Um espaço de aprendizagem

Posts by Category : Pautas

10 itens publicados em 2025  0

Círculos um em cima do outro em cores arco-íris. Por cima, o texto 2025 grande e centralizado em cor branca. No canto, "(de novo)" em cor cinza de forma escrita à mão.

No ano de 2025, além de ter acompanhado termos cunhados neste ano, acumulei links para outras publicações, cumprindo minha meta estipulada em 2024 de destacar outros trabalhos produzidos pela comunidade.

A ideia é não limitar a determinado formato, com livros de ficção, músicas, podcasts e artigos científicos serem formas de publicação válidas. Porém, meu alcance pessoal é limitado, e poucas pessoas à minha volta têm o hábito de sugerir publicações num geral (muito menos que seriam relevantes pra esta lista), então admito que esta retrospectiva poderá não ser tão interessante quanto eu gostaria.

Interessades em chamar atenção para determinado trabalho, para que este possa entrar em algum tipo de retrospectiva, podem fazer divulgação dele no nosso fórum, entrar em contato comigo via fediverso (@Aster) ou mesmo comentar sobre o próprio trabalho na rede qósmiques. Embora eu acompanhe certos blogs, certos subreddits e certas contas no fediverso, YouTube e Instagram, eu não tenho como garantir que vou ter visto ou arquivado tudo o que aparece nas minhas linhas do tempo. O fórum do Orientando é uma ótima maneira de chamar atenção para uma publicação interessante, já que ele está disposto de uma forma organizada e desincentiva publicações superficiais, além da maioria de seus subfóruns estarem disponíveis em resultados de sites e aplicativos de busca.


Pensando Fora do Binário – até no mundo árabe / Thinking Outside The Binary – even in the Arab world / التفكير خارج الإطار الثنائي

O primeiro texto a ser destacado, em ordem cronológica, foi publicado no dia 15 de janeiro por auxiliaryfrfr em pronouns.page, e é sobre a importância de não se silenciar e promover a neolinguagem mesmo em uma língua sem gêneros gramaticais não associados ao binário de gênero.

A tradução na língua portuguesa foi feita e publicada por mim no subreddit r/neolinguagem, com base na versão de língua inglesa do texto. Quem quiser ler tal tradução sem visitar o Reddit pode ler uma versão arquivada aqui.

+ Para quem se interessa na pauta da liberdade de tratamento e quer se aprofundar mais, também publiquei o texto Por um movimento explicitamente pró-neolinguagem neste ano, o qual conceitualiza diferentes formas de discriminação contra estar fora das normas de linguagem e aponta o quanto a pauta não pode depender de movimentos cisdissidentes, trans ou não-binários para ser defendida ou ensinada.


How to Make Your Own Binder that Fits Well and Looks Good

Também no dia 15 de janeiro, kiwisoap no Tumblr publicou um guia passo-a-passo de como fazer um binder no estilo dos da loja gc2b. Eu já costurei meu próprio binder no estilo dos da loja Shapeshifters, mas tive bastante dificuldade de achar o tecido certo para a malha de trama aberta, que precisa ser elástico mas relativamente firme; enquanto isso, o estilo deste molde permite a confecção apenas com tecidos mais comuns (entretelas, algo firme como sarja ou algodão para camisas e tecido para legging). Meus binders da gc2b também usam tecidos mais finos do que os da Shapeshifters, então binders feitos com o molde da publicação podem até ser uma opção melhor para climas mais quentes.

Até o momento da escrita, não testei o guia, mas ele parece ser razoável. Pessoalmente, eu usaria algum ponto próprio para tecidos elásticos (os que geralmente aparecem pontilhados na máquina de costura) ao invés de um ponto zigue-zague comum, mas acredito que este possa funcionar também.


Gatekeeping gender-affirming care is detrimental to detrans people (versão em áudio aqui)

Este artigo, publicado no International Journal of Transgender Health – mas que encontrei pelo site de Florence Ashley – foi publicado online no dia 12 de fevereiro. Seu nome traduzido seria algo como “restringir cuidados afirmativos de gênero prejudica pessoas detrans”, e ele se trata de demonstrar o quanto os modelos utilizados por váries profissionais da saúde para determinar acesso a formas de transição corporal são danosos tanto para pessoas trans quanto para pessoas que acabam destransicionando.

Para muites profissionais, sues pacientes ou precisam ter completa certeza de que passar por processos de transição física é a única forma de diminuir a disforia de gênero que sentem, ou são pessoas que não merecem acesso a quaisquer formas de transição física. Segundo es autóries, isso acaba incentivando pacientes a não ser honestes com suas inseguranças ou seus desejos, especialmente quando podem estar buscando transição física como uma forma de experimentação de gênero similar a quando alguém adota termos de identidades de gênero, conjuntos de linguagem pessoais, maquiagem e/ou roupas de formas que podem ou não ser temporáries quando não têm certeza absoluta sobre suas identidades.


Héteros e dissidentes

Esta publicação di Oltiel, do dia 21 de junho, fala sobre as pessoas hétero dentro da comunidade LGBTQIAPN+, que acabam sendo apagadas ou mesmo antagonizadas em discursos que ignoram a existência de pessoas trans, intersexo e a-espectrais que são mulheres e sentem atração apenas por homens (ou vice-versa). Ilo também oferece alternativas para pessoas que sentem tal atração e preferem se afastar do termo hétero por sua conotação comum de cisgeneridade, periorientação e alossexualidade.

+ Também recomendo um texto anterior dilo (de 2020) que argumenta contra a inclusão da não-binaridade em definições e usos de hétero. Alternativamente, também publiquei Pessoas não-binárias e a alienação da diamoricidade em 2025, um texto questionando o impulso não-binário de usar termos com conotações binárias para suas orientações.


Dossiê Matria: O lobby antitrans disfarçado de defesa das mulheres e crianças

Em 9 de outubro, o site da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) publicou Pesquisa inédita explora lobby antitrans da Matria com apoio de universidades e entidades de direitos humanos, texto que chama a atenção para um dossiê sobre o grupo antitrans Matria, expondo suas conexões com grupos de extrema direita que informa suas investidas contra direitos trans. O corpo do texto em si (sem contar capa, sumário, etc.) tem 48 páginas.


From definitions to motivations

Este artigo do Siggy publicado em 21 de outubro critica a apresentação da assexualidade como uma série de termos e definições, ao invés de levar em consideração o contexto que motivou a existência de tais termos e o quanto cada um dos termos apresentados é amplamente utilizado. Ele aponta que, para muitas pessoas, suas orientações do espectro assexual são termos que fazem sentido nos contextos onde estão inseridas, mesmo que pareçam especificações “excessivas” sob perspectivas alossexuais (de fora do espectro assexual), entre outras questões.

Eu mesme tento contextualizar cada termo apresentado no Orientando em sua página específica (e/ou com links externos). Entendo o valor de uma lista rápida para entender o que determinado termo significa, mas a compreensão de dinâmicas comunitárias em torno de cada termo, ou mesmo das definições base de alguns termos, requer ir além de ler uma definição resumida. Ainda mais se a pessoa lendo não é familiar com conceitos como gênero ou orientação de forma mais profunda do que o assunto tende a ser tratado em espaços cis e hétero.

+ O texto The Ace Community and Folk Epistemology, publicado por RED em resposta ao Siggy no dia seguinte, se trata de explicar o fenômeno da epistemologia folk, onde são as próprias comunidades queer que cunham as próprias terminologias para se comunicar sem a necessidade de imposições de autoridades ou de hierarquias onde certos termos são obrigatoriamente diferentes ou mais abrangentes do que outros.


Translation: “The Quoiromantic Manifesto” by Nakamura Kasumi

No dia 25 de outubro, aceadmiral no WordPress publicou uma tradução de um manifesto quoiromântico originalmente publicado em 2021 neste livro (se eu não me engano) por Nakamura Kasumi. Como esta compilação de publicações não existia em 2021 e eu só soube do manifesto por conta desta tradução, estou contando como um “texto de 2025”.

O manifesto começa definindo orientações sexuais e românticas e contando a história do termo quoi. Depois, descreve o conceito de relacionamentos puros, os quais são definidos por comprometimento e pela escolha livre em torno do relacionamento (ao contrário de laços formados por deveres sociais, por exemplo). Finalmente, fala sobre pensar em cada relacionamento como diferente e em flutuação, sem dividir pessoas entre relacionamentos amorosos ou de amizade.

+ As conclusões de Nakamura Kasumi são similares às de proponentes da anarquia relacional, embora o conceito não tenha sido mencionado. O livro de 2020 (com publicação revisada em 2022) Anarquia relacional: A revolução a partir dos vínculos por Juan Carlos Pérez Cortés é uma leitura interessante para quem quer saber mais sobre o assunto. Sua versão escrita na língua inglesa está disponível gratuitamente em The Anarchist Library, mas existe versão na língua portuguesa à venda.


O desafio da população trans de envelhecer com plenitude

O texto em questão foi publicado em 24 de novembro por Priscilla Machado. Foca em mostrar dados e depoimentos acerca de envelhecer sendo trans, tanto em questão de como é difícil sobreviver tantas décadas quanto em questão de como estas pessoas acabam passando por dificuldades como isolamento, desemprego e despreparo de profissionais da saúde.

+ Outro texto publicado em 2025 sobre exclusão de um grupo cisdissidente do mercado de trabalho é Pessoas não binárias enfrentam dificuldades e exclusão no mercado de trabalho, texto por Diego Facuntini publicado no site do Ministério Público do Mato Grosso.


A vida como um ato político

A ideia de existir como trans ser uma resistência por si só é uma que muitas vezes é repetida sem ser explicada. Esta coluna, publicada pela Úrsula Brevilheri no dia 28 de novembro, exemplifica a dor e a importância de existir publicamente fora da cisnorma.

+ No dia 20 de outubro de 2025, o texto A trans de barba e o LGB sem o T foi publicado pela Sara York no portal de notícia Brasil 247. Também é um texto que trata de criticar a cisnormatividade, inclusive em espaços heterodissidentes.


How pinkwashing weaponizes LGBTQ+ rights

Neste vídeo, publicado em 23 de dezembro, revolutionaryth0t explica como países mais ricos usam a desculpa de que países menos poderosos não respeitam direitos LGBTQIAPN+ para invadi-los ou prejudicá-los de outras formas, e como, em troca, países menos poderosos acabam por perceber direitos LGBTQIAPN+ como uma ameaça. Elu usa Palestina e Burkina Faso como exemplos destes posicionamentos.

+ Também em 2025, mas no dia 30 de junho, Jorge H. Mendoza publicou O que é pinkwashing? no site da LIT-QI (Liga Internacional Dos Trabalhadores – Quarta Internacional), o qual explica na língua portuguesa o conceito de pinkwashing. Ele também usa a ocupação da Palestina pelo estado israelense como exemplo, mas foca mais no pinkwashing feito por empresas.


Finalmente, também gostaria de destacar o projeto cultura enebê, que (re)publica coisas relacionadas com não-binaridade na língua portuguesa, e o Observatório Queer Global, comunidade de WhatsApp onde pessoas podem trocar notícias sobre a comunidade.

Nova pesquisa sobre linguagem pessoal!  0

nuvem cinza com degradê arco-íris em diagonal no meio. Várias sílabas estão espalhadas pela imagem, como zi, li, ó, y, ae, lu, xi, é, e, ol, am, ni e i.

Qósmiques está abrindo uma nova página para pesquisas, e, com ela, uma pesquisa sobre linguagem pessoal.

É possível ler sobre a pesquisa e tirar possíveis dúvidas na própria página, mas adianto aqui os objetivos:

  1. Coletar dados sobre a diversidade de preferências pessoais acerca de elementos de tratamento;
  2. Estimar que tipo de elemento é mais frequentemente usado como base para elementos vistos como secundários, como pronomes demonstrativos ou contrações compostas por artigos, ou determinar se tal correlação é coerente;
  3. Coletar dados acerca de populações que não se veem como não-binárias, mas que não usam somente os tratamentos esperados para suas identidades de gênero, caso possível;
  4. Conferir se é possível haver relação entre identidades não-binárias específicas e determinados tratamentos;
  5. Coletar dados acerca de formatos de tratamento preferidos e dos motivos por tais modelos serem adotados ou deixar de ser adotados;
  6. Mostrar, por meio das opções da pesquisa, como o campo da linguagem pessoal é amplo e deve ser pensado para além do pronome.

A pesquisa é aberta a todes es falantes da língua portuguesa, independentemente da localização, da modalidade de gênero ou da identidade de gênero. Ela deve ficar aberta até o final de março!

Participe de um encontro virtual para usuáries de neolinguagem no dia 05/10/25!  2

nuvem cinza com degradê arco-íris em diagonal no meio. Várias sílabas estão espalhadas pela imagem, como zi, li, ó, y, ae, lu, xi, é, e, ol, am, ni e i.

Embora existam vários grupos focados em não-binaridade, transgeneridade ou ser LGBTQIAPN+, há poucos grupos dedicados a usuáries de neolinguagem, a ponto de posições antineolinguagem acontecerem até mesmo dentro de espaços LGBTQIAPN+, trans ou não-binários. Este encontro pretende reunir pessoas que buscam ter os elementos neolinguísticos em suas linguagens pessoais afirmados, e ser um local menos hostil ou ignorante com usuáries de neolinguagem do que outros espaços tendem a ser.

 

Informações sobre hora, local e cadastro

 

Informações sobre o público-alvo

Este encontro é focado em usuáries de neolinguagem, no sentido de serem pessoas que podem ou devem ser tratadas com elementos neolinguísticos. Porém, entendo que esta descrição em si pode ser ambígua, ou ser insuficiente para certas pessoas. Por conta disso, aqui estão alguns exemplos de pessoas que são bem vindas (usando o modelo artigo/pronome/final de palavra):

  • Pessoas que preferem somente o uso de neolinguagem para que se refiram a elas (em relação a marcações de gênero gramatical), com apenas -/-/- sendo uma opção para que neolinguagem não seja utilizada. Por exemplo, uma pessoa que só diz usar ê/elu/e, ou outra pessoa que só pede ser tratada por i/éli/i ou le/ile/e;
  • Pessoas que possuem preferências parciais pelo uso de neolinguagem, mas que também usam outros conjuntos. Por exemplo, uma pessoa que usa tanto -/ilu/e quanto o/ele/o, ou outra pessoa que usa quaisquer conjuntos além de o/ele/o mas que prefere i/ila/i;
  • Pessoas cujos conjuntos contém tanto elementos neolinguísticos quanto elementos existentes na língua padrão. Por exemplo, uma pessoa que usa só e/ele/e, ou outra pessoa que usa tanto a/ila/a quanto -/-/a;
  • Pessoas sem preferência por um ou mais elementos em seus conjuntos, mas que aceitam ser tratadas com o uso de neolinguagem dentro de tal falta de preferência. Por exemplo, alguém que usa qualquer linguagem e que não se importa em ser tratada por -/ily/y ou ê/elu/e ou quaisquer outros conjuntos, ou outra pessoa que pede para que os pronomes e finais de palavra sejam trocados mas para que artigos não sejam usados (-/[r.]/[r.]) e que não se importa com pronomes como ulae, ilã ou elé ou com palavras como pintoroa, alune ou bonitel sendo utilizadas para si;
  • Pessoas que geralmente não exigem tratamento com neolinguagem, mas que estão questionando o próprio tratamento e que, por conta de tal processo de descoberta, querem testar um ou mais conjuntos que contém neolinguagem para se referir a si.

Não há a obrigação de ser não-binárie ou trans para participar; também aceitamos pessoas não-conformistas de linguagem de quaisquer identidades ou modalidades de gênero, desde que priorizem ou aceitem tratamentos com neolinguagem.

Porém, eu peço para que haja ao menos a compreensão do modelo artigo/pronome/final de palavra, o qual é importante não só para aquelus que usam conjuntos não considerados “óbvios” mas também para ser possível a discussão de elementos neolinguísticos. Ninguém será obrigade a demonstrar seu conjunto apenas com tais elementos, e é entendível alguém preferir só escrever “qualquer” ao invés de “[q.]/[q.]/[q.]” ao lado do próprio nome, mas é importante entender que alguém dizendo que usa a/elu/e não está demonstrando que usa os pronomes alu, elu, ale e ele, e sim que elu quer ser tratade com artigo a, pronome elu e final de palavra e.

Para quem não tem prática com tal modelo, é possível treiná-lo em Teste um conjunto (que testa um conjunto específico de cada vez) e Teste sobre conjuntos de linguagem (que testa a compreensão acerca de vários conjuntos). O texto Uma postagem sobre conjuntos e neolinguagem inspirada por respostas erradas também pode ser uma leitura útil por apontar erros comuns, como a troca de artigo por final de palavra, flexões em palavras que não flexionam e a fixação em tentar memorizar um “gênero linguístico que concorda com pronome tal” e tentar aplicá-lo a todes es usuáries daquele pronome.

 

Haverão pautas ou atividades?

A ideia é que seja um espaço de socialização onde usuáries de neolinguagem possam se conhecer e trocar contatos e experiências. Dito isso, para haver algum foco, no início serão definidas pautas para a conversa, com cada pessoa podendo contribuir onde quiser (tanto em relação aos assuntos quanto em relação a falar sobre tais assuntos). Os assuntos podem ser tanto representação da neolinguagem na mídia quanto como é usar neolinguagem no trabalho, ou mesmo questões menos relacionadas com neolinguagem, como quais jogos cada pessoa jogou recentemente. Vai depender muito do que cada pessoa quiser levantar!

No entanto, já aviso que quero levantar as pautas da negatividade acerca da neolinguagem e da falta de prática com neolinguagem até mesmo dentro de espaços não-binários. É provável que ao menos relatos de cissexismo, exorsexismo e outras formas de queermisia sejam levantados, e, assim como qualquer outro evento aberto a diversas falas, não há como fornecer avisos de conteúdo com antecedência.

 

Ajude a divulgar!

Uma retrospectiva de 2014  0

O número 2014, em branco, formado pela silhueta de dezenas de bandeiras de orgulho em diferentes ângulos e tamanhos.

Aqui no Orientando, as páginas para cada identidade são, em geral, separadas: cada uma vai relatar a história de uma única identidade, e poucas mencionam detalhes sobre o contexto onde cada identidade surgiu para além de alguém específique apresentando um termo e definindo-o com suas palavras.

Porém, identidades LGBTQIAPN+ não surgem espontaneamente: cada uma é construída com base em concepções já existentes. Um termo como neuorientade, por exemplo, não pode existir sem o conceito de inexistência de gênero, que como parte de uma identidade precisa ser uma oposição a existência de gêneros, mesmo em uma sociedade onde só se conhecem os gêneros homem e mulher.

Estes são exemplos mais óbvios. Nesta postagem, porém, eu não tenho como dizer com certeza o quanto dos desenvolvimentos elaborados aqui são espontâneos ou partem de contextos diferentes, e o quanto se devem a interações entre as mesmas comunidades. Eu conheço parte da história por ter participado de grupos com pessoas que fizeram parte delas, ou por ler blogs onde partes dessas histórias ocorreram, mas não consigo conectar todas as pessoas que cunharam termos importantes em 2014 entre si de forma concreta. Mesmo assim, houveram e haverão pessoas colocando todas essas figuras relevantes de 2014 como parte de um mesmo movimento. Esta postagem é sobre isso.

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Seja queer, faça um site  1

Um conjunto de 6 giz pastel coloridos em uma superfície difícil de ver, mas bastante manchada com várias cores diferentes.

[fonte da foto]


Eu poderia falar que todas as grandes empresas por trás de redes sociais são culpadas por ou coniventes com atrocidades – como o genocídio em Myanmar, ameaças de bombas em escolas e trabalhadóries urinando em garrafas por medo de perderem emprego se tiverem que ir até o banheiro. Poderia também falar do que essas empresas fazem com sues usuáries, como usar dados de usuáries para treinar algoritmos de “inteligência artificial”, censura de postagens que chamam a atenção para sistemas opressivos e exposição de pessoas a desinformação e ódio.

A onda atual é enfiar “inteligência artificial” generativa em tudo, o que também é uma questão bastante problemática. Este texto fala sobre questões de ética e imprecisão nos resultados de pesquisas de Google, este é sobre como os bancos de dados usados por esse tipo de algoritmo foram construídos via exploração e este é sobre os grandes impactos ambientais que a tecnologia demanda.

Mas entendo que a maioria das pessoas não se importa com nada disso. Vão dar de ombros e reclamar que as alternativas mais éticas simplesmente não têm gente suficiente para serem interessantes a elas, ou que gostam dos algoritmos de curadoria que não exigem o esforço de pesquisar por assuntos que interessam ou de perguntar ativamente por recomendações.

E, por isso, não vou argumentar sobre largar redes mais populares, e sim sobre considerar abrir lugar em sua vida para espaços alternativos.

 

O ciclo de informações perdidas

Redes sociais que funcionam com base em linhas do tempo – ou qualquer coisa parecida que priorize conteúdo atual – dificulta o acesso a coisas que cada pessoa pode considerar informações básicas. Isso prejudica tanto pessoas que não sabem muito sobre certo assunto e que podem nunca entrar em contato com tais informações quanto pessoas que podem querer repassar tais informações a outres.

Sites de pesquisa também são cada vez mais inúteis. Alguns começaram a mostrar logo de cara respostas geradas automaticamente que não requerem entrar em alguma página para conferir seus contextos, e mesmo lugares que não fazem isso automaticamente, como Ecosia e DuckDuckGo, acabam priorizando sites que consideram mais consagrados (sites de notícias, wikis, sites comerciais) acima de lugares onde informações são construídas e circuladas com mais frequência (blogs, redes sociais).

Acredito que a necessidade de postar todo ano “o que significa LGBTQIAPN+“, “qual a diferença entre bi e pan“, “o que é não-binárie” e outras coisas provavelmente batidas pra grande maioria das pessoas lendo este texto – mas quase sempre perguntadas quando estamos interagindo com estranhes – acaba sendo por um hábito de querer chegar em pessoas novas no assunto que só engajariam nele por estar sendo esfregado na cara. Tal hábito também tem a ver com a ideia abstrata de “informação acessível”: provavelmente algo assim vai ser mais popular a curto prazo do que um assunto como “pronome/d[pronome] é uma maneira redundante de expressar linguagem pessoal“, “existem sim orientações específicas para pessoas não-binárias” ou “o que faz com que uma identidade de gênero esteja dentro do guarda-chuva xenogênero“.

Redes sociais que colocam limites estritos nos formatos e números de caracteres também contribuem para que assuntos não sejam aprofundados, além de acostumarem pessoas com a ideia de que extrapolar tais limites justifica ignorar o que essas pessoas têm a dizer (a questão do “textão”). Vivemos num mundo complexo e cheio de nuances, mas frases prontas com opiniões extremas conseguem sempre receber mais atenção.

Afinal, o que é mais fácil repetir ou opinar sobre: “toda pessoa não-binária é trans” ou “pessoas não-binárias são cisdissidentes e suas pautas estão entrelaçadas com as da população trans, mas há motivos válidos para pessoas não-binárias nem sempre se entenderem dentro deste termo“? Ainda mais se a pessoa tiver que explicar o que é ultergênero, isogênero ou afins para que o argumento seja melhor contextualizado e entendido.

Daí as discussões ficam estagnadas. Não há o hábito – ou, dependendo da rede social, a própria possibilidade – de colocar links em textos para que pessoas saibam qual é a base da discussão, então há sempre a necessidade de se repetir quando se vai referenciar algum conceito que não for considerado comum. A maioria também não quer ter o trabalho de organizar coisas fora das redes sociais às quais se apegam, preferindo uma sequência de postagens referenciando outras sequências ou uma coleção de stories (isso quando há alguma organização) a sistemas disponíveis para quem não quer ter contas em tais sites ou em formatos mais preparados para lidar com informações pertinentes.

Sempre há gente não informada, e portanto sempre há gente que precisa de informações básicas, e portanto há uma ausência de discussões aprofundadas, a qual também contribui para que menos gente lembre das informações básicas. Discussões mais profundas acabam tendo alcance limitado, porque lugares favoráveis a tais discussões são menos frequentados e mais difíceis de pesquisar. Já postagens feitas em perfis pessoais ordenados de forma cronológica sem oferecer muitas alternativas se perdem facilmente.

 

A falácia da falta de alcance

“Todo mundo está no Instagram.” Só que as poucas vezes que visito o site não são o suficiente para acompanhar tudo o que todas as contas que sigo postam. Só que conheço outras pessoas que não usam muito ou nada dessa rede social, só entrando no máximo quando alguém manda um link ou uma mensagem.

Só que praticamente toda pessoa que sei que tentou produzir conteúdo frequente para a rede demonstrou decepção com a pouca repercussão de suas postagens e com a superficialidade do entendimento dos assuntos que tratavam no site. Há relatos frequentes de pessoas que recebem grandes números de “curtidas” em suas publicações, mas que posteriormente presenciam as mesmas pessoas que “curtiram” interagindo da mesma forma com publicações defendendo opiniões opostas, ou fazendo perguntas que demonstram uma falta total de compreensão de informações que foram repetidas várias vezes.

Espaços chamados de alternativos na internet se tratam de colocar qualidade acima de quantidade. Quem está em fóruns quer falar com outres entusiastas de certo assunto, mesmo que isso signifique que haja menos gente com quem interagir e compactuar com regras mais rígidas. Quem está em redes sociais mantidas por entusiastas está procurando gente com valores parecidos em ambientes mais saudáveis, mesmo que suas postagens não tenham chance de “viralizar”. Quem tem blogs ou sites pessoais muitas vezes não tem métricas boas acerca de quantas pessoas diferentes estão lendo ou ouvindo suas palavras.

Mas a questão é que, na minha experiência, com poucas exceções, o que faz com que alguém preste atenção em qualquer assunto é uma conexão pessoal. E essa conexão pode acontecer com conteúdo online aleatório achado por alguém, mas isso vai ser sempre muito mais raro do que quando relações ativas são formadas com grupos e pessoas.

A maioria das pessoas que absorveu a questão de artigo/pronome/final de palavra ser importante fez isso por conta da repetição, de ter mais de uma pessoa falando sobre isso no mesmo lugar, de estar um espaço comunitário obrigando todes a aprenderem esse sistema ou da minha insistência em ensinar como ele funciona em conversas presenciais. Eu posso ter distribuído centenas de livretos sobre linguagem pessoal e ter falado sobre o sistema em diversos lugares e formatos, mas gente que tem 99% de contato com quem usa indicações como “elu/delu” e “pronomes neutros” ainda vai cair nisso se o único contato com a/p/f for como uma curiosidade abstrata ao invés de pessoas com conjuntos incomuns lutando pra que um sistema mais inclusivo seja popularizado.

Esse é um exemplo, e ele pode parecer “de nicho”, mas a realidade é que qualquer questão não tão presente na vida de alguém vai parecer “de nicho” se não houver investimento pessoal. Existem trocentos espaços que consideram quaisquer questões de marginalização como “políticas demais para espaços de lazer” porque as pessoas marginalizadas à sua volta não falam disso, por mais que em certos espaços para pessoas marginalizadas qualquer pessoa seria ridicularizada ao levantar a ideia de que chamar a atenção para racismo ou misoginia seja irrelevante só porque o assunto não é esse.

Mesmo que o que você faça não tenha a ver com ativismo, a questão é que a maioria das pessoas não se importa em absorver informações, e que quem realmente se importa vai ir atrás do que você faz mesmo que não esteja nas redes sociais que geralmente usa. Redes sociais populares podem ser úteis pra espalhar a mensagem de que o que você faz existe, mas se limitar aos seus formatos de organização e postagens não vai te beneficiar tanto assim.

 

Primeiro passo

Considere qual o formato mais adequado para disponibilizar as informações:

  • Um blog geralmente já vai vir com sistemas de comentários e de tags embutidos, além de possibilitar a criação de páginas estáticas para ajudar a apontar pessoas para os locais onde elas se interessam. Porém, estes são mais voltados para uma lógica de “linha do tempo”, a qual destaca publicações mais recentes.
  • Um site estático geralmente permite uma liberdade maior em relação a como o conteúdo publicado será exposto, embora isso exija mais de seu tempo e de sua imaginação (mesmo que você vá usar um serviço que não necessite aprender a usar HTML). Se você só quer listar algumas informações, ou quiser experimentar mais com formatos diferentes para cada publicação, provavelmente um site estático será um formato mais adequado do que um blog.
  • Uma wiki é uma enciclopédia online que facilita contribuições coletivas e categorização de publicações. Se a ideia é disponibilizar informações mas também permitir que outres contribuam, este formato pode ser interessante.
  • Um fórum é uma espécie de comunidade independente, geralmente direcionada a um assunto central. Mesmo fóruns sem assunto específico tendem a ter identidades próprias em relação ao tom permitido dentro deles, geralmente indicado pelas regras e/ou pelo comportamento de outres usuáries. Fóruns são úteis para requisitar opiniões e conversar, e, embora às vezes sejam usados como blogs (para postar informações organizadas com as mais recentes no topo de forma que permite comentários), não é um formato que recomendo caso o objetivo seja disponibilizar informações, a não ser que a ideia seja ter só o trabalho de moderação e abrir para que todes contribuam da forma que quiserem.

É possível ter um domínio que disponibilize mais de um tipo de formato: aqui no Orientando, o menu oferece uma série de páginas estáticas, e as listas nunca são categorizadas simplesmente por qual página foi feita mais recentemente, mas há também este blog, que embora tenha tags vá sempre priorizar publicações mais recentes. A parte estática é mais adequada para passar informações que não vão ser mais ou menos relevantes dependendo da época visitada de forma organizada, enquanto o blog possui publicações que fazem mais sentido de acordo com contextos específicos, ou que são opiniões ou compilações consideradas menos essenciais para o foco do site.

O blog também permite comentários diretamente após cada publicação, enquanto comentários ou correções direcionadas às páginas estáticas devem ser feitas em nosso fórum. Que é por si só um formato diferente que visivelmente usa um software separado para seu funcionamento.

Enquanto isso, Blogue Alternative, cuja manutenção é feita por ume amigue minhe, tem majoritariamente publicações de opinião, muitas das quais são feitas em resposta a discussões do momento, mas também tem um menu oferecendo algumas páginas estáticas com informações que podem ir sendo atualizadas quando isso for adequado.

Existem opções envolvendo mais ou menos complexidade dentro de cada um dos formatos citados:

  • Dreamwidth, WordPress.com e instâncias de WriteFreely são exemplos de lugares onde é possível criar blogs;
  • Ghost, Hugo, Jekyll e WordPress.org são exemplos de softwares de blogs/sites que podem ser instalados num servidor próprio;
  • ichi, Nekoweb, Neocities e yay.boo permitem que usuáries criem páginas com base em seus próprios arquivos HTML/CSS/etc. Já Carrd, mmm.page e Straw.Page têm a proposta de fornecer os próprios blocos para construção de sites de forma que necessita menos conhecimento sobre como funciona a publicação de páginas;
  • Miraheze e Wikidot são lugares que permitem a criação de wikis;
  • dokuwiki e MediaWiki são softwares de publicação de wikis que podem ser instalados num servidor próprio;
  • Forumeiros e ProBoards são exemplos de lugares onde é possível criar fóruns;
  • Flarum e MyBB são exemplos de softwares de fóruns que podem ser instalados em um servidor próprio.

Para quem não sabe, quando eu digo um servidor próprio, estou me referindo a uma máquina que terá sempre que estar ligada para que o site fique acessível. É possível usar um computador na própria casa, mas é mais comum a utilização de serviços oferecidos por empresas ou outras entidades, como leprd.space, NearlyFreeSpeech.Net ou TinyKVM. Esta é uma opção mais avançada que eu não recomendo para quem não sabe o que está fazendo, mas há sempre a possibilidade de aprender a usar servidores se houver vontade de ir atrás do conhecimento.

Ao se registrar em um site como Dreamwidth, Miraheze, Neocities ou Straw.Page, ainda há servidores envolvidos: é só que sues usuáries têm menos controle sobre eles. Isso tem suas próprias vantagens e desvantagens.

Após fazer uma conta e/ou instalar programas na máquina, é possível testar se suas ideias funcionam naquele formato. Por exemplo, talvez o site gratuito que não requisite mexer com código acabe não possibilitando o layout desejado para a página, ou talvez o servidor barato não tenha memória suficiente para a intenção original do projeto. Pode ser importante testar os limites de cada formato antes de insistir em algum.

 

POSSE

Publish (on your) Own Site, Syndicate Elsewhere (publique em seu próprio site, transmita no resto dos lugares) é um princípio que defende manter conexões em quaisquer redes sociais que a pessoa quiser, mas de forma que indique um link para a página original a qual (a princípio) a pessoa tem mais controle sobre. Assim, outras pessoas recebem a notícia de publicações novas nos aplicativos/sites que frequentam, mas de forma que (idealmente) a pessoa não precisa repostar versões diferentes da mesma coisa em lugares diferentes.

Por exemplo: Ariel tem seu próprio site em ariel.example. Quando Ariel publica a página ariel.example/texto.html, elu pode espalhar a informação sobre essa publicação em grupos de WhatsApp, no Tumblr, no Reddit, em colorid.es e no BlueSky, sem ter que se preocupar com reescrever o texto de forma diferente para cada lugar, com fornecer um link que vai pedir para que ume visitante crie uma conta para ler ou com seu texto ser perdido por Ariel ter sido banide de uma plataforma social por motivos alheios à publicação.

RSS também é uma ferramenta útil para acompanhar blogs alheios e agregá-los de forma compatível com diversas plataformas diferentes. Nem sempre faz sentido acompanhar as atualizações de um site via RSS, mas é uma ferramenta bem importante para o formato de blog. Um texto explicando mais sobre RSS e como usar está disponível aqui.

 

Mas afinal, o que há de tão queer nisso?

Alguns princípios comuns em comunidades queer são:

  • Expressão pessoal independente das estruturas impostas como corretas pela sociedade hegemônica;
  • Questionamentos sobre o quanto do que é empurrado como comportamento “correto”, “importante” ou “natural” é realmente relevante para nossas vidas;
  • Desconfiança em relação às grandes empresas, que têm mais interesse em nos explorar do que em nos acolher;
  • Construção e manutenção de comunidades e meios de comunicação alternatives a espaços construídos e dominados por pessoas mais privilegiadas.

Quanto mais alguém se aventura a construir o próprio layout, codificar o próprio site, manter serviços personalizados em um servidor próprio e afins, mais a pessoa pode exercer independência sobre sua própria página. Em um mundo onde perfis de redes sociais estão cada vez mais padronizados, até algumas plataformas de blogs e sites gratuitos conseguem oferecer possibilidades mais diversas de identidade visual.

Quanto menos alguém depende de alguma rede social específica funcionando para socializar ou conseguir visualizações para seu trabalho, mais é possível questionar o quanto é importante alguém ter que frequentar tal rede social. E se há menos publicações, ou publicações mais vagas que apontam para links próprios, há menos material para ser usado livremente e facilmente por grandes empresas.

Fóruns e wikis moderades por pessoas queer permitem colaborações alheias em ambientes que não deixam espaço para discursos de ódio, fortalecendo também a saúde mental des interessades. Também tendem a ser ambientes que estimulam discussões com mais nuance do que simplesmente expressar concordância ou discordância do que alguém disse.

Promover sites próprios e comunidades alternativas também se alinha com o que o próprio Orientando faz: mostrar que não existe um limite absurdamente pequeno para as formas de existência que alguém pode expressar, o qual é baseado em popularidade e só pode aumentar com base no que publicações mais formais reconhecem.

 

Recursos e exemplos

Aqui vão uns exemplos de projetos na língua portuguesa que foram requisitados por mim:

Também posso apresentar como exemplos de independência das redes sociais comerciais este próprio site (orientando.org), nosso fórum e meu blog pessoal, assim como outras coisas linkadas no meu site pessoal.

Os resultados da Feira da Diversidade 2024  1

Um céu majoritariamente nublado sob o qual estão três tendas (há mais no fundo), com algumas pessoas: na da esquerda, há uma bandeira intersexo pendurada e um banner escrito "Orgulhe-se do Museu da Diversidade Sexual", além de um tapete e de algumas cadeiras e pranchões. Na do meio, há dois pranchões, sendo que o da esquerda tem uma toalha de mesa e uma bandeira arco-íris. Acima deste, há uma bandeira da Câmara de Comércio e Turismo LGBT, e no fundo há uma bandeira do Brasil e uma bandeira arco-íris, com outra bandeira arco-íris estando pendurada na frente. À direita disso, ainda na tenda central, na direção que uma seta roxa adicionada no Paint está apontando, há um banner do Orientando e nosso pranchão, cheio de panfletos, com dois displays A4 e com duas caixas com canetinhas disponíveis. Na tenda da direita, há uma mesa cheia de coisas, e alguém está prestes a pendurar um banner, o qual não está virado para a câmera.

Para quem não sabia, Orientando.org foi escolhido como um dos coletivos chamados para compor a Feira Cultural da Diversidade LGBT+, no Memorial da América Latina em São Paulo. Por termos entrado como coletivo, não pudemos comercializar qualquer produto: tudo o que oferecemos foram informações, panfletos informativos e adesivos de conjuntos de linguagem.

Infelizmente, nossa posição estava entre as mais desprivilegiadas. Colocaram um palco à nossa frente, o qual teve música altíssima pela maior parte do evento; também estávamos próximes à entrada restrita a idoses e pessoas com deficiência, mas estávamos nas últimas tendas do ponto de vista da entrada pela qual a grande maioria iria chegar.

É muito difícil dizer quantas pessoas que pegaram nossos panfletos foram atrás de mais informações no site. Não houveram novos registros no nosso fórum desde antes da feira, e houve um pico de atividade no site que começou na segunda (dia 27), enquanto o dia após a feira (sexta, dia 31) foi onde houveram menos visitas nos últimos dias. Além disso, como estamos no mês do orgulho, também é comum que pessoas achem o Orientando enquanto estão tentando pesquisar assuntos do site por conta própria, como o que significa a sigla LGBTQIAPN+ (nossa página mais acessada desde que a sigla popularizou) ou quais identidades não-binárias existem.

Captura de tela de um gráfico do plugin Burst, mostrando um período de 5 de maio até 3 de junho. As estatísticas de visualizações (pageviews), sessões (sessions), visitas (visitors) e pulos (bounces) são relativamente proporcionais nessa ordem, sendo que parecem ter havido menos pulos proporcionalmente a outras estatísticas no dia 17 de maio e muito mais visualizações proporcionalmente a outras estatísticas dos dias 27 a 29 de maio. As visualizações em geral ficaram abaixo de 1000, ficando um pouco abaixo de 1200 no dia 17 de maio, acima de 3000 no dia 27 de maio, acima de 1500 nos dias 28 e 29, um pouco acima de 1000 no dia 30 e acima de 1200 nos dias 31 de maio e 01 de junho.

Estatísticas do último mês que contam todas as páginas em orientando.org

Outra captura de tela, desta vez só dos últimos dias. O número de visualizações de 28 de maio está acima de 1800, 29 de maio está acima de 1600, 30 de maio e 01 de junho estão por volta de 1200, 31 de maio está um pouco acima de 1000 e 02 de junho está quase em 1500. Os outros dados possuem curvas similares, mas menos drásticas, com pulos ficando em volta dos 400, visitantes ficando em volta dos 600 e sessões ficando em volta dos 800. Pulos e sessões são os únicos números que ficaram mais altos no dia 02 de junho em comparação a 29 de maio.

Estatísticas da última semana que contam todas as páginas em orientando.org

Enfim, conseguimos entregar:

  • 98 exemplares de Tudo, ou pelo menos muita coisa, sobre linguagem pessoal (texto original aqui);
  • 97 exemplares do nosso panfleto sobre espectro assexual e arromântico (listado aqui);
  • 94 exemplares do nosso panfleto sobre orientações (também disponível na nossa seção de orientações de materiais para imprimir);
  • 94 exemplares de O que é intersexo? (listado aqui);
  • Mais de 90 exemplares de um panfleto que combinou Qual é a sua linguagem? com o Guia rápido para o uso de conjuntos no estilo artigo/pronome/flexão (listados na seção de linguagem. A falta de números exatos é devido a algumas folhas terem que ter sido descartadas devido a erros de impressão);
  • 86 exemplares de Sobre atração por mais de um gênero (outro da seção de orientações);
  • Pelo menos 86 adesivos de conjuntos de linguagem (não temos dados sobre alguns porque algumas pessoas pediram para recortar folhas e levar adesivos para casa). Temos dados concretos sobre os seguintes adesivos terem sido pegos:
    • 39 apenas com o conjunto o/ele/o;
    • 29 apenas com o conjunto a/ela/a;
    • 7 com a informação de que qualquer artigo/pronome/flexão podem ser utilizades;
    • 4 apenas com o conjunto ê/elu/e;
    • 2 com [espaço para preencher artigo]/elu/e e a/ela/a;
    • 2 com [espaço para preencher artigo]/elu/e e o/ele/o;
    • 1 com os conjuntos ê/elu/e e o/ele/o;
    • 1 com os conjuntos a/ela/a e o/ele/o;
    • 1 com os conjuntos o/ele/o e a/ela/a (mesma coisa, só a ordem que inverte);
    • 1 com espaço personalizável para um conjunto organizado em artigo/pronome/flexão e mais o conjunto [espaço para preencher artigo]/elu/e;
    • 1 com o/ele/o e espaço personalizável para outro conjunto organizado em artigo/pronome/flexão;
    • 1 com um conjunto envolvendo o pronome ela e espaços personalizáveis para artigo e flexão;
    • 1 com um conjunto envolvendo o pronome éli e espaços personalizáveis para artigo e flexão;
    • 1 com um conjunto envolvendo a flexão o e espaços personalizáveis para artigo e pronome;
    • 1 com um conjunto envolvendo a flexão a e espaços personalizáveis para artigo e pronome;
    • 1 com a informação de que qualquer artigo/pronome/flexão podem ser usades, mas com mais de uma exceção (as quais a pessoa pode preencher no adesivo).

Também haviam opções envolvendo conjuntos rotativos, conjuntos quaisquer desde que estejam dentro da neolinguagem, o uso de nenhume artigo/pronome/flexão (-/-/-), diversas opções envolvendo neopronomes diferentes (elo, ile, elae, el e ila, para citar alguns) e muitos adesivos que permitiam o preenchimento de qualquer conjunto ou de quaisquer dois conjuntos, então as escolhas acima não foram feitas por falta de opção.

Para finalizar o relato, quero dizer que ainda é cedo para saber se vamos tentar novamente no ano que vem. O problema de distribuir panfletos é que muitas vezes dá a impressão de que nada adiantou, de que as pessoas podem ter lido e achado as informações vagamente interessantes mas ainda vão nas redes sociais perguntar qual a diferença de bi e pan ou usar conjuntos no formato “elu/delu”. É possível que tenhamos mudado vidas, mas também é possível que a gente tenha perdido tempo e dinheiro com um esforço inútil.

Pessoalmente, eu não gosto de jogar a toalha. Um esforço de visibilidade pode ser provado inútil, mas desistir de ir em eventos físicos também não vai ajudar a disseminar informações ou ideias. Sendo alguém não-binárie que deve ser referide apenas usando conjuntos de linguagem que não possuem a aprovação dos grandes nomes da “linguagem neutra” brasileiros, eu não tenho a opção de descansar e esperar que algum dia as pessoas vão parar de insistir em me maldenominar (ou indicar que gostariam de fazer isso sem serem pintadas como exorsexistas): o sistema artigo/pronome/final de palavra foi publicado aqui já faz mais de 8 anos, mas já percebi que a maioria das pessoas só vai tentar se esforçar em ser inclusiva quando tem alguém dando motivo pra isso. Também tem as outras questões LGBTQIAPN+ que afetam a mim e a outres, como visibilidade a-espectral, múlti, não-binária e xenogênero.

Ficar batendo na mesma tecla é horrível, mas é isso o que tem pra hoje. Ao menos é possível que a próxima geração tenha que bater menos teclas pra conseguir ser respeitada das mesmas formas.

Que tal usar artigo/pronome/final de palavra para descrever conjuntos de linguagem?  3

Versão em áudio (não inclui os links do final da postagem)


ze/eld/e | ze é artigo: vi ze Aster ontem. | elz é pronome: elz estava no mercado. | e é flexão/terminação: elz é ume escritore?

o sistema a/p/f é prático • apenas 3 elementos definem quase tudo • a/ela/a ocupa menos caracteres do que ela/dela

o sistema a/p/f é inclusivo • quem usa o pronome éli é linde ou lindi? É possível que cada pessoa escolha! • quer usar le/elu/u, e/ele/e, -/ela/a, mi/iau/i? Você pode!

o sistema a/p/f foi pensado para a língua portuguesa • linguagem pessoal vai além de pronomes • contrações como dile e nelu não precisam ser apontadas separadamenteque tal se informar? • visite asters.work/apf.html para saber mais • ajude a normalizar a/p/f usando este formato em sues perfis e introduções

Ei, você ainda usa pronome/d + pronome como forma de expressar linguagem? Que tal especificar suas preferências em um nível um pouco maior?

Além desta vantagem, você ajuda pessoas com conjuntos de linguagem menos óbvios, nos ajudando com o trabalho de repassar essas informações.

Esse é o tipo de informação que pode virar “senso comum” – assim como a ideia do final de palavra e ser adequado como genérico – desde que não seja descartada.

Esse é o tipo de esforço que vai ficar cada vez menor desde que dê pra contar com o apoio da comunidade.

Links com mais informações: Use a/p/f | Links sobre neolinguagem, conjuntos de linguagem e linguagem genérica

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Presumir gênero é inerentemente antitrans?  0

Presumir gênero é inerentemente antitrans?

Aviso de conteúdo: Esta é uma postagem sobre presunção de gênero. Ela é contra a presunção de identidades de gênero, mas como o público-alvo são pessoas que se acham justificadas em presumir gênero, ela menciona exemplos que podem machucar quem lida com disforia de gênero ou com questões similares.

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