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Duplo vínculo aplicado a identidades não-binárias  0

Duplo vínculo – muitas vezes conhecido como catch-22 (ardil-22) – é uma expressão que se refere a situações nas quais não existem boas alternativas para quem está envolvide. Neste texto, me refiro ao que acontece com pessoas não-binárias por minha própria experiência, mas vários destes itens também se referem a experiências de pessoas trans em geral.

Em um duplo vínculo, existem duas proposições. Uma pessoa que passa em uma inevitavelmente falha na outra, porém. É um dos jeitos que nossa sociedade cissexista e exorsexista desencoraja pessoas a experimentarem e se identificarem com identidades não-cis. Aqui estão alguns exemplos:

Quem usa roupas de acordo com o próprio gênero acha que gênero é só sobre roupas;
Quem não usa roupas de acordo com o próprio gênero está mentindo sobre seu gênero, já que não o leva a sério o suficiente para investir em um visual correspondente.

Quem utiliza pronomes ele ou ela na verdade é um homem binário ou uma mulher binária, respectivamente;
Quem utiliza outros pronomes está dificultando as coisas desnecessariamente, e só quer ser especial, sem querer levar a própria identidade a sério.

Quem tenta agir como sua identidade de gênero está reforçando estereótipos, e deixando implícito que gêneros são apenas compostos por estereótipos;
Quem não age como um estereótipo não está oferecendo justificativas suficientes para que acreditem em sua identidade de gênero.

Quem não mostra sinais de que sempre foi do gênero que diz ser está deixando de se identificar como cis por modinha/impulso;
Quem mostra sinais de que sempre foi do gênero que diz ser está se forçando a identificar com um certo gênero apenas para encaixar comportamentos passados que na verdade possuem outras justificativas.

Quem tem identidades de gênero que possuem conotação ligada à gêneros binários, como demimulher e homem agênero, na verdade é de tais gêneros binários;
Quem tem identidades de gênero que não são ligadas a gêneros binários, como eafluide ou maverique, não entende o que é gênero de verdade, ou está só inventando moda.

Quem usa um rótulo genérico, como não-binárie, não sabe do que está falando e só diz isso por não entender de gênero;
Quem usa uma identidade mais específica, como magineutrois nanoandrógine, está querendo ser especial, ou está tentando se esforçar demais em relação a “achar caixinhas” para sua identidade de gênero.

Pessoas que querem ir atrás de hormônios, terapias e cirurgias para se sentirem mais à vontade com seu corpo na verdade são pessoas trans binárias;
Pessoas que não querem ir atrás de hormônios, terapias e cirurgias por acharem que não é necessário, ou porque acham que as opções disponíveis não são adequadas para seu gênero, não são pessoas trans de verdade, porque não querem tomar riscos com seu corpo.

Pessoas que descobrem sua identidade quando mais novas estão muito novas para saber o que estão dizendo;
Pessoas que descobrem sua identidade quando mais velhas estão mentindo, porque passaram muito tempo sem se identificar de certo modo.

Certas pessoas não-binárias são tratadas como “basicamente pessoas trans binárias”, enquanto outras são tratadas como “basicamente pessoas cis”.

É importante ressaltar que pessoas não-binárias podem ser de qualquer idade, raça, gênero designado ou neurotipo, dentre outras características. Uma pessoa pode ter seu gênero influenciado por características como ser autista, otherkin, intersexo, ou sobrevivente de trauma, porque estas experiências e percepções podem influenciar uma identidade de gênero de forma única, de modo que a identidade de gênero da pessoa não pode ser separada de suas outras identidades e experiências.

Além disso, ninguém precisa ser cis para ser GNC (gender non-conforming; alguém cuja expressão de gênero não é típica para seu gênero). Uma pessoa que é andrógine pode preferir se apresentar de forma feminina, e ume demimulher pode preferir se apresentar de forma masculina. Isso não anula os próprios gêneros destas pessoas. Ser uma pessoa com interesses e expressões mais femininas ou mais masculinas não anula o gênero com o qual uma pessoa se identifica, mesmo que este seja não-binário.

(Obviamente, ume demimulher pode considerar que seus visuais mais masculinos na verdade são a forma pela qual elu expressa seu gênero, e ume andrógine pode expressar seu gênero por meio de vestidos e maquiagem. Isso varia entre pessoas não-binárias, mesmo entre as pessoas de um mesmo gênero.)

Cada pessoa tem seus motivos para dizer ser de uma certa identidade, e não é o papel de alguém de fora, que nem tem como saber de tudo pelo que a pessoa passou, dizer que a identidade de alguém está incorreta (a não ser que seja intrinsecamente problemática, como uma pessoa dizer que é de algum gênero não pertencente à suas experiências de vida). E ninguém deve ter que justificar o quanto sua identidade de gênero é válida, tendo que contar sobre momentos privados da infância, pensamentos particulares da adolescência, e desejos para o futuro. Muito menos se ainda vai ter um julgamento para dizer que tais experiências e desejos não são o suficiente.

Se qualquer tipo de experiência não-binária é um incômodo e não parece certa, não são as pessoas não-binárias que estão erradas. Pessoas que estão seguras sobre a própria identidade com certeza possuem mais experiência do que alguém que sente insegurança em relação à existência de algo novo.

Por uma normalização da linguagem LGBTQIAP+  0

Aviso de conteúdo: Menção de violência transmisógina e de assuntos que podem evocar disforia. Intersexofobia, transfobia e ignorância em relação a identidades incomuns no geral.

Há um trabalho sério de educação a ser feito em volta da linguagem que utilizamos no dia-a-dia. Enquanto algumas pessoas – não qualquer pessoa, mas pessoas em grupos ativistas ou em universidades – já incorporam, de certa forma, a possibilidade de alguém ter um relacionamento com alguém do mesmo gênero, é bem mais raro haver a inclusão de outras identidades na linguagem do dia-a-dia.

Muites utilizam o x em redes sociais para simbolizar neutralidade, em frases como “todxs contra a violência”, mas, ao falar na vida real, utilizam “todos e todas”, como se estivessem sendo completamente inclusives por incluírem “ambos os gêneros”.

Muitas mulheres comentam que suas vidas seriam melhores se tivessem nascido com pênis, como se não houvesse uma enorme quantidade de assassinatos de mulheres trans e de outras pessoas de identidades transfemininas, por estas serem mulheres ou pessoas confundidas com mulheres que nasceram com pênis.

Muitas pessoas tratam de gravidez, de aborto e de menstruação como se fossem exclusivos de mulheres, ou deixam implícito que toda mulher conhece estas coisas, o que exclui diversas pessoas trans e intersexo.

Pessoas não-binárias não podem se apresentar e dizer seus pronomes e ter gente entendendo o que está acontecendo. E, se entendem, vão quase sempre enfrentar comentários sobre o quanto é difícil se referir a alguém com pronomes que não lhes vem à mente para a pessoa.

Pessoas de qualquer identidade mais incomum, não importa o quanto refletiram sobre serem de certa identidade, vão encontrar pessoas perguntando se possuem certeza, e se isso não é só uma vontade de querer ser especial ou de querer se encaixar, se contarem sobre sua identidade para outras pessoas.

Deveríamos ter grupos LGBTQIAP+ lutando por mais visibilidade, de formas concretas como panfletos e workshops. Isso é uma questão muito mais simples do que pautas vagas de acabar com a homofobia/transfobia, e muito mais efetiva do que declarações de repúdio ao bullying. Estas são coisas importantes também, mas não devem ser as únicas pautas que mobilizam a comunidade.