10 itens publicados em 2025 0

No ano de 2025, além de ter acompanhado termos cunhados neste ano, acumulei links para outras publicações, cumprindo minha meta estipulada em 2024 de destacar outros trabalhos produzidos pela comunidade.
A ideia é não limitar a determinado formato, com livros de ficção, músicas, podcasts e artigos científicos serem formas de publicação válidas. Porém, meu alcance pessoal é limitado, e poucas pessoas à minha volta têm o hábito de sugerir publicações num geral (muito menos que seriam relevantes pra esta lista), então admito que esta retrospectiva poderá não ser tão interessante quanto eu gostaria.
Interessades em chamar atenção para determinado trabalho, para que este possa entrar em algum tipo de retrospectiva, podem fazer divulgação dele no nosso fórum, entrar em contato comigo via fediverso (@Aster) ou mesmo comentar sobre o próprio trabalho na rede qósmiques. Embora eu acompanhe certos blogs, certos subreddits e certas contas no fediverso, YouTube e Instagram, eu não tenho como garantir que vou ter visto ou arquivado tudo o que aparece nas minhas linhas do tempo. O fórum do Orientando é uma ótima maneira de chamar atenção para uma publicação interessante, já que ele está disposto de uma forma organizada e desincentiva publicações superficiais, além da maioria de seus subfóruns estarem disponíveis em resultados de sites e aplicativos de busca.
Pensando Fora do Binário – até no mundo árabe / Thinking Outside The Binary – even in the Arab world / التفكير خارج الإطار الثنائي
O primeiro texto a ser destacado, em ordem cronológica, foi publicado no dia 15 de janeiro por auxiliaryfrfr em pronouns.page, e é sobre a importância de não se silenciar e promover a neolinguagem mesmo em uma língua sem gêneros gramaticais não associados ao binário de gênero.
A tradução na língua portuguesa foi feita e publicada por mim no subreddit r/neolinguagem, com base na versão de língua inglesa do texto. Quem quiser ler tal tradução sem visitar o Reddit pode ler uma versão arquivada aqui.
+ Para quem se interessa na pauta da liberdade de tratamento e quer se aprofundar mais, também publiquei o texto Por um movimento explicitamente pró-neolinguagem neste ano, o qual conceitualiza diferentes formas de discriminação contra estar fora das normas de linguagem e aponta o quanto a pauta não pode depender de movimentos cisdissidentes, trans ou não-binários para ser defendida ou ensinada.
How to Make Your Own Binder that Fits Well and Looks Good
Também no dia 15 de janeiro, kiwisoap no Tumblr publicou um guia passo-a-passo de como fazer um binder no estilo dos da loja gc2b. Eu já costurei meu próprio binder no estilo dos da loja Shapeshifters, mas tive bastante dificuldade de achar o tecido certo para a malha de trama aberta, que precisa ser elástico mas relativamente firme; enquanto isso, o estilo deste molde permite a confecção apenas com tecidos mais comuns (entretelas, algo firme como sarja ou algodão para camisas e tecido para legging). Meus binders da gc2b também usam tecidos mais finos do que os da Shapeshifters, então binders feitos com o molde da publicação podem até ser uma opção melhor para climas mais quentes.
Até o momento da escrita, não testei o guia, mas ele parece ser razoável. Pessoalmente, eu usaria algum ponto próprio para tecidos elásticos (os que geralmente aparecem pontilhados na máquina de costura) ao invés de um ponto zigue-zague comum, mas acredito que este possa funcionar também.
Gatekeeping gender-affirming care is detrimental to detrans people (versão em áudio aqui)
Este artigo, publicado no International Journal of Transgender Health – mas que encontrei pelo site de Florence Ashley – foi publicado online no dia 12 de fevereiro. Seu nome traduzido seria algo como “restringir cuidados afirmativos de gênero prejudica pessoas detrans”, e ele se trata de demonstrar o quanto os modelos utilizados por váries profissionais da saúde para determinar acesso a formas de transição corporal são danosos tanto para pessoas trans quanto para pessoas que acabam destransicionando.
Para muites profissionais, sues pacientes ou precisam ter completa certeza de que passar por processos de transição física é a única forma de diminuir a disforia de gênero que sentem, ou são pessoas que não merecem acesso a quaisquer formas de transição física. Segundo es autóries, isso acaba incentivando pacientes a não ser honestes com suas inseguranças ou seus desejos, especialmente quando podem estar buscando transição física como uma forma de experimentação de gênero similar a quando alguém adota termos de identidades de gênero, conjuntos de linguagem pessoais, maquiagem e/ou roupas de formas que podem ou não ser temporáries quando não têm certeza absoluta sobre suas identidades.
Héteros e dissidentes
Esta publicação di Oltiel, do dia 21 de junho, fala sobre as pessoas hétero dentro da comunidade LGBTQIAPN+, que acabam sendo apagadas ou mesmo antagonizadas em discursos que ignoram a existência de pessoas trans, intersexo e a-espectrais que são mulheres e sentem atração apenas por homens (ou vice-versa). Ilo também oferece alternativas para pessoas que sentem tal atração e preferem se afastar do termo hétero por sua conotação comum de cisgeneridade, periorientação e alossexualidade.
+ Também recomendo um texto anterior dilo (de 2020) que argumenta contra a inclusão da não-binaridade em definições e usos de hétero. Alternativamente, também publiquei Pessoas não-binárias e a alienação da diamoricidade em 2025, um texto questionando o impulso não-binário de usar termos com conotações binárias para suas orientações.
Dossiê Matria: O lobby antitrans disfarçado de defesa das mulheres e crianças
Em 9 de outubro, o site da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) publicou Pesquisa inédita explora lobby antitrans da Matria com apoio de universidades e entidades de direitos humanos, texto que chama a atenção para um dossiê sobre o grupo antitrans Matria, expondo suas conexões com grupos de extrema direita que informa suas investidas contra direitos trans. O corpo do texto em si (sem contar capa, sumário, etc.) tem 48 páginas.
From definitions to motivations
Este artigo do Siggy publicado em 21 de outubro critica a apresentação da assexualidade como uma série de termos e definições, ao invés de levar em consideração o contexto que motivou a existência de tais termos e o quanto cada um dos termos apresentados é amplamente utilizado. Ele aponta que, para muitas pessoas, suas orientações do espectro assexual são termos que fazem sentido nos contextos onde estão inseridas, mesmo que pareçam especificações “excessivas” sob perspectivas alossexuais (de fora do espectro assexual), entre outras questões.
Eu mesme tento contextualizar cada termo apresentado no Orientando em sua página específica (e/ou com links externos). Entendo o valor de uma lista rápida para entender o que determinado termo significa, mas a compreensão de dinâmicas comunitárias em torno de cada termo, ou mesmo das definições base de alguns termos, requer ir além de ler uma definição resumida. Ainda mais se a pessoa lendo não é familiar com conceitos como gênero ou orientação de forma mais profunda do que o assunto tende a ser tratado em espaços cis e hétero.
+ O texto The Ace Community and Folk Epistemology, publicado por RED em resposta ao Siggy no dia seguinte, se trata de explicar o fenômeno da epistemologia folk, onde são as próprias comunidades queer que cunham as próprias terminologias para se comunicar sem a necessidade de imposições de autoridades ou de hierarquias onde certos termos são obrigatoriamente diferentes ou mais abrangentes do que outros.
Translation: “The Quoiromantic Manifesto” by Nakamura Kasumi
No dia 25 de outubro, aceadmiral no WordPress publicou uma tradução de um manifesto quoiromântico originalmente publicado em 2021 neste livro (se eu não me engano) por Nakamura Kasumi. Como esta compilação de publicações não existia em 2021 e eu só soube do manifesto por conta desta tradução, estou contando como um “texto de 2025”.
O manifesto começa definindo orientações sexuais e românticas e contando a história do termo quoi. Depois, descreve o conceito de relacionamentos puros, os quais são definidos por comprometimento e pela escolha livre em torno do relacionamento (ao contrário de laços formados por deveres sociais, por exemplo). Finalmente, fala sobre pensar em cada relacionamento como diferente e em flutuação, sem dividir pessoas entre relacionamentos amorosos ou de amizade.
+ As conclusões de Nakamura Kasumi são similares às de proponentes da anarquia relacional, embora o conceito não tenha sido mencionado. O livro de 2020 (com publicação revisada em 2022) Anarquia relacional: A revolução a partir dos vínculos por Juan Carlos Pérez Cortés é uma leitura interessante para quem quer saber mais sobre o assunto. Sua versão escrita na língua inglesa está disponível gratuitamente em The Anarchist Library, mas existe versão na língua portuguesa à venda.
O desafio da população trans de envelhecer com plenitude
O texto em questão foi publicado em 24 de novembro por Priscilla Machado. Foca em mostrar dados e depoimentos acerca de envelhecer sendo trans, tanto em questão de como é difícil sobreviver tantas décadas quanto em questão de como estas pessoas acabam passando por dificuldades como isolamento, desemprego e despreparo de profissionais da saúde.
+ Outro texto publicado em 2025 sobre exclusão de um grupo cisdissidente do mercado de trabalho é Pessoas não binárias enfrentam dificuldades e exclusão no mercado de trabalho, texto por Diego Facuntini publicado no site do Ministério Público do Mato Grosso.
A vida como um ato político
A ideia de existir como trans ser uma resistência por si só é uma que muitas vezes é repetida sem ser explicada. Esta coluna, publicada pela Úrsula Brevilheri no dia 28 de novembro, exemplifica a dor e a importância de existir publicamente fora da cisnorma.
+ No dia 20 de outubro de 2025, o texto A trans de barba e o LGB sem o T foi publicado pela Sara York no portal de notícia Brasil 247. Também é um texto que trata de criticar a cisnormatividade, inclusive em espaços heterodissidentes.
How pinkwashing weaponizes LGBTQ+ rights
Neste vídeo, publicado em 23 de dezembro, revolutionaryth0t explica como países mais ricos usam a desculpa de que países menos poderosos não respeitam direitos LGBTQIAPN+ para invadi-los ou prejudicá-los de outras formas, e como, em troca, países menos poderosos acabam por perceber direitos LGBTQIAPN+ como uma ameaça. Elu usa Palestina e Burkina Faso como exemplos destes posicionamentos.
+ Também em 2025, mas no dia 30 de junho, Jorge H. Mendoza publicou O que é pinkwashing? no site da LIT-QI (Liga Internacional Dos Trabalhadores – Quarta Internacional), o qual explica na língua portuguesa o conceito de pinkwashing. Ele também usa a ocupação da Palestina pelo estado israelense como exemplo, mas foca mais no pinkwashing feito por empresas.
Finalmente, também gostaria de destacar o projeto cultura enebê, que (re)publica coisas relacionadas com não-binaridade na língua portuguesa, e o Observatório Queer Global, comunidade de WhatsApp onde pessoas podem trocar notícias sobre a comunidade.