Este também é um argumento monossexista muitas vezes utilizado contra pessoas multi. Qualquer pressão para se identificar como algo que não quer é desmerecida, e qualquer pressão para “ficar disponível” para alguém, independentemente da compatibilidade em relação à orientação, é abusiva. Agora, isso não é motivo para reclamar da existência de diversidade de rótulos. Pressionar pessoas homoflexíveis a se identificarem como gays é tão ruim quanto pressionar pessoas gays se identificarem como homoflexíveis.
  3. Homoflexível e heteroflexível são identidades anti-bi, porque quantificam atrações desnecessariamente/incentivam pessoas a não se identificarem como bi/etc. Assim como não é certo forçar pessoas homoflexíveis ou heteroflexíveis a se identificarem como gays/hétero, também não é certo forçá-las a se identificarem como bi. Pessoas de qualquer identidade flexível podem se identificar como bi/multi caso queiram, mas geralmente, se possuem estas identidades, ou sentem necessidade de dizer que sua orientação na maioria das vezes funciona de certa forma, ou sentem estar “invadindo” a comunidade bi por causa de exceções à regra.

Ou seja, estas controvérsias ou vêm da suposição de que todas as pessoas que sentem atração por mais de um gênero precisam se identificar como bi, e que são preconceituosas se não se identificarem como bi; ou da suposição de que o ideal é apenas se identificar como gay ou hétero, porque o resto “complica demais” ou “força a barra”. Estes argumentos geralmente possuem base em cenários exagerados, e não admitem a possibilidade de que alguém queira se identificar como algo além de lésbica/gay/bi/hétero por conta própria e sem ter preconceito algum contra quem prefere se identificar com alguma destas identidades.

Dito isso, bola pra frente.

Pessoas de orientações flexíveis geralmente se identificam como tal por causa de atração que realmente aconteceu. Por exemplo, uma lésbica que se apaixonou uma vez por um homem, mesmo tendo certeza de que era um homem, pode se chamar de homoflexível.

Porém, também é possível se identificar com este tipo de orientação por ter abertura a relações com pessoas de outros gêneros, mesmo que não tenha acontecido nenhuma atração ainda.

É possível também ser de alguma orientação flexível que não seja heteroflexível e homoflexível. Por exemplo, uma pessoa ceteroflexível geralmente sente atrações por pessoas não-binárias, mas pode sentir atração por pessoas binárias de vez em quando. Uma pessoa mulheflexível geralmente só sente atração por mulheres, mas pode ocasionalmente sentir atração por pessoas de outros gêneros. O sufixo -flexível é útil para praticamente todas as orientações que são definidas por atração a gêneros ou espectros específicos.

Qualquer pessoa pode se enganar a respeito de sua orientação, descobrindo que na verdade as exceções à regra não são tão raras assim e passando a se identificar como bi/poli/etc., ou descobrindo que as exceções não eram atração de verdade e passando a se identificar como gay/hétero/etc. Também é possível descobrir que as exceções na verdade eram as únicas instâncias de atração de verdade.

Porém, é possível se enganar a respeito de qualquer orientação, e é importante saber que rótulos não precisam ser permanentes ou completamente precisos. Caso sejam úteis e confortáveis para você, use-os. Caso não sejam, mude-os ou deixe-os.

É claro, a decisão de usar um rótulo destes é sua, mesmo que você se encaixe perfeitamente neles. Por exemplo, se uma pessoa não gosta de se dizer homoflexível, pode se dizer somente gay, e, apenas se quiser, dizer que possui exceções.

Como nota final, é possível especificar se uma orientação flexível é sexual/romântica/platônica/etc., como em neuflexirromântique ou em proquuflexisexual. Porém, geralmente, orientações flexíveis são utilizadas como as palavras gay e lésbica, podendo ser utilizadas sem modificações em qualquer tipo de orientação; como em assexual arromântique finflexível, demirromântique mascuflexível ou quoissexual heteroflexível.

Dica para pronomes e identidades de gênero  0

Somos treinades para reconhecer dois gêneros (homem/menino, mulher/menina) e dois pronomes pessoais retos em terceira pessoa do singular, associados a estes gêneros (ele, ela). Podem não dizer explicitamente para crianças que existem só esses dois gêneros e tipos de linguagem, mas elas acabam reconhecendo isso, via representação (não veem ninguém tratando pessoas de outro modo) e por conta do exorsexismo de cada dia (“homem ou mulher”, “ele ou ela”, “menino ou menina”, “papai e mamãe”, “gênero oposto”).

O que acontece é que então, quando descobrem pessoas não-binárias, as pessoas acabam tendo reações defensivas, conscientes (“isso não existe [porque ninguém me falou disso antes]”) ou inconscientes (errar a linguagem de uma pessoa sem querer porque normalmente se assumiria “ele” ou “ela” para tal pessoa).

Aqui vão dicas para se acostumar com pronomes (e outros tipos de linguagem) e gêneros:

Pense em pronomes como nomes.

Você conhece todos os nomes que existem? Provavelmente não. E também não é necessário conhecê-los. Mas, você provavelmente sabe nomes (ou sobrenomes, ou apelidos) das pessoas próximas a você.

Assim como você não assume que o nome das pessoas são sempre Carolina ou Paulo, pronomes variam além de ele ou ela. Caso você tenha qualquer indício de que seja um lugar seguro para isso, você pode perguntar pela linguagem de alguém, especialmente se a pessoa não termina palavras referentes à si mesma com o ou a.

Assim como você não se irrita quando alguém te corrige por você ter errado o nome de alguém, você não deve se irritar quando alguém corrige um pronome errado. Assim como você não reclama quando aprende um nome que nunca ouviu, você não deve reclamar quando ouve um pronome que nunca ouviu.

Pense em identidades de gênero como profissões.

Você conhece todas as profissões que existem? Provavelmente não. E também não é necessário conhecê-las. Mas, você provavelmente sabe as profissões das pessoas próximas a você, assim como o significado delas.

Assim como você não assume as profissões de pessoas que você não conhece, na maior parte das vezes, também não há razão para assumir os gêneros ou as identidades de gênero de pessoas que você não conhece, na maior parte das vezes. Você também provavelmente não sente a necessidade de perguntar a profissão de qualquer pessoa, e o mesmo deve servir para o gênero. Caso o assunto surja, ok! Caso contrário, não é algo essencial para várias pessoas.

Às vezes, é necessário perguntar para saber o que é certa profissão, e o mesmo serve para certos gêneros. Às vezes, você consegue entender o significado de uma profissão sem perguntar, ou ao menos parcialmente entender do que se trata. Por exemplo, alguém que sabe o que significa web e design provavelmente não vai precisar de uma definição de webdesigner. Alguém que sabe o que é turismo e o que significa o sufixo -logo deve ter alguma ideia do que faz alguém que se diz turismólogo.

O mesmo serve para gênero: alguém que conhece o prefixo tri- e o conceito de bigênero deve entender o que significa trigênero. Alguém que conhece o prefixo a- e o sufixo -gênero para gêneros não-binários deve ter uma ideia do que é uma pessoa agênero.

O mesmo até serve para orientações! Alguém que conhece os conceitos de arromântique e de bissexual deve entender o que é uma pessoa birromântica. Alguém que conhece o prefixo pan- e o sufixo –sexual deve entender que uma pessoa pansexual é atraída por pessoas de todos os gêneros.

Obviamente, isso nem sempre funciona: uma pessoa pangênero não é de todos os gêneros, uma pessoa duossexual não é necessariamente atraída por dois gêneros, e uma pessoa demirromântica não é atraída por metade dos gêneros. Porém, os nomes dão uma ideia, e, inclusive, uma associação com outras palavras já existentes que fazem com que estes conceitos sejam mais fáceis de lembrar.

Política de respeitabilidade  0

Esta é uma questão que aparece bastante em relação a questões LGBTQIAP+, embora também exista em razão de outras questões de discriminação (raça, neurotipo, etc). Consiste basicamente em passar a mensagem para o grupo dominante de que “fora essa pequena diferença, somos como vocês, então nos aceitem“.

Isso faz com que certo grupo adquira mais respeito pelo grupo dominante, a troco de setores que não conseguem passar por “pessoas normais” tão facilmente. Este processo é chamado de assimilação.

Esta postagem tem o objetivo de apontar este fenômeno como algo ocorrente em movimentos LGBTQIAP+. Portanto, aqui estão alguns exemplos deste tipo de política:

  • Promover uma imagem pura do casal de mesmo gênero que “só quer amar e ter uma família como você“, geralmente de pessoas brancas cisgênero dentro dos padrões de beleza, o que prejudica casais que já seriam mal vistos de outras maneiras por sua aparência, pessoas em relacionamentos poliamorosos, pessoas arromânticas, pessoas que não querem ter relacionamentos fechados, etc.;
  • Promover um padrão clichê de como uma pessoa transgênero deve ser, por meio de criar uma narrativa normativa de como desde que era criança a pessoa já queria usar roupas e brincar com brinquedos associados com seu gênero, e de como a pessoa sofre por não ter um corpo parecido com o de uma pessoa cisgênero e perisexo de seu gênero. Esta narrativa prejudica pessoas trans que não querem realizar sua transição, pessoas não-binárias num geral, pessoas que não possuem dinheiro para realizar sua transição, pessoas trans que não querem obedecer os papéis de gênero, etc.;
  • Promover um padrão de como uma pessoa não-binária “de verdade” deve ser e agir; sendo sempre de um gênero que envolve ambos os gêneros binários ou de um gênero neutro; sempre tendo disforia e total certeza de que cirurgias deve fazer para mudar seu corpo; sempre tendo linguagem fácil de utilizar; não se importando com microagressões; falando que é não-binárie e trans de verdade, ao contrário de pessoas não-binárias mais “radicais”; o que obviamente prejudica pessoas não-binárias com gêneros mais complexos, com disforia física inexistente ou impossível de aliviar, entre outras;
  • Promover a imagem de pessoas intersexo que “entendem” que são exceções e que precisam ser “consertadas”. Também promover que pessoas intersexo não são LGBTQAP+, por possuirem uma condição diferente de outras pessoas LGBTQAP+, tentando se distanciar do fato de que tais grupos foram considerados similares historicamente;
  • Promover que relacionamentos “gay” são iguais a relações “hétero”, e que pessoas só ficam em relacionamentos do mesmo gênero porque não possuem nenhuma outra opção, o que prejudica pessoas multi e pessoas assexuais/arromânticas;
  • Promover definições fechadas e fáceis de entender, como definir “LGBT” como a sigla mais completa e definir o resto das identidades que se encaixam em não-pericishétero como irrelevantes, como definir o mínimo de orientações e de identidades de gênero possíveis, como definir apenas os casos mais extremos como “LGBT+ o suficiente”.

 

Treinamento de sensibilidade resumido  0

Quando falo sobre treinamento de sensibilidade, falo sobre sensibilidade em relação a opressões, principalmente em um contexto social onde temos vários comportamentos e termos normalizados que são nocivos a grupos marginalizados.

AVISO: Palavras estigmatizadas serão expostas sem censura nesta postagem, no item C, para quem estiver lendo ter certeza de quais são as palavras referidas.

A. Não assuma que todas as pessoas são perisexo, cis, ou de gêneros binários.

Mulheres não necessariamente menstruam, e pessoas que não são necessariamente mulheres menstruam. Produtos como absorventes, portanto, são úteis para pessoas que menstruam.

O gênero de uma pessoa não é necessariamente relacionado ao banheiro que ela vai: pessoas não-binárias muitas vezes precisam escolher entre um banheiro masculino ou feminino, e pessoas trans que não passam como o gênero que querem podem acabar escolhendo o banheiro em que se sentem mais seguras.

“Homens e mulheres” não é uma separação que cobre todas as pessoas, e, muitas vezes, esta expressão e outras similares pode ser substituída por “pessoas” ou por “comunidade” (em casos específicos, como em “comunidade LGBT+”).

Perguntar pelos pronomes/linguagem de todas as pessoas presentes deve ser um procedimento padrão em espaços que aceitam pessoas trans e não-binárias.

B. Aliás, não assuma que todas as pessoas vão ser o mais privilegiadas possível, ou que elas não podem fazer parte de grupos estatisticamente pequenos.

Uma pessoa pode ter opiniões misóginas mesmo sendo mulher, e acusar a pessoa de na verdade ser um homem não é um argumento efetivo.

Uma pessoa que se identifica como alguma identidade obscura não é necessariamente uma pessoa branca e rica, e que, portanto, “não sabe de nada do mundo”.

Uma pessoa que está falando sobre a falta de reconhecimento de pessoas intersexo pode ser uma pessoa intersexo, e não uma pessoa perisexo “sendo fresca em relação a um grupo que é uma exceção minúscula”.

Uma pessoa que não está lhe respondendo pode realmente não ter ouvido e/ou não conseguir falar. Não simplesmente assuma que pessoas não possuem deficiências se não são explicitamente apresentadas a você como deficientes.

Uma pessoa que está em um aparente “relacionamento hétero” pode na verdade ser bi, pan, assexual, não-binária, entre outras identidades. Uma pessoa que está em um aparente “relacionamento gay” pode também ser de qualquer uma destas outras identidades, ou até mesmo estar em um relacionamento hétero com uma pessoa trans que não consegue “passar” como seu gênero!

C. Quando alguém de um grupo marginalizado diz que algo é nocivo, escute, não importa o quanto isso faz parte do dia-a-dia.

Ficar tentando adivinhar o gênero de pessoas que você não conhece, ou brincar de “mudar de sexo” por diversão é nocivo para pessoas trans e não-binárias.

Ficar tentando adivinhar a identidade de uma pessoa que (aparentemente) não conforma com o gênero binário aparente é nocivo para pessoas cujas identidades não são visíveis.

Fazer piadas de estereótipos raciais, relacionados a identidades LGBTQIAP+, relacionados a deficiências físicas ou mentais, relacionados a pessoas traumatizadas, entre outros, está ajudando estas minorias a se sentirem mal consigo mesmas, não importa se a piada foi positiva, ou se você na verdade não acredita no estereótipo.

O conceito de inteligência é capacitista e elitista, porque pessoas possuem diferentes habilidades, independentemente da capacidade de expressá-las e do quanto são úteis em um contexto capitalista. Portanto, evite utilizar esta “medida” para qualquer coisa.

Utilizar palavras como “retardade”, “imbecil”, “idiota”, “bicha”, “viado”, “hermafrodita”, “traveco”, “vadia”, “puta”, “cegue”, “surde”, “aleijade”, “babaca”, “louque”, “maluque”, “sapata” e “mulate” é completamente inadequado nos dias de hoje, por termos acesso amplo a informações sobre tais palavras, sendo que os únicos contextos relevantes para elas são exemplos, livros históricos (sendo que estes dois ainda podem ser censurados/modificados na maior parte dos casos), ou pessoas dos grupos atingidos – não adianta ser alguém de grupo externo – reapropriarem tais palavras, utilizando-as como partes de suas identidades. [Nota: palavras neutras em relação a gênero estão escritas em sua forma neutra.]

D. Quando algo der errado, se desculpe rapidamente, e tente consertar seu erro.

Não reclame de como é difícil atender aos pedidos de grupos marginalizados, e não tente se justificar, dizendo que não deveria se esforçar porque o resto da sociedade não liga, se você quer ajudar.

Não pense que isso passou e é correto só porque alguém que liga para estas questões não disse nada. Pessoas marginalizadas não vão necessariamente ter energia para corrigir outras pessoas o tempo todo, mas ainda podem estar tomando notas mentais sobre você.

E. Caso seja seguro, leve seus conhecimentos para fora.

Pronomes de pessoas não-cis são obrigatórios mesmo em situações onde não existem pessoas não-cis ou pessoas que conhecem as pessoas em questão em volta.

Você pode corrigir pessoas que não fazem parte de grupos marginalizados sobre questões relacionadas a estes, independentemente de ter ou não ter uma pessoa de tal grupo marginalizado em volta.

Você sempre pode evitar rir de piadas machistas/racistas/capacitistas/etc., e você sempre pode evitar utilizar palavras estigmatizadas relacionadas a grupos marginalizados.

Você pode corrigir pessoas que deixam implícito ou explícito que acreditam que só existem dois sexos, duas orientações, ou dois gêneros, assim como corrigir pessoas em outras questões.

Duplo vínculo aplicado a identidades não-binárias  0

Duplo vínculo – muitas vezes conhecido como catch-22 (ardil-22) – é uma expressão que se refere a situações nas quais não existem boas alternativas para quem está envolvide. Neste texto, me refiro ao que acontece com pessoas não-binárias por minha própria experiência, mas vários destes itens também se referem a experiências de pessoas trans em geral.

Em um duplo vínculo, existem duas proposições. Uma pessoa que passa em uma inevitavelmente falha na outra, porém. É um dos jeitos que nossa sociedade cissexista e exorsexista desencoraja pessoas a experimentarem e se identificarem com identidades não-cis. Aqui estão alguns exemplos:

Quem usa roupas de acordo com o próprio gênero acha que gênero é só sobre roupas;
Quem não usa roupas de acordo com o próprio gênero está mentindo sobre seu gênero, já que não o leva a sério o suficiente para investir em um visual correspondente.

Quem utiliza pronomes ele ou ela na verdade é um homem binário ou uma mulher binária, respectivamente;
Quem utiliza outros pronomes está dificultando as coisas desnecessariamente, e só quer ser especial, sem querer levar a própria identidade a sério.

Quem tenta agir como seu próprio gênero está reforçando estereótipos, e deixando implícito que gêneros são apenas compostos por estereótipos;
Quem não age como um estereótipo não está oferecendo justificativas suficientes para que acreditem em seu gênero.

Quem não mostra sinais de que sempre foi do gênero que diz ser está deixando de se identificar como cis por modinha/impulso;
Quem mostra sinais de que sempre foi do gênero que diz ser está se forçando a identificar com um certo gênero apenas para encaixar comportamentos passados que na verdade possuem outras justificativas.

Quem se identifica com gêneros que possuem conotação ligada à gêneros binários, como demimulher e homem agênero, na verdade é de tais gêneros binários;
Quem se identifica com gêneros que não são ligados a gêneros binários, como eafluido ou maverique, não entende o que é gênero de verdade, ou está só inventando moda.

Quem se identifica como um rótulo genérico, como não-binárie, não sabe do que está falando e só diz isso por não entender de gênero;
Quem se identifica com uma identidade específica, como magineutrois nanoandrógine, está querendo ser especial, ou está tentando se esforçar demais em relação a entender sobre seu gênero.

Pessoas que querem ir atrás de hormônios, terapias e cirurgias para se sentirem mais à vontade com seu corpo na verdade são pessoas trans binárias;
Pessoas que não querem ir atrás de hormônios, terapias e cirurgias por acharem que não é necessário, ou porque acham que as opções disponíveis não são adequadas para seu gênero, não são pessoas trans de verdade, porque não querem tomar riscos com seu corpo.

Pessoas que descobrem sua identidade quando mais novas estão muito novas para saber o que estão dizendo;
Pessoas que descobrem sua identidade quando mais velhas estão mentindo, porque passaram muito tempo sem se identificar de certo modo.

Certas pessoas não-binárias são tratadas como “basicamente pessoas trans binárias”, enquanto outras são tratadas como “basicamente pessoas cis”.

É importante ressaltar que pessoas não-binárias podem ser de qualquer idade, raça, gênero designado ou neurotipo, dentre outras características. Uma pessoa pode ter seu gênero influenciado por características como ser autista, otherkin, intersexo, ou sobrevivente de trauma, porque estas experiências e percepções podem influênciar uma identidade de gênero de forma única, de modo que o gênero da pessoa não pode ser separado de sua identidade.

Além disso, ninguém precisa ser cis para ser GNC (gender non-conforming; alguém cuja expressão de gênero não é típica para seu gênero). Uma pessoa andrógine pode preferir se apresentar de forma feminina, e uma demimulher pode preferir se apresentar de forma masculina. Isso não anula os próprios gêneros destas pessoas. Ser uma pessoa com interesses e expressões mais femininas ou mais masculinas não anula o gênero com o qual uma pessoa se identifica, mesmo que este seja não-binário.

(É claro, uma demimulher pode considerar que seus visuais mais masculinos na verdade são a forma pela qual ela expressa seu gênero, e ume andrógine pode expressar seu gênero por meio de vestidos e maquiagem. Isso varia entre pessoas não-binárias, mesmo entre as pessoas de um mesmo gênero.)

Cada pessoa tem seus motivos para dizer ser de uma certa identidade, e não é o papel de alguém de fora, que nem tem como saber de tudo pelo que a pessoa passou, dizer que a identidade de alguém está incorreta (a não ser que seja intrinsecamente problemática, como uma pessoa dizer que é de algum gênero não pertencente à sua cultura). E ninguém deve ter que justificar o quanto seu gênero é válido, tendo que contar sobre momentos privados da infância, pensamentos particulares da adolescência, e desejos para o futuro. Muito menos se ainda vai ter um julgamento para dizer que tais experiências e desejos não são o suficiente.

Se qualquer tipo de experiência não-binária é um incômodo e não parece certa, não são as pessoas não-binárias que estão erradas. Pessoas que estão seguras sobre a própria identidade com certeza possuem mais experiência do que alguém que sente insegurança em relação à existência de algo novo.

“Por que usar [y] ao invés de [x]?”  0

É muito comum haverem dúvidas – muitas vezes por parte de pessoas que querem simplificar rótulos LGBTQIAP+ por não quererem que pessoas possam definir a si mesmas, ou por parte de pessoas que querem se mostrar mais respeitáveis do que “esses aí que querem ser especiais e criam palavras novas o tempo todo” – sobre o motivo de existirem “rótulos demais”, ou “rótulos redundantes”, para definir gênero e orientação.

Seguem os motivos para tais identidades:

a) Experiências separadas

A maioria das pessoas em comunidades assexuais nunca sente atração sexual ou vontade de fazer sexo. Afinal, é por isso que vão parar em comunidades assexuais!

Portanto, é natural que certas pessoas que tenham vontade de fazer sexo, sem sentir atração sexual (cupiossexuais), ou que pessoas que às vezes sentem atração sexual (gray-assexuais e outros termos do espectro assexual), criem seus próprios termos e comunidades.

O mesmo ocorre com outras identidades. Não que todas estas derivem das outras citadas, mas:

  • Muitas pessoas poli se identificam como tal porque bi é uma orientação muitas vezes utilizada ou atribuída a quem sente atração por “ambos os gêneros”, ou ainda, por “ambos os sexos”. Uma pessoa poli pode se identificar como bi, por sentir atração por dois ou mais gêneros, mas pode preferir uma comunidade que aceite mais a existência de gêneros não-binários.
  • Muitas pessoas que se identificam como omni, mas não como pan, o fazem porque pan é uma orientação descrita muitas vezes como “atração independentemente do gênero”. Pessoas omni podem aceitar que certas pessoas pan sentem atração por todos os gêneros sem “ignorar” o gênero, enquanto podem não querer uma conotação errônea para sua orientação.
  • Uma das definições de neutrois é “um gênero separado do masculino e do feminino”. Mesmo assim, outra definição de neutrois é “um gênero completamente neutro”. Pessoas que não sentem que seu gênero é neutro podem preferir se identificar como genderqueer ou maverique, por exemplo.
  • Gênero-fluido é uma expressão que serve para qualquer pessoa cujo gênero muda, mas como pessoas podem ter experiências completamente diferentes em relação a esta fluidez, existem termos como condigênero (um gênero experienciado sob circunstâncias específicas), eafluíde (alguém que tem seu gênero fluido apenas entre gêneros não-binários), gênero-fluxo (alguém que experiencia mudanças na intensidade de gênero), fluxofluide (alguém cuja identidade muda tanto em gênero quanto em intensidade) e bigênero-fluido (alguém cujo gênero é fluido entre apenas dois gêneros), entre outros.

b) Os termos podem ter sido criados na mesma época

Às vezes, não tem a ver com algum tipo de sentimento em relação ao grupo ou em relação a outras pessoas desconsiderarem outros significados da identidade. Como a comunidade LGBTQIAP+ não é unificada, termos diferentes e parecidos podem pipocar em diferentes regiões, especialmente se não há um espaço de tempo grande o suficiente para um dos termos se espalhar.

Fica a critério de cada ume qual o termo/descrição que prefere. Mas é bom notar que estes termos normalmente são ligeiramente diferentes um do outro. Por exemplo, aporagênero e maverique são termos que surgiram mais ou menos na mesma época, e são ambos gêneros completamente separados de gêneros masculinos, femininos e/ou neutros. No entanto, a definição de maverique coloca ênfase na certeza sobre o próprio gênero e na independência pessoal de maveriques, enquanto aporagênero só é descrito como um gênero que certamente existe, mas que não é nem masculino, nem feminino, nem neutro.

c) Os termos podem ajudar pessoas a se entenderem melhor

Uma pessoa pode nunca pensar em si mesma como bissexual, mesmo que já tenha tido atrações por pessoas de vários gêneros, mas não o tempo todo. Mas tal pessoa pode acabar descobrindo o termo abrossexual, e descobrir que existe uma palavra para o que esta pessoa está sentindo! Talvez, de agora em diante, a pessoa até consiga dizer que é bissexual, para simplificar as coisas, porque já sabe que sua experiência é uma experiência multissexual válida.

Alguns outros exemplos de como isso pode acontecer:

  • Uma pessoa não se sente arromântica o suficiente e nem allorromântica o suficiente, e só consegue se entender quando descobre o termo akoirromântique.
  • Uma mulher não sente que é não-binária o suficiente, mas também sente que não é cis. Passa a se identificar como mulher não-binária ou como magimulher.
  • Um homem trans sofre com disforia e certamente sabe que não é uma mulher, se identificando como homem porque acha que não existem mais opções. Posteriormente, descobre que é neutrois.
  • Uma pessoa não consegue entender o conceito de gênero e como isso pode ser importante, mas gosta de utilizar roupas “masculinas” e por isso se identifica como homem ao invés de agênero, já que não consegue pensar em se apresentar de forma “andrógena”. Após descobrir o termo libragênero, esta pessoa descobre ser libramasculina.
  • Uma pessoa não quer se chamar de bissexual porque não possui atração por homens, mesmo que esta pessoa já tenha tido atração por pessoas agênero, maveriques e mulheres. Essa pessoa acaba se identificando como polissexual e como nãomensexual.
  • Uma pessoa pensa em si mesma como assexual, mas eventualmente sente atração sexual por alguém. A pessoa teme ter sido apenas uma fase ou uma repressão, e não sabe mais seu lugar na comunidade. Eventualmente, esta pessoa descobre que há pessoas assexuais que sentem atração com algumas condições, como pessoas gray-assexuais, demissexuais, e amicussexuais.

Existem pessoas que tentam categorizar todos os termos em “úteis” e “inúteis”, ou que tentam redefinir termos sem as comunidades que utilizam esses termos concordarem, para sua própria conveniência. Existem pessoas que tentam pintar certos termos como monossexistas, heterossexistas ou cissexistas, quando, enquanto podem ser utilizados destas maneiras, podem também ser termos úteis para quem quer descrever suas orientações.

Por exemplo, os termos heteroflexível e homoflexível podem ser monossexistas, para quem não quer se identificar como bi por pessoas bi “não conseguirem escolher um gênero logo”, ou por não quererem se associar com promiscuidade, ou por não quererem “trair” a própria orientação. Porém, são termos úteis para quem raramente sente atração em relação a certo gênero, e acha que isso não é destacado o suficiente com bi ou poli.

O termo bi também recebe reclamações de vários lados. Pessoas bi são acusadas de “apropriar” as orientações poli, pan e omni, por elas caberem na definição de “dois ou mais gêneros”, ou de afirmar com sua orientação que só existem dois gêneros. A comunidade bi, porém, se define como atração por mais de um gênero por décadas, antes mesmo de outras orientações multissexuais serem definidas.

E isso não significa que pessoas não possam preferir colocar ênfase em sua atração por muitos/todos gêneros, utilizando termos como poli, penúlti, pan e omni.

O objetivo desta postagem é mostrar que, desde que a pessoa se sinta confortável com sua identidade, não importa se outra identidade é mais simples de entender, ou mais específica para a situação. Uma pessoa pode se identificar como bi, pan e abro em diferentes situações, ou ao mesmo tempo, e isto não está errado. Uma pessoa pode só querer se identificar como não-binária e/ou como transgênero após entender exatamente como é seu gênero, e isto não está errado.

A complexidade de rótulos  0

Algumas vezes, vejo pessoas confusas quando veem orientações complexas.

Primeiramente, há pessoas cujas orientações sexual e romântica são diferentes uma da outra. Isso já é explicado nas páginas O que é orientação sexual? e O que é orientação romântica?. Algumas pessoas são arromânticas e pansexuais, ou birromânticas e heterossexuais.

Pessoas arromânticas e/ou assexuais também muitas vezes especificam outros tipos de atração, o que é também coberto por uma página daqui: Outros tipos de orientações.

E então temos casos um pouco mais complexos.

Várias orientações dos espectros assexual e arromântico podem ser utilizadas em combinação com outros rótulos.

Por exemplo, uma pessoa pode ser demissexual ou greyssexual, e isso denota que tal pessoa só sente atração raramente. Mas não denota qual ou quais gêneros podem ser alvos da atração sexual, quando ela ocorre. E daí surgem identidades como demiheterosexual ou greypolissexual. Note que estas identidades nem levam em conta orientação romântica, ou qualquer outra além da sexual.

Várias identidades dos espectros assexual e arromântico também podem ser coerentes umas com as outras. Uma pessoa pode ser cupiograyrromântica – raramente se apaixonar, mas querer um relacionamento amoroso mesmo sem a atração romântica. Alguém pode até ser cupiograyfrayrromântique – raramente se apaixonar (gray), só se apaixonar por pessoas não muito próximas (fray), e ainda assim querer um relacionamento amoroso (cupio). E isso nem leva gênero em consideração – a pessoa poderia adicionar ali que é panromântica (pode se apaixonar por qualquer gênero), por exemplo.

Existe o prefixo myr- (que pode ser “traduzido” como mir-), que é para pessoas que se encaixam em várias orientações do espectro a-. Então, por exemplo, uma pessoa cupiograyfrayrromântica poderia se dizer mirromântica.

Enfim, estes rótulos são apenas para cada pessoa poder expressar corretamente como sua atração é sentida. Ninguém é obrigade a utilizar todos os rótulos que se encaixam, e nem a divulgar todos os rótulos que se encaixam.

Mesmo assim, é importante respeitar que uma pessoa que se diz cupiograyfrayrromântica biaceflux não está “só confusa” ou “querendo ser especial” por não utilizar só bissexual, arromântica ou aceflux como identidade. É uma identidade tão válida quanto alguém que só se diz ser gay ou assexual; está apenas falando de uma experiência mais específica, e não obriga ninguém a se categorizar de maneira similar.

Por uma normalização da linguagem LGBTQIAP+  0

Aviso de conteúdo: Menção de violência transmisógina e de assuntos que podem evocar disforia. Intersexofobia, transfobia e ignorância em relação a identidades incomuns no geral.

Há um trabalho sério de educação a ser feito em volta da linguagem que utilizamos no dia-a-dia. Enquanto algumas pessoas – não qualquer pessoa, mas pessoas em grupos ativistas ou em universidades – já incorporam, de certa forma, a possibilidade de alguém ter um relacionamento com alguém do mesmo gênero, é bem mais raro haver a inclusão de outras identidades na linguagem do dia-a-dia.

Muites utilizam o x em redes sociais para simbolizar neutralidade, em frases como “todxs contra a violência”, mas, ao falar na vida real, utilizam “todos e todas”, como se estivessem sendo completamente inclusives por incluírem “ambos os gêneros”.

Muitas mulheres comentam que suas vidas seriam melhores se tivessem nascido com pênis, como se não houvesse uma enorme quantidade de assassinatos de mulheres trans e de outras pessoas de identidades transfemininas, por estas serem mulheres ou pessoas confundidas com mulheres que nasceram com pênis.

Muitas pessoas tratam de gravidez, de aborto e de menstruação como se fossem exclusivos de mulheres, ou deixam implícito que toda mulher conhece estas coisas, o que exclui diversas pessoas trans e intersexo.

Pessoas não-binárias não podem se apresentar e dizer seus pronomes e ter gente entendendo o que está acontecendo. E, se entendem, vão quase sempre enfrentar comentários sobre o quanto é difícil se referir a alguém com pronomes que não lhes vem à mente para a pessoa.

Pessoas de qualquer identidade mais incomum, não importa o quanto refletiram sobre serem de certa identidade, vão encontrar pessoas perguntando se possuem certeza, e se isso não é só uma vontade de querer ser especial ou de querer se encaixar, se contarem sobre sua identidade para outras pessoas.

Deveríamos ter grupos LGBTQIAP+ lutando por mais visibilidade, de formas concretas como panfletos e workshops. Isso é uma questão muito mais simples do que pautas vagas de acabar com a homofobia/transfobia, e muito mais efetiva do que declarações de repúdio ao bullying. Estas são coisas importantes também, mas não devem ser as únicas pautas que mobilizam a comunidade.


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