Um espaço de aprendizagem

Posts for Tag : monossexismo

As diferenças (ou não diferenças) entre orientações multi  0

Uma bandeira composta por cinco faixas horizontais: uma rosa, uma roxa, uma amarela, uma verde e uma azul. As faixas centrais são um terço do tamanho da primeira e da última faixa.

É extremamente comum haverem discussões sobre o que significam as orientações dentro do guarda-chuva multi – ou seja, as que são definidas por atração por mais de um gênero – especialmente hoje em dia, quando existem pessoas usando várias orientações diferentes.

Existem, assim, duas visões principais contrárias sobre o assunto:

  • Todas estas orientações são idênticas, e dentro deste campo existem tanto as pessoas que acham que por isso todo mundo deveria usar um rótulo só (geralmente bi) quanto as pessoas que veem rótulos como uma preferência pessoal que, ainda que inútil, deva ser respeitada;
  • Todas estas orientações são completamente diferentes, e duas pessoas que sentem atração da mesma forma usando rótulos diferentes ou estão desinformadas, ou ao menos uma das pessoas está ativamente cometendo apagamento contra o rótulo que ela deveria estar usando.

Como dá para perceber lendo a lista de orientações disponíveis neste site ou a matéria na Revista Elx que escrevi há anos atrás sobre isso (página 15), acredito que ambas as visões estão (parcialmente) erradas.

Isso não porque simplesmente quero ter uma opinião diferente, mas sim porque ambas as ideias vão contra a identificação de muitas pessoas, e muitas vezes até mesmo contra as definições que boa parte das comunidades dessas identidades específicas usam para elas.


Vou começar a explicar isso pelas orientações mais comumente discutidas nesse tipo de briga: bi, poli, pan e o(m)ni. Dentro de suas próprias comunidades, elas são comumente definidas como:

Bi: atração por mais de um gênero (x), atração por múltiplos gêneros (x), atração por dois ou mais gêneros (x) (x) (x).

Enquanto o texto não define o que é ser bi, o Manifesto Bissexual diz explicitamente para as pessoas não verem bi como uma identidade com “dois lados”, ou como algo que se resume a sentir atração pelos dois gêneros binários.

Ainda que estas sejam definições colocadas de formas diferentes, é importante destacar que estas comunidades não restringem bi a sentir atração por dois gêneros, por poucos gêneros ou por todos os gêneros; qualquer quantidade de gêneros maior do que um é inclusa nessas definições.

Poli: atração por múltiplos gêneros (x) (x), atração por múltiplos gêneros mas não necessariamente todos (x) atração por múltiplos gêneros mas não todos (x) (x), atração por mais de um gênero (x).

Uma das definições exclui pessoas que sentem atração por todos os gêneros, mas as outras não; por isso, acredito que faça mais sentido definir poli simplesmente como atração por múltiplos gêneros (a parte “não necessariamente todos” está implícita na definição, e pode ou não ser adicionada sem excluir ninguém).

Pan: atração por todos os gêneros ou que não é determinada por gênero (x) (x) (x), atração por todos os sexos e gêneros ou, para algumas pessoas, independentemente de gênero (x), atração por todos os sexos e gêneros (x), atração não limitada por gênero (x).

Observação: A questão de atração por sexo é excludente. Enquanto pessoas pan vão sentir atração por pessoas de qualquer sexo se gênero não é um fator em sua atração, ou se sentem atração por pessoas de qualquer identidade de gênero, colocar isso na definição infere que outras pessoas estão certas em excluir pessoas intersexo ou trans de sua atração, ou incluí-las injustamente, porque “sentem atração por certo(s) sexo(s)”.

Qualquer pessoa pode recusar a se relacionar com outras por qualquer motivo. Qualquer pessoa pode ter certos fetiches ou preferências do que gostaria ou não gostaria de fazer durante relações sexuais. Mas essas coisas não são determinadas pela capacidade da pessoa de sentir atração por certo(s) gênero(s), que é o que uma orientação definida por atração por certo(s) gênero(s) descreve. Nem é como se fosse possível saber quais hormônios, cromossomos e genitálias que todas as pessoas possuem antes de sentir atração (enquanto identidade de gênero em geral é algo que a pessoa vai dizer antes de tirar a roupa ou mostrar exames médicos).

Por isso, nenhuma orientação deve ser definida como “atração por tal sexo”, e a capacidade de sentir atração independentemente do sexo não é exclusiva de qualquer orientação.

Deixando isso de lado, as definições comumente usam dois possíveis critérios: atração por todos os gêneros e atração que não é limitada por gênero. Uma pessoa pan pode achar que um desses dois a representa mais do que o outro, ou pode não ter preferência entre eles. Mais sobre isso na página sobre a identidade pan.

Mas acho bom destacar que pessoas pan podem, sim, sentir atração mais por uns gêneros do que por outros. A questão de sentir atração sem o gênero ser o fator é uma possibilidade, não uma obrigação.

Em relação a omni, a coisa é mais complicada, porque poucas pessoas se identificam como tal, não existindo grupos maiores definindo esta orientação. Portanto, as perspectivas acabam sendo mais pessoais, e não necessariamente são resultados de interagir com mais pessoas da comunidade para achar pontos em comum.

Mas aqui estão algumas definições: atração por todos os gêneros, vendo eles de forma diferente (ou seja, atração por todos os gêneros mas que é determinada por gênero) (x) (x), atração por muitos gêneros (x), atração por todos os gêneros igualmente ou diferentemente, e talvez atração por otherkin/therians (x), atração por muitos gêneros mas não todos, sendo que a atração pode não ser por todos os gêneros por conta de escolha (x), atração por todos os gêneros que pode não ser limitada a humanes (e que pode teoricamente incluir outras espécies que podem consentir, como aliens) (x), atração por todos os gêneros igualmente (x), atração por todos os gêneros e expressões de gênero (x), atração por todos os gêneros de múltiplas espécies que podem consentir (x), atração por tudo (x).

Tentando organizar isso:

  • A grande maioria das definições inclui atração por todos os gêneros;
  • Muitas definições restringem ou enfatizam que pessoas omni em geral sentem atração por gêneros diferentes de formas diferentes;
  • Algumas definições dizem que pessoas omni sentem atração igual por todos os gêneros;
  • Algumas definições incluem não-humanes na atração;
  • Uma ou outra definição considera que pessoas omni não precisam sentir atração por todos os gêneros, ou não sentem atração por todos os gêneros.

Como estas definições são contraditórias, é difícil definir omni como uma coisa só, mas eu prefiro dizer que é atração por todos os gêneros, e que esta orientação geralmente é usada por pessoas que não querem se associar à identidade pan, ou pela conotação de “gênero não ser fator na atração” ser algo que queiram evitar (mesmo que ela seja opcional), ou por serem basicamente pan mas não sentirem atração por todos os gêneros, ou por quererem expressar de alguma forma que sua atração é “maior do que só por humanes” (ainda que eu não veja porque pessoas de outras orientações não poderiam ter atração por seres como alienígenas ou anjos ou vampires caso tivessem contato com tais seres).


Em relação a estas quatro orientações, consigo ver que se dividem em dois tipos: atração que não precisa incluir todos os gêneros (bi, poli) e atração que geralmente inclui todos os gêneros (pan, omni).

Embora pessoas que sejam bi e poli possam ter atração por todos os gêneros, é importante incluir as que não possuem. Dizer que são a mesma coisa que pan (que inclui atração em potencial por pessoas de qualquer identidade de gênero em todas as suas definições) é excluir pessoas que sentem atração por mais de uma identidade não-binária sem sentir atração por gêneros binários, pessoas que sentem atração por homens e mulheres sem sentirem atração por nenhuma identidade não-binária ou só por algumas identidades não-binárias e pessoas que sentem atração por um gênero binário e por uma ou mais identidades não-binárias sem sentir atração pelo outro gênero binário.

Essa é uma questão séria porque isso deixa essas pessoas sem nenhuma opção de rótulo popular que não as apague. E efetivamente as exclui de espaços multi, como se fossem “basicamente mono” só por não terem atração por todas as identidades de gênero.

Observação: E, sim, pessoas binárias, atração por pessoas não-binárias é relevante. Alguém que é bi por sentir atração por mulheres e por pessoas gênero neutro é tão bi quanto alguém que sente atração por homens e mulheres. Se você imediatamente pensa que alguém que sente atração só por mulheres e por pessoas gênero neutro é alguém que “sente atração por pessoas que parecem mulheres e quer disfarçar”, é você quem está reduzindo pessoas à sua aparência e possível genitália de forma cissexista.

Uma pessoa que sente atração só por mulheres, de diferentes expressões de gênero e gêneros designados, sente atração por um gênero. Uma pessoa que sente atração por diversas identidades de gênero sente atração por múltiplas identidades de gênero independentemente de passabilidade, expressão de gênero, gênero designado ou corporalidade.

Voltando ao assunto: Você pode, sim, se definir como bi ou poli por sentir atração por todos os gêneros. Porém, definir estas orientações como restritas a quem tem atração por todos os gêneros é excluir pessoas dela.

Da mesma forma, você pode se definir como bi por sentir atração por dois gêneros, mas dizer que todas as pessoas bi sentem atração por dois gêneros é apagar a experiência de outras pessoas bi. E você pode se definir como poli por sentir atração por “muitos gêneros mas não todos”, “três ou mais gêneros” ou “algum número de gêneros entre dois e todos, sem incluir esses extremos”, mas há outras pessoas que usam esta identidade que não possuem tais experiências, e elas não estão “deturpando o rótulo” quando a maioria das definições já as inclui.

Também quero destacar que em nenhuma definição existe algum critério como “ter que sentir atração por mais de um gênero igualmente” ou “ter que sentir atração por gêneros diferentes de formas diferentes”. Algumas pessoas bi/poli vão ter preferência por certos gêneros, outras não. Isso não é algo que diferencia bi de poli, ou bi/poli de pan e/ou omni.

Eu espero que já tenha ficado óbvia a distinção entre bi/poli e pan, mas e a distinção entre pan e omni?

Sinceramente, é o que já foi escrito lá em cima. Muitas pessoas veem os rótulos como a mesma coisa, outras gostam do aspecto sobrenatural de omni, outras querem se afastar da conotação de “atração não influenciada por gênero” que muitas pessoas pan se identificam como tendo.

Isso não significa que pessoas pan estejam apagando a identidade omni caso sua atração seja influenciada por gênero. Também não significa que pessoas omni só querem se achar melhores do que pessoas pan. Os motivos pessoais para pessoas se identificarem com um rótulo ao invés do outro podem vir de “a bandeira é mais legal” até “tenho trauma do termo porque sofri abuso de alguém que o usa”, além de virem de alguma das ênfases citadas.

Múltiplas palavras possuem sinônimos, muitas vezes que possam ser mais adequados em situações diferentes. Não é ruim que pessoas possam escolher que rótulo achem melhor.

Quanto a pessoas “se excluindo e fragmentando a comunidade”: quem está mesmo fazendo isso é quem insiste em só incluir rótulos mais antigos/populares. Se você insiste que seu espaço é só bissexual e que todo mundo que quer participar precisa lidar com pessoas presumindo que são bissexuais, ainda que você queira atingir toda a população multi, sim, seu espaço é excludente e está contribuindo com a fragmentação da comunidade, mais do que pessoas que preferem usar alguma palavra mais específica por representá-las melhor.

Existem termos guarda-chuva inclusivos: multi, pluraliane, monodissidente, não-monoatraíde (estes últimos dois também incluem ou deveriam incluir pessoas a-espectrais, de orientações fluidas, de orientações indefinidas e outras que sofrem com monossexismo). Existem espaços que usam BiPanPoli+, BPQ+ ou outras siglas, e embora não sejam tão inclusivas, podem ser um começo para quem tem medo de que só os termos citados não sejam suficientes para atrair gente.

A ideia de que existe um número limitado de termos aceitáveis para orientações é, também, monossexista. Assim como a ideia de que qualquer orientação precise ser completamente exclusiva de outras, sem ter nenhuma sobreposição entre elas. Afinal, é o tipo de normatividade pregada por quem diz que só existe “gay(/lésbica) ou hétero”, que o resto é desnecessário, complicado demais, irrelevante, tentativa de conseguir atenção, falta de caráter, contraprodutivo, inexistente. Que essas acusações não sejam feitas por outras pessoas multi também.

Finalmente, gostaria de pedir que pessoas usem definições como guias gerais, não como regras que precisam ser seguidas ao pé da letra. Pessoas podem se identificar como pan com exceções, e não ter atração por todos os gêneros. Pessoas podem se identificar como omni e sentir atração sem que gênero seja um fator. Talvez sejam casos menos comuns, mas ainda existem e devem ser respeitados.


O texto está bem mais longo do que eu planejava, então a conclusão em si está aí em cima. Mas aqui tem outras orientações multi, e suas similaridades e diferenças de outras orientações:

Toren/Trixen: Excluem atração por um gênero binário, mas incluem atração por um gênero binário e uma ou mais identidades não-binárias. São alternativas úteis a bi ou poli quando se quer especificar a falta de atração por um gênero binário (assim como pan é uma alternativa útil quando se quer especificar a atração por todos os gêneros).

Orientações flexíveis (heteroflexível, feminaflexível, torenflexível, etc.): Ao contrário do que muita gente prega, ser “de alguma orientação com exceções” não é exclusividade de quem não tem atração por pessoas não-binárias, ou de “pessoas inseguras que só não querem se dizer bi”. Uma pessoa pode se dizer bi, multi, poli, etc. e ainda usar um desses rótulos. Uma pessoa não-binária pode sentir atração frequente por mulheres e atração infrequente por qualquer outra identidade de gênero, e preferir feminaflexível a pan/omni, ou usar dois destes rótulos, ou os três. Estes rótulos não invalidam qualquer outro, só especificam atração. Também não são uma tentativa de não se dizerem multi, quando tais rótulos estão inclusos no critério de sentir atração por mais de um gênero.

Equ: É uma orientação definida como “atração por pessoas em geral, sem especificação; atração por todes igualmente”. Ou seja, é basicamente uma orientação que exclui gênero da definição (similar a uma das definições de pan), e que especifica que a atração é igual por todas as pessoas (similar a uma das definições de omni). Uma provável tentativa de fazer algo com uma definição mais específica.

Paro: Uma orientação para pessoas que explicitamente sentem atração por gêneros diferentes de formas diferentes. Mais específica do que bi ou poli, mais abrangente do que as orientações flexíveis. Este rótulo foi feito para pessoas que, por exemplo, sentem atração com frequência por pessoas não-binárias, mas só sentem atração por homens quando não são pessoas próximas, e só sentem atração por mulheres raramente. É bem importante como uma forma de especificar que a pessoa sente atração por mais de um gênero, mas não da mesma forma.

Orientações fluidas (abro, duo, crono, etc.): Enquanto muitas pessoas simplesmente colocam elas como parte do guarda-chuva multi, especialmente quando elas não são exclusivas de pessoas a-espectrais, pessoas com essas identidades já demonstraram vontade de só serem consideradas multi em momentos que sentem atração por mais de um gênero.

Pessoalmente, acho que qualquer pessoa que já tenha sentido atração por mais de um gênero, ainda que não no presente e/ou não ao mesmo tempo possa se considerar multi, mas é possível também que a orientação de alguém mude entre diversas orientações sem que a pessoa seja capaz de sentir atração por mais de um gênero (por exemplo, a pessoa pode fluir entre omniassexual, cupiossexual, demissexual, caligossexual e virsexual e sempre sentir atração somente por homens quando consegue senti-la), então acho que é bom deixar a critério de cada pessoa fluida se querem se dizer multi ou não.

Orientações indefinidas (pomo, com, novi, etc.): Novamente, muitas pessoas simplesmente dizem que essas pessoas são multi e ponto, já que esse é o caso de muitas pessoas que “não se encaixam em nenhuma orientação”, mas acho que é uma presunção muito grande dizer que todas essas pessoas sentem atração por mais de um gênero, quando as definições desses termos incluem outras possibilidades.

Acho importante incluir que há a possibilidade de pessoas fluidas/indefinidas serem multi, mas também acho importante incluir que elas nem sempre vão ser, e deixar a decisão de se identificar como multi pra cada pessoa.


Caso você não saiba e queira saber o que significa algum dos termos mencionados, procure-o na lista de orientações daqui.

“Radicalismo” reformista  1

Piadas e manifestações de desprezo genéricas contra opressories* e pessoas ignorantes podem ser catárticas e importantes. Porém, quando são levadas ao patamar de princípios, retiram nuances existentes na vida real, além de criarem um ideal distorcido para grupos ativistas.

Estou falando tanto sobre teorias que desprezam a realidade em troca de dualidades falsas de opressories e oprimides, quanto sobre piadas e brincadeiras que ajudam a normalizar essas dualidades.

É importante perceber que a maior parte dos grupos oprimidos consistem de várias identidades diferentes, e que nem sempre uma vai ser mais ou menos oprimida do que a outra. Isso porque a sociedade centraliza uma característica como certa e outras características como erradas em cada eixo, por não se encaixarem no modelo privilegiado por diferentes motivos.

Por exemplo, uma pessoa heterorromântica é vista como padrão pela sociedade. Uma pessoa heterorromântica exibe interesse romântico em pessoas somente de um gênero, aquele que é considerado oposto pela sociedade, e eventualmente se apaixona e entra em relacionamentos amorosos com pessoas do gênero “certo”.

Enquanto isso, existem pessoas que não são heterorromânticas. Pessoas multirromânticas vão sofrer repressão por não sentirem atração por só um gênero, além de sofrerem repressão por sentir atração por algum gênero “errado”; pessoas arromânticas e do espectro arromântico vão sofrer repressão por não desejarem ou manterem relações românticas com o “gênero certo”; e gays, lésbicas, e pessoas de orientações similares vão sofrer repressão por sentirem atração pelo “gênero errado” e não pelo “gênero certo”.

Existem maneiras, é claro, de uma pessoa heterorromântica não parecer heterorromântica, e ser confundida com alguém de outra orientação, recebendo então repressões por parte da sociedade. Porém, no momento, vamos lidar com um modelo teórico de uma pessoa heterorromântica que não dá a impressão de ser arromântica, gay, etc.

Mesmo assim, uma pessoa heterorromântica não é necessariamente privilegiada em outros aspectos. Uma pessoa heterorromântica ainda pode ser transgênero, mulher, deficiente, indígena, profissional do sexo e/ou até mesmo não-heterossexual, para citar algumas das inúmeras minorias existentes no planeta.

Dentro da comunidade LGBTQIAP+, existem diversos tipos de marginalização. A comunidade é unida desta forma porque a sociedade ainda vê certas características como desvio das normas de gênero: muitas vezes não separam um homem trans hétero de uma mulher cis lésbica, ou uma mulher trans perisexo de uma mulher ipsogênero, por exemplo.

No entanto, é importante que cada pessoa possa se identificar em seus próprios termos, não importa se a sociedade as coloca no mesmo saco de pessoas estranhas que deveriam ser tiradas de vista ou corrigidas. Só que, dentro da comunidade, alguns grupos se aproveitam da invisibilidade de outros para tentar homogeneizar a comunidade, o que só leva à criação de grupos assimilacionistas; grupos que tentam ser mais aceitáveis para a sociedade que os oprime, para ganharem privilégio a troco da marginalização de quem não está nesses grupos.

Existe um fenômeno chamado homonormatividade, que é, essencialmente, a normalização da identidade gay – e, na maioria das vezes, da identidade lésbica também – como a identidade LGBTQIAP+ “padrão”, muitas vezes colocando questões gays como as mais importantes para a comunidade, e tratando representação gay como o único tipo de representação importante para a comunidade.

É a homonormatividade que vende o padrão de casais gays/lésbicos monogâmicos, cis, brancos, de classe média e razoavelmente atraentes como a experiência LGBTQIAP+ ideal. Que mostra a liberdade de casais do mesmo gênero poderem se casar oficialmente e adotar filhes como as pautas mais importantes para o progresso da sociedade, quando crianças intersexo passam por cirurgias forçadas e pessoas transfemininas são frequentemente assassinadas por não “parecerem mulheres” o suficiente.

Essa homonormatividade também desvaloriza outras identidades não apenas por ignorá-las, mas por considerá-las extensões das identidades gay e lésbica. É daí que vem a preocupação de pessoas trans hétero serem “gays ao extremo”, de pessoas trans gays/lésbicas serem “pessoas hétero com um fetiche”, de pessoas não-binárias poderem ser “pessoas que querem ser de outro gênero por terem homofobia internalizada” ou “pessoas cis e hétero que se acham especiais”, de pessoas bi serem “apenas parcialmente gays”, “secretamente hétero”, ou “secretamente gays”, de identidades como poli e pan serem irrelevantes, de pessoas intersexo não terem nada a ver com a comunidade, etc.

Este tipo de pensamento se estende dentro das comunidades LGBTQIAP+, quando há uma pressão para ser o mais gay possível; ou, em certos casos, o mais trans possível. Por exemplo:

  1. Dizer que uma personagem que possui relacionamentos tanto com homens quanto como mulheres é lésbica não é desrespeitoso com pessoas bi, porque várias lésbicas já tiveram relacionamentos com homens. Porém, dizer que uma personagem que só possui relações com mulheres é possivelmente bi é desrespeitoso, porque passa a mensagem de que lésbicas não existem/que qualquer mulher deve “estar disponível a um homem”;
  2. Uma pessoa multi não pode dizer que sua atração por pessoas do mesmo gênero é gay, ou se chamar de palavras estigmatizadas direcionadas a pessoas gays/lésbicas (viado, sapatão, etc.); porém, casais formados por pessoas do mesmo gênero são “casais gays”, direitos para estes casais são “direitos gays”, etc.
  3. Lésbicas e homens gays podem sentir atração por pessoas não-binárias que ~parecem ser~ do gênero que geralmente se atraem, e isso, de alguma forma, não é desrespeitoso. Porém, se uma pessoa se identifica com alguma identidade multi por sentir atração por pessoas de vários gêneros que não é o seu, essa pessoa é “basicamente hétero” e “fetichiza identidades não-binárias”;
  4. Pessoas assexuais ou arromânticas que também são lésbicas ou gays sofrem de “homofobia internalizada” por não se identificarem completamente como lésbicas ou gays, mas pessoas assexuais ou arromânticas que também são hétero são “basicamente hétero” e não deveriam estar em “espaços LGBT”;
  5. Pessoas trans precisam de disforia de gênero para serem “trans de verdade”, que são as únicas pessoas trans que devem ser respeitadas. Porém, identidades não-binárias e pronomes alternativos são constantemente alvos de chacota, sem que ninguém pense na possibilidade dessas pessoas possuírem disforia.

Isso também culmina em ódio a pessoas hétero que nem realmente são hétero. Ódio a “relacionamentos hétero” muitas vezes afeta pessoas dentro da comunidade BTQIAP+; ódio a identidades não-binárias que ~parecem falsas~ muitas vezes afeta pessoas que não são cis; ódio a pessoas com fetiches ou em relacionamentos poliamorosos por “acharem que podem ser LGBT” afeta pessoas LGBTQIAP+ nestas comunidades.

E de que adianta rir de pessoas que se identificam como demissexuais ou magigênero? De que adianta alienar pessoas multi, que são grande parte da comunidade, dizendo que não podem se sentir representadas na mídia, e que são sujas por terem “relacionamentos hétero”? Quem ganha com a ideia de que pessoas trans precisam entrar em um certo molde para serem respeitadas?

Apenas o sistema, é claro, e as pessoas que querem fazer parte dele.

Porque, de resto, você está alienando partes de um grupo que se uniu justamente para ser mais forte e visível desta maneira.

Combater heteronormatividade e cissexismo em espaços LGBTQIAP+ é importante, mas tentar manter um ideal de pessoas que são “oprimidas o suficiente” está mantendo estes sistemas, dando a ideia de que só certos pequenos grupos são puros o suficiente para serem respeitados.

Se você tem medo de agressões contra lésbicas, pessoas gays e pessoas trans binárias na comunidade, o ideal é educar qualquer pessoa sobre cisheteronormatividade, e não reduzir a comunidade LGBTQIAP+ apenas a estas pessoas.

É um erro pensar que qualquer pessoa que não é de certa identidade vai ser preconceituosa contra certa identidade (especialmente em espaços LGBTQIAP+), e também é um erro pensar que qualquer pessoa que é de certa identidade não vai ser preconceituosa contra pessoas dessa mesma identidade.

Também é muito importante combater racismo, misoginia, capacitismo e outras marginalizações que não são relacionadas à comunidade LGBTQIAP+, afinal existem outros sistemas que devem ser destruídos.

* Recentemente, fui informade que palavras que já possuem e podem ser acompanhadas de i para serem claramente neutras, como em professories, opressories ou trabalhadories. Pretendo escrever desta forma de agora em diante.

Orientações flexíveis: como utilizar  1

Na maioria das listas de orientações, as orientações que são listadas são hétero, lésbica, gay, e bi; em listas um pouco maiores, podem ser encontradas também as orientações pan, assexual, demi, e poli. As listas que vão além destas, mas que ainda focam em experiências mais diversas, podem incluir gray-a, cetero, e abro.

Porém, ocasionalmente, entre estas orientações, também podem ser encontradas as orientações homoflexível – alguém que geralmente sente atração por pessoas do mesmo gênero, com algumas exceções – e heteroflexível – alguém que geralmente sente atração pelo gênero considerado “oposto” pela sociedade, com algumas exceções. Estas são orientações relativamente controversas, geralmente pelas seguintes suposições:

  1. Heteroflexível é uma palavra para pessoas hétero que querem dizer ser oprimidas sem precisarem realmente tomar riscos. Este é um argumento monossexista muitas vezes utilizado contra pessoas multi também. Não há motivos para uma pessoa hétero “querer ser oprimida”. Nenhuma orientação é modinha o suficiente para valer a pena toda a discriminação sofrida por não ser hétero.
  2. Homoflexível é uma palavra empurrada para pessoas gays ficarem disponíveis para pessoas de outros gêneros contra suas vontades. Este também é um argumento monossexista muitas vezes utilizado contra pessoas multi. Qualquer pressão para se identificar como algo que não quer é desmerecida, e qualquer pressão para “ficar disponível” para alguém, independentemente da compatibilidade em relação à orientação, é abusiva. Agora, isso não é motivo para reclamar da existência de diversidade de rótulos. Pressionar pessoas homoflexíveis a se identificarem como gays é tão ruim quanto pressionar pessoas gays se identificarem como homoflexíveis.
  3. Homoflexível e heteroflexível são identidades anti-bi, porque quantificam atrações desnecessariamente/incentivam pessoas a não se identificarem como bi/etc. Assim como não é certo forçar pessoas homoflexíveis ou heteroflexíveis a se identificarem como gays/hétero, também não é certo forçá-las a se identificarem como bi. Pessoas de qualquer identidade flexível podem se identificar como bi/multi caso queiram, mas geralmente, se possuem estas identidades, ou sentem necessidade de dizer que sua orientação na maioria das vezes funciona de certa forma, ou sentem estar “invadindo” a comunidade bi por causa de exceções à regra.

Ou seja, estas controvérsias ou vêm da suposição de que todas as pessoas que sentem atração por mais de um gênero precisam se identificar como bi, e que são preconceituosas se não se identificarem como bi; ou da suposição de que o ideal é apenas se identificar como gay ou hétero, porque o resto “complica demais” ou “força a barra”. Estes argumentos geralmente possuem base em cenários exagerados, e não admitem a possibilidade de que alguém queira se identificar como algo além de lésbica/gay/bi/hétero por conta própria e sem ter preconceito algum contra quem prefere se identificar com alguma destas identidades.

Dito isso, bola pra frente.

Pessoas de orientações flexíveis geralmente se identificam como tal por causa de atração que realmente aconteceu. Por exemplo, uma lésbica que se apaixonou uma vez por um homem, mesmo tendo certeza de que era um homem, pode se chamar de homoflexível.

Porém, também é possível se identificar com este tipo de orientação por ter abertura a relações com pessoas de outros gêneros, mesmo que não tenha acontecido nenhuma atração ainda.

É possível também ser de alguma orientação flexível que não seja heteroflexível e homoflexível. Por exemplo, uma pessoa ceteroflexível geralmente sente atrações por pessoas não-binárias, mas pode sentir atração por pessoas binárias de vez em quando. Uma pessoa mulheflexível geralmente só sente atração por mulheres, mas pode ocasionalmente sentir atração por pessoas de outros gêneros. O sufixo -flexível é útil para praticamente todas as orientações que são definidas por atração a gêneros ou espectros específicos.

Qualquer pessoa pode se enganar a respeito de sua orientação, descobrindo que na verdade as exceções à regra não são tão raras assim e passando a se identificar como bi/poli/etc., ou descobrindo que as exceções não eram atração de verdade e passando a se identificar como gay/hétero/etc. Também é possível descobrir que as exceções na verdade eram as únicas instâncias de atração de verdade.

Porém, é possível se enganar a respeito de qualquer orientação, e é importante saber que rótulos não precisam ser permanentes ou completamente precisos. Caso sejam úteis e confortáveis para você, use-os. Caso não sejam, mude-os ou deixe-os.

É claro, a decisão de usar um rótulo destes é sua, mesmo que você se encaixe perfeitamente neles. Por exemplo, se uma pessoa não gosta de se dizer homoflexível, pode se dizer somente gay, e, apenas se quiser, dizer que possui exceções.

Como nota final, é possível especificar se uma orientação flexível é sexual/romântica/platônica/etc., como em neuflexirromântique ou em proquuflexisexual. Porém, geralmente, orientações flexíveis são utilizadas como as palavras gay e lésbica, podendo ser utilizadas sem modificações em qualquer tipo de orientação; como em assexual arromântique finflexível, demirromântique mascuflexível ou quoissexual heteroflexível.

Por que não utilizar o termo LGBTfobia?  2

Esta postagem foi escrita por certa discussão hoje, onde pessoas não entendiam o que havia de errado em resumir as opressões sofridas pela comunidade LGBTQIAP+ em LGBTfobia.

O uso de fobia para descrever opressão e discriminação é controverso por seu potente capacitismo, em relação a pessoas que realmente possuem fobias. É por isso que não uso termos como transfobia e afobia em geral. Porém, esta postagem irá focar apenas na ideia de tentar incluir um monte de discriminações contra identidades diferentes em uma só palavra.

Bem, vamos começar apontando o óbvio: é só LGBT ali. LGBTfobia não considera a existência de diadismo (intersexofobia), amatonormatividade (arofobia) ou alossexismo (acefobia).

Admito que bifobia normalmente é um termo generalizado para quem sofre com monossexismo. Os ataques que pessoas pan, omni ou outras que sejam atraídas por multiplos gêneros sofrem não são muito diferentes do que os ataques que pessoas bi sofrem, com a exceção do problema adicional de reclamarem que são termos desnecessários, apenas para “floquinhos de neve especiais”. Também há o exorsexismo que acompanha a intolerância em relação a identidades não-binárias, que não é especificamente direcionada para pessoas multi que se dizem atraídas por gêneros não-binários.

Embora a maioria das pessoas em espaços LGBT nem saiba da existência de gêneros não-binários, acredito que dê pra forçar a barra e dizer que consideraram exorsexismo (discriminação contra pessoas não-binárias) dentro de transfobia.

Admito também que LGBTfobia pode até ser um nome relativamente adequado para quando ultraconservadores falam mal “dos LGBTs”, quando não sabem a diferença de identidade de gênero e de orientação sexual, ou quando sabem e colocam tudo no mesmo saco. E, bom, normalmente falam de “homens beijando homens”, de “mulheres beijando mulheres”, e de “pessoas que acham que podem mudar de sexo”. Realmente não falam de algo que teria a ver diretamente com pessoas intersexo, assexuais ou arromânticas. Porém, se estes grupos tivessem mais visibilidade, com certeza iriam falar publicamente contra eles, ao invés de utilizarem cirurgias forçadas e estupros corretivos de forma que a discriminação seja invisível.

Ok, temos aí o esquecimento de grupos que certamente sofrem com a di/cis/heteronormatividade! O que mais?

LGBTfobia ignora as causas individuais de grupos marginalizados na comunidade LGBT+.

Pessoas bi compõem mais ou menos 50% da comunidade LGB+. Ainda assim, poucos são os fundos que vão especificamente para causas bi. Mesmo que pessoas bi sejam estatisticamente mais discriminadas em relação a gays e lésbicas. Até terapeutas “LGBT-friendly” tentam convencer pessoas bi de que na verdade são hétero ou gay, e bissexualidade é listada como sintoma de diversas doenças mentais.

O B e o T da sigla só foram adicionados mais tarde, mas isso não significa que gays e lésbicas realmente toleram pessoas bi e trans. [x] [x]

Monossexismo é um grande problema, mas é extremamente difícil ver alguém falando de monossexismo ou de bifobia de forma que não seja superficial: ou como se não fosse diferente de heterossexismo (ou de ódio específico contra pessoas que são atraídas pelo mesmo gênero), ou mencionando episódios de violência contra pessoas bissexuais, mas sem analisar como alguém pode discriminar especificamente pessoas bi/multi.

Pessoas bi/multi muitas vezes sofrem abuso por serem atraídas por mais de um gênero, mas a comunidade gay e lésbica insiste que é só pela atração pelo mesmo gênero, e que pessoas bi são menos discriminadas, por possuírem o privilégio de se casarem com alguém de um gênero aceitável pela sociedade. No entanto, as estatísticas não mostram nenhum privilégio, muito pelo contrário.

O ponto é: bifobia não é discutida quando só se põe em foco a “LGBTfobia”. Discriminação contra pessoas bi/multi conta como LGBTfobia quando é violência pela pessoa estar com alguém do mesmo gênero; conta nos números de violência contra pessoas LGBT. Mas e quando o assunto é pessoas bi/multi – em sua grande maioria, mulheres – serem abusadas por parceires de qualquer gênero pelo medo de traição, ou quando são estupradas para convencê-las a “escolher um lado”? Isso vai pra baixo do tapete.

Portanto, “LGBTfobia” apaga a discriminação específica contra pessoas multi, e faz com que pessoas não falem de monossexismo. Só falam que a discriminação foi por “ser LGBT”, não especificamente por “ser bi/multi”, e agem como se as outras pessoas da sigla corressem os mesmos riscos que uma pessoa bi/multi corre. Além de, claro, ganharem fundos para combater discriminação em cima disso, que, por sua vez, não é gasto com causas de pessoas bi/multi.

Um caso similar ocorre com pessoas trans.

Mulheres trans são um dos grupos que corre mais risco de ter AIDS, mas são frequentemente excluídas de programas feitos para combatê-la. Fundos de saúde LGBTQ+ gastam muito mais em homens LGB+, com mulheres LGB+ em segundo lugar com menos da metade do que é gasto com homens, e pessoas trans em terceiro lugar. (Pessoas intersexo ganham uma quantidade ridiculamente pequena de fundos, mas hey, estamos falando de LGBTfobia, não de LGBTIfobia!)

Mortes também são um problema. Este estudo mostra que pessoas trans possuem 50% a mais de risco de serem assassinadas do que gays ou lésbicas (ainda que, neste caso, se só contar o Brasil, são 9 assassinatos de pessoas trans contra 8 de gays e 3 de lésbicas). Este estudo feito em relação a assassinatos de pessoas lésbicas, gay, bi, trans, queer e soropositivas teve como resultados 45% de assassinatos de mulheres trans, e 87% de assassinatos de pessoas de cor (não-brancas).

Este reporta que, entre pessoas assassinadas por serem LGBTQ ou soropositivas, 53% eram mulheres trans, e 73% eram pessoas de cor.

Quase metade destas mortes de pessoas LGBT+ nas Américas foram mulheres trans. O mesmo estudo fala que mais da metade das 300 mortes no Brasil foram de mulheres trans (“mulheres trans” aqui provavelmente inclui outras pessoas transfemininas: pessoas designadas como homens ao nascimento que possuem alguma identidade relacionada com feminilidade ou com o gênero feminino, como muitas travestis).

Ou seja, ativismo que se apropria destas mortes, como se pessoas LGB+ cis e brancas tivessem a mesma chance de serem assassinadas do que mulheres trans negras, é extremamente desrespeitoso.

Também houve o caso do filme Stonewall. Stonewall era um bar para as pessoas mais indesejadas da comunidade LGBT+; pessoas trans, homens gay afeminados, lésbicas masculinizadas, pessoas sem-teto, pessoas de cor, profissionais do sexo, e assim vai. Porém, o filme preferiu inventar um personagem principal mais aceitável para o público hétero – um homem gay, cis e branco. O filme também deixou de contratar mulheres trans para contratar homens cis para fazer o papel delas. E, ao invés de mostrar Sylvia Rivera, mostra uma personagem similar, talvez porque a presença dela no ato seja contestada por algumes.

Isso pode não ser superficialmente “LGBTfóbico”, afinal, é um filme sobre uma parte do movimento gay, e es personagens fictícies ainda são LGBT+. Porém, esta ainda foi uma jogada cissexista e racista, uma vez que deixa implícito que gêneros são só roupas pela contratação de homens cis, e que pessoas transfemininas de cor não são simpáticas o suficiente para que um filme sobre um evento histórico aonde elas foram protagonistas tenha uma protagonista que seja coerente naquele contexto.

Lésbicas também sofrem discriminação específica. Aqui tem uma anedota pessoal de lésbicas serem convidadas a sair de um bar gay. Lésbicas enfrentam um mundo onde a sexualidade masculina é considerada mais importante, e onde histórias com lésbicas são feitas para consumos de homens hétero. Lésbicas são sexualizadas e fetichizadas publicamente.

Pessoas trans, meninas bi e lésbicas estatisticamente sofrem mais na escola do que meninos bi ou gay.

Enquanto falarmos só sobre LGBTfobia, a discussão não vai passar do superficial.

Homens gays e lésbicas ainda vão perpetuar discriminação contra pessoas bi e trans. E vão se dizer mais oprimidas para a sociedade em geral, mostrando como prova o quanto de discriminação pessoas LGBT em geral sofrem.

Lésbicas ainda vão acusar mulheres trans de serem predadoras sexuais. E, através de teoria feminista radical, vão incentivar legislações como as da Carolina do Sul, onde pessoas trans não podem mais ir ao banheiro que “não corresponde com seus genitais”.

Homens gays e brancos ainda vão excluir mulheres lésbicas, bi e trans, além de qualquer pessoa LGBTQIAP+ de cor, de espaços e movimentos, por não serem aceitáveis o suficiente.

Pessoas brancas vão organizar protestos em áreas nobres contra a LGBTfobia, citar as quantidades de mortes causadas por LGBTfobia, e comover as pessoas com o quanto é perigoso ser LGBT+, quando a maioria destas mortes teve como alvo grupos específicos.

Pessoas vão dizer o quanto é importante lutar contra a LGBTfobia, mas vão falar só de homofobia, porque supostamente é o “ponto em comum”.

Pessoas vão dizer que protestos e paradas são bons para conscientizar a população de que existimos, enquanto a maior parte da população não sabe o que é uma pessoa transgênero, não-binária, ou até mesmo o que exatamente é ser bissexual. Quem dirá saberem o que é uma pessoa pan, arromântica, intersexo ou demigênero.

Celebram Stonewall, enquanto tentam passar a mensagem de que são iguais a pessoas di/cis/hétero, com “a exceção de quem amamos”.