Mascunormatividade

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Este tópico contém respostas, possui 5 vozes e foi atualizado pela última vez por  kau 3 meses, 3 semanas atrás.

Visualizando 10 postagens - 1 até 10 (de 10 do total)
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  • #2513 Quote

    Tath
    • ed/eld/e
    • -/éli/e

    Admin

    Este é um conceito que eu mesme sugeri há um tempo atrás, em outro lugar. É relacionado à misoginia e ao di/cis/heterossexismo, mas não é exatamente a mesma coisa.

    Mascunormatividade seria a normalização da masculinidade como padrão, como neutralidade, e/ou como algo mais desejável.

    Mascunormatividade incluiria:

    • A visão da androginia como “masculinidade leve”: uma pessoa magra, de rosto sem barba e sem feições categorizadas como masculinas vestida com uma camisa e uma calça, sem aparentar ter seios, é considerada andrógena, enquanto uma pessoa com barba usando um vestido não é, ainda que hajam características estereotipicamente pertencentes a ambos os gêneros binários em seu visual;
    • A ideia de que roupas “unissex”/neutras de gênero são sempre roupas que tradicionalmente pertenceriam à seção masculina, mas que também são socialmente aceitáveis para mulheres: camisetas estampadas, moletons, calças de abrigo, etc.;
    • A preferência de homens gays/aquileanos por homens másculos, enquanto mulheres lésbicas/sáficas possuem preferência por tomboys/butches/”sapatões”;
    • A aceitação social maior de mulheres que usam roupas consideradas masculinas, em relação à aceitação de homens usando roupas consideradas femininas;
    • O estereótipo de pessoa não-binária aceitável inclui ser uma pessoa transmasculina de visual “andrógino” já descrito acima. Enquanto isso tem muito a ver com transmisoginia, isso também tem a ver com mascunormatividade: mesmo uma pessoa AFAB(C)AFAB: (Coercitively) Assigned Female At Birth [(Coercitivamente) Atribuíde Com Sexo Feminino Ao Nascer]. O C é mais para pessoas não-cis, mas não é obrigatório. utilizando qualquer acessório feminino já tem sua identidade questionada.

    Como falei, isso tem muito a ver com outros tipos de opressão, especialmente misoginia, mas acredito que não seja justo chamar de misoginia algo que afeta bastante pessoas não-binárias e homens também, assim como pessoas sáficas femininas (já vi até uma postagem de blog de uma lésbica feminina dizendo que não aguentava mais ser tomada por mentirosa hétero por gostar de usar batom e vestido).

    Acho que isso é uma discussão importante. Muitos homens já foram vítimas de crimes de ódio por serem femininos demais, e enquanto isso tem a ver com transmisoginia e com a associação de ser GNCGender Non-Conforming: Alguém que não "se conforma" com seu gênero, utilizando uma expressão diferente da esperada para seu gênero (como um homem que gosta de usar vestidos e maquiagem). Normalmente a expressão é aplicada para pessoas binárias, especialmente cis, mas pessoas trans binárias ... com ser gay (ou GBPQA+), acho certo ter um nome para isso, que não tenha a ver simplesmente com ser “tomado por outra coisa”.

    Muitas pessoas não-binárias (estou falando mais de gente AFAB(C)AFAB: (Coercitively) Assigned Female At Birth [(Coercitivamente) Atribuíde Com Sexo Feminino Ao Nascer]. O C é mais para pessoas não-cis, mas não é obrigatório. aqui, não sei direito como isso funciona no caso de pessoas afetadas por transmisoginia) também acabam sofrendo pressão para serem mais masculinas, já que visuais que incluem acessórios/sinais femininos e masculinos igualmente são vistos como visuais de mulher.

    E, novamente, pessoas femininas de comunidades sáficas e aquileanas sofrem com a rejeição do que é feminino, ou por causa de um padrão de “homem normal” (leia-se: não-afeminado), ou por causa de um padrão de “mulher que rejeita normas de gênero”/”mulher que mostra no visual que é gay”, que sofre críticas não só por parte da comunidade lésbica que não quer esse padrão, mas também por qualquer comunidade que sofre com homonormatividade*, e por qualquer comunidade de mulheres para quem a feminilidade geralmente é negada (mulheres negras, neurodivergentes, etc).

    * homonormatividade = a normatização da comunidade gay (e, ocasionalmente, lésbica) acima de todo o resto da comunidade BTQIAPN+, a ideia de que pessoas gays são mais representativas da comunidade de que o resto, a ideia que as outras identidades da comunidade são “basicamente gays”, “um pouco menos gays” ou menos importantes. Neste caso, me refiro ao fato de que pessoas transfemininas sáficas provavelmente não vão querer se vestir como homens, e de que “mulheres que mostram no visual que são gays” podem ser homens trans, pessoas não-binárias, pessoas multi, pessoas assexuais/arromânticas, e pessoas de outros grupos que sofrem discriminação por sua identidade BTQIAP+, mas que não são gays.

    O que vocês acham?

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    1
    • Este tópico foi modificado 1 ano, 4 meses atrás por  Tath.
    #2542 Quote

    Mimi
    • -/ély/y
    • i/éli/i

    Participante

    isso é um conceito bem interessante… eu queria poder comentar mais, mas não sei muito bem o que posso adicionar

    m i m i
    (não há aprendizado sem dor.)

    0
    #2576 Quote

    MEME LORD
    • o/ele/o
    • o/êlu/u

    Participante

    Eu sinto bastante a pressão para não me mostrar feminino demais caso eu queira que me levem a sério como transmasc, mas aí tem bastante a ver com a pressão das normas de gênero que é imposta com mais força em pessoas trans. Por isso, não sei como lidar com esse conceito…

    0
    #2580 Quote

    Tath
    • ed/eld/e
    • -/éli/e

    Admin

    Eu sinto bastante a pressão para não me mostrar feminino demais caso eu queira que me levem a sério como transmasc, mas aí tem bastante a ver com a pressão das normas de gênero que é imposta com mais força em pessoas trans. Por isso, não sei como lidar com esse conceito…

    Yeah, nesse caso tem mais a ver com o policiamento de gênero, porque também acontece algo similar com pessoas transfemininas. Mascunormatividade tem mais a ver com apresentação/maneirismos/roupas/etc. considerades masculines serem considerades neutres/desejades (e vice-versa), enquanto apresentação/maneirismos/roupas/etc. considerades feminines serem marcades como estranhes, indesejades e/ou não-normatives.

    Daí fica difícil aplicar isso em relação a pessoas transmasculinas ou transfemininas (para quem conformismo de gênero é algo considerado bom e não conformismo é motivo para invalidação e/ou ridicularização), enquanto fica mais fácil entender os efeitos em pessoas cis ou em pessoas não-binárias que querem passar como andróginas/neutras/não-binárias.

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    0
    #2603 Quote

    Ari
    • -/[r]/[r]
    • -/-/'

    Participante

    É como se as lutas de gênero tivessem avançado para que mulheres pudessem ser masculinas, enquanto homens continuam não podendo ser femininos.

    Deste ponto, levanto as seguintes perguntas:

    1. É possível que isso tenha acontecido porque houveram grandes lutas para que mulheres num geral tivessem mais liberdade, enquanto lutas que faziam o mesmo para homens eram menores, confinadas a pautas secundárias de movimentos LGBTQ+?
    2. Expressões femininas são consideradas marginalizadas, ao ponto de expressões masculinas poderem ser consideradas integracionismo/assimilacionismo?

    0
    #2607 Quote

    Tath
    • ed/eld/e
    • -/éli/e

    Admin

    1. Acredito que sim, mas não só isso: a própria visão de masculinidade e do gênero masculino como superior fizeram com que a sociedade aceitasse mais facilmente que mulheres expressassem masculinidade (porque estão indo para um “lugar superior”) do que homens que expressam feminilidade.

    2. Isso é uma questão bem complicada, porque ainda que masculinidade seja vista como algo superior, o desvio das normas de gênero também é visto como uma degeneração.

    Temos casos de mulheres assediadas e esnobadas por serem masculinas demais, mas também temos mulheres sendo rejeitadas como fúteis e ignorantes por serem femininas demais.

    Existem fenômenos aonde mulheres tentam se dar uma imagem menos feminina para serem mais aceitas em meios masculinos (“sou apenas mais uma entre os caras”, “não sou como outras meninas, não ligo pra aparência e curto esportes/games”, a imagem da mulher bem sucedida na carreira que é durona e indesejável), mas também existe, por exemplo, uma cobrança maior com a aparência das mulheres em empregos/lugares aonde existem códigos de vestimenta/aparência, que geralmente exigem aparência mais “feminina” (maquiagem/saia/unhas feitas/salto alto/etc).

    Então, não, eu não diria que assumir uma postura mais masculina é necessariamente integracionismo, embora isso aconteça ocasionalmente: é só ver as jovens que desprezam meninas que gostam de romances, maquiagem e moda para se encaixarem melhor em grupos de meninos.

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    #2631 Quote

    Mimi
    • -/ély/y
    • i/éli/i

    Participante

    mulheres trans masculinas definitivamente não são integracionistas lol

    m i m i
    (não há aprendizado sem dor.)

    0
    #2634 Quote

    Tath
    • ed/eld/e
    • -/éli/e

    Admin

    Yeah, porque no caso de pessoas trans binárias a questão dos padrões de gênero é bem mais forte.

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    #4390 Quote

    Tath
    • ed/eld/e
    • -/éli/e

    Admin

    Tradução de uma postagem que fala muito bem sobre isso:

    ivanaskye perguntou:

    Esta não é a primeira vez, eu tenho visto coisas pro-femme¹ ultimamente mas na maioria das outras vezes que eu vi foi com adições posteriores de “ewww essas femmes acham que são oprimidas!!” Você uh. Tem alguma ideia de porque alguém simplesmente dizendo algo do tipo “wow com certeza é ótimo ser uma femme” consegue essa resposta.

    xenoqueer respondeu:

    Feminilidade é desvalorizada em nossa cultura. Constantemente, extremamente, e das maneiras mais estranhas.

    Várias pessoas vão falar que atitudes anti-femme são “só misoginia”, e enquanto é verdade que elas vêm de misoginia, a aplicação de padrões anti-femme a homens também mostra que é necessário ter termos para discutir o assunto além de “misoginia”.

    Em espaços queer, especialmente, masculinidade é vista como o ideal. Dizem a mulheres queer que precisam se esforçar para serem inconformistas de gênero ao máximo possível, recriando os estilos e a atitude de masculinidade. Adotar feminilidade, mesmo quando fazer isso é literalmente para continuar com vida, como é o caso para muitas mulheres trans, é visto como un fingimento forçado. Para ter aparência andrógina, como muitas pessoas não-binárias e genderqueer procuram ter, para limitar disforia e maldenominação, você tem que ser levemente masculine. Dizem a homens queer que adotar feminilidade os faz patéticos, ou faz com que tudo que intolerantes de fora da comunidade tenham falado sobre eles suas vidas inteiras seja verdade.

    Agora, obviamente, isso não é dizer que pessoas butch², pessoas masculinas, etc. não possuem suas próprias dificuldades e punições, porque obviamente sim elas possuem.

    Mas, enquanto elas podem ao menos ter uma expectativa modesta de aceitação em espaços queer, femmes passam pela rejeição da sociedade cis/heteronormativa por serem queer, e pela rejeição de espaços queer por serem desnaturades. Para femmes que são ou que são percebides como mulheres isso se manifesta como um tipo de atitude “por que você está tentando ser menos queer”, e para femmes que são ou que são percebides como homens isso acaba aparecendo mais como “por que você está tentando ser mais queer”.

    Em minha experiência, ódio a femmes vem de ver feminilidade como um fingimento, enquanto apenas masculinidade é verdadeiramente natural.

    Para femmes que são percebides como ou que são mulheres, ser femme é visto como jogar no modo fácil, enquanto é simultaneamente visto como uma atuação que deveria ser desaprendida porque viver suas próprias vidas como quiserem é “valorizar padrões do patriarcado”, de alguma forma.

    Para femmes que são percebides como ou que são homens, ser femme é visto como uma atuação. Isso também é tratado como uma invasão de espaços para mulheres. Isso é visto como valorizar padrões do patriarcado por causa da presunção que esse grupo de femmes é composto totalmente por predadories sexuais ou invasories controladories, os papéis clássicos que o patriarcado dá a homens para suas interações com mulheres. A ironia que esses papéis estão sendo designados baseados em “ser anti-patriarcado” geralmente é perdida para muita gente.

    No fim, há uma percepção de que feminilidade é sempre desnaturada, deve ser restringida e limitada sempre que possível, e de que um dia deve ser eliminada completamente.

    O que faz sentido para um tipo específico de perspectiva abolicionista de gênero, mas considerando que masculinidade não é tratada com a mesma atitude de que “um dia não existirá”, e que ao invés disso “um dia ela será para todo mundo”, isso é incrivelmente questionável.

    No fim, feminilidade queer é vista como desnaturada e de mal gosto, não importa quem a expresse.

    _______________

    Fonte: https://xenoqueer.tumblr.com/post/174212163508/this-isnt-the-first-time-ive-seen-pro-femme

    ¹ Femme: Uma identidade feminina. Existem debates sobre quem pode usar (só lésbicas, só sáficas, só mulheres LGBTQIAPN+ e pessoas não-binárias, qualquer pessoa LGBTQIAPN+), mas geralmente se refere à feminilidade de pessoas não-hétero e/ou não-cis, geralmente a de mulheres.

    ² Butch: Uma identidade masculina. Existem debates sobre quem pode usar (só lésbicas, só sáficas, só mulheres LGBTQIAPN+ e pessoas não-binárias, qualquer pessoa LGBTQIAPN+), mas geralmente se refere à masculinidade de pessoas não-hétero e/ou não-cis, geralmente a de mulheres.

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    #4409 Quote

    kau
    • e/ily/-
    • a/elu/e

    Participante

    Mascnormatividade (normatividade masculina) lembra androssexismo (uma parte do monossexismo onde pessoas pluri ao sentirem atração por homem, mulheres se tornariam desatrativas). Femboys (femeninos/afeminades) são marginalizades se compararmos a masculinizades (mascuninas/mascunines/mascgirls/mascenbies). Acho que até a questão hombridade vs. homenidade e femininidade vs. feminilidade na nossa língua são reflexos disso sabe.

    Pessoas AMAB(C)AMAB: (Coercitively) Assigned Male At Birth [(Coercitivamente) Atribuíde Com Sexo Masculino Ao Nascer]. O C é mais para pessoas não-cis, mas não é obrigatório. são realmente induzidas a serem masculinas ou terem uma excessiva feminilidade binária e cis-passível (passabilidade cis) para serem aceitas na normalidade social, enquanto pessoas AFAB(C)AFAB: (Coercitively) Assigned Female At Birth [(Coercitivamente) Atribuíde Com Sexo Feminino Ao Nascer]. O C é mais para pessoas não-cis, mas não é obrigatório. têm mais facilidade para uma transição masculina e não requisitam uma binaridade extrema na aparência exterior (podendo ser mais andrógina/neutra/xenina), pelo menos é o que observo pois mulheres trans costumam ser muito aparentistas (ligarem muito pra estética) por conta da repressão, talvez pela própria transmisoginia. Mas lógico que nessa sociedade a norma sempre foi a hombril (homênica/hombral) masculina/viril, enquanto a feminina mulheril um alinhamento marginalizado.

    0
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