Pedido: Texto sobre a identidade travesti [AC: menc. genitais, qstos. delicadas]

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Este tópico contém respostas, possui 4 vozes e foi atualizado pela última vez por  Vitor Rubião 3 semanas, 5 dias atrás.

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    Tath
    • ed/eld/e
    • -/éli/e

    Mestre

    [Detalhamento do aviso de conteúdo: Não planejo mencionar genitálias desnecessariamente, mas tem uns pontos que eu não sei bem como evitar. Quanto às questões delicadas, eu vou colocar questões que podem parecer óbvias para pessoas mais envolvidas com a comunidade travesti, e que podem trazer memórias de perguntas intrusivas para qualquer pessoa não-cis, em relação a pronomes, transição, rótulos, gênero e gênero designado, entre outras.]

    Eu francamente não consigo confiar em qualquer definição achada na internet a respeito de uma identidade tão comum e que certamente abrange mais de uma definição.

    Porém, é uma identidade que ainda é importante no Brasil, e que tenho a impressão de que tomou um rumo diferente de transvestite.

    Então, eu preciso de alguém que tenha experiência na comunidade travesti, ou ao menos experiência com pessoas que participam da comunidade travesti. O que eu preciso é de uma definição mínima e de um texto detalhado, assim como temos para outras identidades, como pangênero, bi e genderqueer.

    Algumas questões que precisam ser resolvidas na descrição e/ou no texto são:

    – É grande a porção de travestis que se identificam com rótulos relacionados a gênero além de travesti? (Transgênero, transexual, gênero-fluido, não-binárie, etc.)

    – Travesti é uma identidade exclusiva de pessoas transfemininas, ou ao menos transneutras e AMAB(C)AMAB: (Coercitively) Assigned Male At Birth [(Coercitivamente) Atribuíde Com Sexo Masculino Ao Nascer]. O C é mais para pessoas não-cis, mas não é obrigatório.?

    – O quão diferente é a identidade de uma travesti atual da de alguém que se identificava como transvestite nos anos 60-90 nos EUA? É só um termo que acabou ficando aqui enquanto outros lugares já não a consideram comum, ou é uma identidade diferente? Se é diferente, o que torna ela diferente?

    – Uma pessoa pode fazer transição e ainda ser travesti, ou é um termo apenas para pessoas que não passam por transição?

    – Travestis tendem a usar palavras e expressões geralmente relacionadas a ser não-binárie, ao menos quando entram em contato com elas? Ou sempre usam linguagem associada a mulheres? (Por exemplo, na maior parte dos casos, travestis atraídas somente por mulheres se sentiriam confortáveis em utilizar o termo lésbica, ou geralmente se consideram apenas “atraídas por mulheres”, se separando da categoria mulher? Tendem a usar linguagem que não é a/ela/a, ou geralmente tratam qualquer outra como maldenominação?)

    – Travestis possuem alguma bandeira/símbolo de orgulho? (Exclusivo, não falo de usar a bandeira trans ou não-binária :P)

    Também seria legal colocar a história do termo em geral; eu sei que franceses denominavam certas pessoas de comunidades indígenas brasileiras de travestis, por não serem consideradas homens em seus povos, enquanto tinham pênis e testículos. Também sei que a comunidade gay brasileira se separou em algum ponto entre homossexuais (“homens másculos”) e travestis (“homens que se vestiam de mulher e que tinham papel passivo na relação”), mas é legal ter um pouco de contexto além disso.

    Favor postar aqui qualquer dúvida, interesse ou informação relacionades.

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    • Este tópico foi modificado 9 meses atrás por  Tath.
    #2231 Quote

    QueerNeko
    • a/ela/a
    • e/elu/e

    Mestre

    – Uma pessoa pode fazer transição e ainda ser travesti, ou é um termo apenas para pessoas que não passam por transição?

    Tenho certeza que a pessoa pode fazer transição e ainda ser travesti, na verdade, me parece que é até comum encontrar travestis que fazem transição, mas eu também conheço pessoas que se identificavam como travestis antes de se identificarem como mulheres trans depois.

    #3022 Quote

    [email protected]

      Participante

      Olha pelo que eu sei de travesti, é um termo tipo geberoqueer ou androgino, serve tanto como identidade de gênero tipo “terceiro genero” (travesti-não-binárie pros gringos) quanto como pra expressão de gênero (neste caso , travesti é chamado de crossdresser, creio que na nossa língua não exista tradução mais específica pra palavra do inglês ).

      A história de travesti é interessante no começo a palavra se atribuía pra pessoas que se visitam com roupas atribuídas a identidade de gênero atribuída ao sexo oposto, tanto afab(C)AFAB: (Coercitively) Assigned Female At Birth [(Coercitivamente) Atribuíde Com Sexo Feminino Ao Nascer]. O C é mais para pessoas não-cis, mas não é obrigatório. quanto amab(C)AMAB: (Coercitively) Assigned Male At Birth [(Coercitivamente) Atribuíde Com Sexo Masculino Ao Nascer]. O C é mais para pessoas não-cis, mas não é obrigatório..
      Travesti era visto como um tipo de gay super afeminado que queria ser mulher ou uma lésbica super masculina que queria ser homem (vi#do, bi#a e sap#tão foram sinônimos pra travesti NA MENTALIDADE POPULAR por muitos anos). Naquela época as pessoas nem sabiam que identidade de gênero, expressão de gênero e orientação eram coisas diferentes.
      É comum as pessoas perguntarem pq raramente pessoas afabs são chamadas de os travestis (afab [email protected] como amab deveria se vestir), e isto tem muito haver com a questão do feminismo e da moda cultural mesmo, se tornou “comum” mulheres se vestirem e parecerem homens apesar de isto não ser tão socialmente aceitável depois que conseguimos mais igualdade de gênero entre muitas culturas, aliás o que a gente chama de roupa unissex na nossa cultura apareceu ai na moda.
      Outra coisa que acontece com a identidade das pessoas vestidas como um sexo que elas não são foi que devido a condição miserável de muitas pessoas transgeneras e a marginalização delas tendo muitas portas fechadas nas caras delas e tendo que se prostituir pra sobreviver (90% das pessoas transfemininas do Brasil já se prostituiram segundo pesquisa recente ), a imagem destas pessoas crossdressers ou transgeneras começou a ser algo associado a marginalidade, a prostituição , etc, tanto é que durante a época de 80-90 “travesti” virou um rótulo pra um tipo específico de profissional do sexo. Travesti virou emprego , da pra acreditar ?
      Outra coisa , falando das pessoas transfemininas, como a grande maioria delas já estiveram nesta vida horrível, a imagem de travesti começou a ser associada mais às pessoas amab. Existem várias teorias pra explicar pq pessoas transmasculinas escapam mais desta realidade:
      1- pq a grande maioria começou a se conformar com a idéia de ser mulher extremamente masculina, já que isto era bem mais aceitável do que se dizer que era travesti, pq travesti naquela época era uma palavra pra pessoas imundas.
      2- pq a grande maioria das pessoas transmasculinas não sao tao precionadas a se prostituirem pq a sociedade nossa aceita muito mais de boa afabs que querem se igualar a homens do que amabs que querem se igualar a mulheres por causa tanto do feminismo (da idea de igualdade de gênero) , quanto ironicamente do machismo (da idéia de ser mulher/feminino é ser inferior e ruim) , apesar de não aceitarem muito as wlw. (Existem ate outras culturas machistas que apoiam pessoas transmasculinas e desprezam as transfemininas, tipo “é melhor ter um filho homem, mesmo que trans, do que ter uma filha mulher “)
      3 – pq quase ninguém aceitava serviços de travestis afabs, e tipo gigolos não são muito procurados na nossa sociedade, ou pelo menos na época.

      Como ser travesti era uma coisa horrível, depois que o termo transexual surgiu , muitas pessoas transgeneras transexuais (que fizeram tanto as mudanças sociais, burocráticas e medicas) começaram a usar a palavra travesti pra deslegitimar a identidade transgeneras de outros dentro da comunidade transgenera, principalmente as identidades de pessoas nb, tipo gênerofluido, e isto acontece até hj. Tipo “a travesti não é uma mulher de verdade “, “o travesti não é um homem de verdade”, e tipo por causa disto que virou id de gênero separado também.

      Mas em suma uma pessoa crossdresser tanto cisgenera quanto transgenera pode se dizer travesti, tanto faz o agab dela.
      E também pessoas podem usar travesti como uma identidade de gênero não binário (que surgiu baseada em comportamentos tipo as id androgine e neutrois que também surgiram baseadas em expressões de genero). Uma id de genero que é feminina mas não é mulher ou uma id de gênero que é masculina mas não é homem.

      Como qualquer outra pessoa , travestis -nb e travestis crossdressers podem transacionar. Existem homens cis crossdressers que botam silicone e mulheres cis crossdressers que tiram as mamas. Eles podem fazer o que quiserem como qualquer outro gênero.
      espero ter te ajudado, bem.

      #3534 Quote

      Vitor Rubião
      • o/ele/o

      Participante

      Gostaria de compartilhar um texto que me ajudou a entender a identidade travesti.

      Texto da página do Facebook T de Revolução, publicado em 7 de maio de 2015, autoria desconhecida.

      ” Confusão, confusão, confusão! Quem não queria uma moeda pra cada vez que ouve essa pergunta? Pois bem, essa é a minha explicação preferida. Pra entender esse rolê melhor (e uma série de outros que derivam dele), é fundamental que a gente entenda a construção histórica desses termos. Bora?

      Eu acho muito mais divertido contar essa história da forma que eu vou contar porque explicita o absurdo da forma como a sociedade nos trata, então com a desculpa antecipada dos termos, vale avisar que contém deboche.

      No início, era a viadagem (me ouça com voz de Cid Moreira). Era só viado e sapatão. Aí, desses viado, tinha os viado que era só viado, os viado que se montava pra fazer show e os viado que se montava 24 horas (majoritariamente na prostituição), que botava peito (silicone industrial), mudava o corpo e tals. Esses últimos frequentemente também se tratavam no feminino e usavam nomes sociais femininos. Esses últimos eram as travesti, que eram viado, mas que eram travesti antes. E aí era só isso: os viado, as sapatão e as travesti.

      Aí láááá atrás, conforme começa a nascer uma militância “de homossexuais” e o movimento “gay”, os viado que era só viado sentiram a necessidade de brigar pra se diferenciar das travesti, pra que não fossem mais confundidos com aquele bando de puta, de vagabunda, de gente suja que manchava a imagem dos viado e impedia que a sociedade visse os viado como iguais (na cabeça deles, pelo menos). Essa briga de fato existiu e se intensificou tanto durante a ditadura quanto conforme o movimento foi ganhando força, de forma que a cisão entre os viado que é só viado e as travesti, que “não eram viado porque viado é limpinho”, foi tomando força e levando pro discurso e pras práticas de luta algo que já era verdade objetivamente há muito tempo (porque é assim mesmo que a história acontece): a travestilidade como um gênero [feminino] em si.

      E aí o primeiro ponto é isso: travestis, ainda que estejamos no campo da feminilidade e que nossas relações de trabalho e de gênero se dêem pautadas nos elementos mais violentos da mulheridade, somos um gênero em si. Olha só: temos lugar específico na organização do trabalho, conjunto específico de signos e estéticas distintivos e mesmo um referencial corpóreo específico (a “mulher de peito e pau”). O próprio senso comum, ainda que nos trate no masculino e ainda nos chame de viado, entende isso: se nos olham na rua, não apontam um homem ou uma mulher, mas “o traveco”; se querem nos ofender, ao contrário dos xingamentos no feminino direcionados aos gays, nos chamam de viado, de traveco, no masculino. Ou faz algum sentido a imagem de uma cara passando no carro e chamando a travesti de “mulherzinha”? Porque compreendem, ainda que não racionalizem, que nós somos “outra coisa” – uma coisa que pra ele não é humana, que não cabe na alteridade, mas ainda assim outra coisa, e uma “outra coisa” feminina.

      Primeiro ponto tá aí, então: travestilidade é um gênero em si. Um gênero feminino, “do campo” da mulheridade, mas um gênero em si.

      Aííí, em determinado ponto dessa história, as ciências psi resolvem perscrutar o mundo dessa gente muito loca e descobrem que uma parte das travesti “achava que era mulher”, e que essa galera tinha uma relação muito violenta de negação do próprio corpo dito masculino. Tinha umas que tava de boa, mas tinha essas que tava na bad monstra com o próprio corpo. Descobriram que entre as sapatão isso também rolava, aliás: que tinha as sapa que tava de boas, mas que tinha as sapa que achava TANTO que era ome que viviam o mesmo sofrimento violento de negação do próprio corpo, que assumiam nomes masculinos e tudo o mais. A partir dessa “descoberta”, a ciência começa a estudar mais essa galera da bad monstra, que vai acabar sendo batizada de transexuais por entender que o distintivo dessa gente é a negação do genital e a vontade de ter outro para ser “do outro sexo”. As outras continuamos sendo as travesti. Não contente a ciência burguesa, sempre genial, resolve separar também as travesti entre as que se veste só pra gozar e as que é tão loca do cu que bota peito e vive de travesti 24h: as primeiras viram portadoras de “travestismo fetichista” e as segundas, de “travestismo bivalente”. Parece bizarro (e é), mas vale dizer que essa é a catalogação atual e vigente do nosso CID (Código Internacional de Doenças). Eu tenho CID10 F-64.1: Travestismo Bivalente. Loco, né?

      Bom, o ponto é: enquanto as travesti continuaram sendo só as travesti mesmo, as travesti que viraram transexuais pra ciência deixaram de ser substantivo pra virar adjetivo: são mulheres transexuais. Na real, oficialmente eram chamadas de transexuais masculinos (nasceu com pipi), em oposição aos transexuais femininos (nasceu com ppk) – mas o reconhecimento do trânsito “de um sexo para o outro” contido nesse termo legitimou que essas mulheres transexuais passassem a se reconhecer, declarar e reivindicar mulheres. Esse é um primeiro elemento distintivo importante: mulheres transexuais se reconhecem mulheres e os esforços de luta são também no sentido de se legitimarem mulheres, tanto através das alterações que julgam necessárias em seus corpos quanto através do reconhecimento da sociedade e do Estado. As travesti continua as travesti.

      E aí é importante não deixar de colocar que enquanto a transexualidade, como categoria de análise, parte da auto-percepção do indivíduo e trata da materialização dessa auto-percepção, a travestilidade é o oposto: é o nome dado não a uma auto-percepção, mas a uma existência específica de gênero, um lugar específico das relações de gênero e da organização social de forma mais ampla. A consequência disso é que enquanto há alguma homogeneidade entre as mulheres transexuais, no sentido de que todas se reconhecem mulheres, entre as travestis as “auto-identificações” são MUITO variadas: há travestis que se reconhecem travestis e se compreendem mulheres, há travestis que se compreendem homens gays (ainda que usem nome feminino e muitas vezes pronome feminino também), há travestis que se compreendem “nem homem nem mulher” etc – o que há de comum entre nós, no entanto, é que independente de como rola a auto-compreensão no detalhe, todas nos compreendemos travestis em primeiro lugar. E aí, considerando que o ponto de partida das duas categorias são distintos, também há mulheres transexuais que também se compreendem travestis, muitas até por perceber que é assim que a sociedade enxerga e trata todas nós.

      E pra arrematar: pra efeito de militância e luta por políticas públicas, considera-se como distinção que mulheres transexuais desejam a transgenitalização e que travestis não. É uma distinção limitada, mas historicamente importante e que não devia ser desconsiderada (inclusive porque encontra algum acordo na história dessas categorias).

      Simples assim? Não, tem mais. Muito mais. Mas pra começar tá de bom tamanho.

      🌈 R U B I Ã O 🌈

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