Conceito: Reducionismo de gênero

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  • #3872 Quote

    Aster

      Admin

      Este é um conceito que acabo não encontrando muito em ambientes lusófonos porque não há muita discussão sobre questões não-binárias nestes ambientes, mas acho que é inevitável que aconteça em algum ponto. E é um conceito que partiu de discussões que estão em alta nas comunidades não-binárias anglófonas do Tumblr ultimamente.

      Reducionismo de gênero é a ideia de que pessoas podem ser colocadas em duas categorias, em relação a gênero.

      É algo que reforça exorsexismo e cissexismo, mas é algo específico dentro disso, assim como maldenominação é algo específico dentro de cissexismo.

      Muitas pessoas – inclusive pessoas não-binárias – tentam adaptar a não-binariedade a um mundo binário de forma sutil, que até pode ser vista como progressista ou desconstruída certas vezes. Muitas vezes, quem reforça essa ideologia aceita que mulheres trans são mulheres e que homens trans são homens, ao menos na teoria, e podem até aceitar que pessoas não-binárias possuem múltiplas possibilidades de como se identificar e de como experienciar gênero. E é por isso que esse é um tipo específico de exorsexismo.

      Porém, essas pessoas ainda querem empurrar a ideia de que, em relação a gênero, só existe um grupo “oprimido”, relacionado a mulheres e à feminilidade, e um grupo “opressor”, ligado a homens e à masculinidade.

      Podem também não estar falando em relação a isso, mas ainda tentando dizer que “no fim” existem duas categorias de pessoas.

      Estas são atitudes reducionistas de gênero:

      – Ignorar que pessoas podem ser homens e mulheres ao mesmo tempo (ou até mesmo em tempos diferentes), negando que certas pessoas deveriam ter tanto acesso a comunidades de mulheres quanto a de homens;

      – Tentar dizer que “na prática, pessoas não-binárias precisam se alinhar a um gênero binário e viver socialmente como ele”, seja para justificar que orientações que cobrem pessoas não-binárias são inúteis, seja para justificar que pessoas precisam aceitar usar o/ele/o ou a/ela/a, seja para outros usos;

      – Assumir que todas as pessoas não-binárias são transmasculinas, transfemininas, ou completamente sem disforia ou vontade de se separar da ideia do seu gênero designado;

      – Assumir que qualquer pessoa que tenha algum tipo de relação com algum gênero binário seja “basicamente binária”, devendo querer o tratamento de uma pessoa binária, sendo 100% confortável com um corpo e com uma linguagem binária, etc.;

      – Assumir que qualquer pessoa não-binária que não se considere de uma identidade próxima ao gênero feminino não tenha qualquer uso para espaços feministas ou de mulheres, e que se tentarem entrar em algum estão sendo “machos predatórios”, ainda que não sejam nem queiram ser reconhecidas como homens;

      – Assumir que pessoas que usam o/ele/o são basicamente homens, e que pessoas usando a/ela/a são basicamente mulheres, ainda que digam que sua identidade é igualmente de ambos esses gêneros, ou que não é de nenhum desses gêneros, ou que é mais próxima do gênero “oposto” ao que foi considerado.

      Resumidamente, reducionismo de gênero é uma prática:

      • Muitas vezes praticada por pessoas que dizem apoiar pessoas trans e não-binárias,
      • mas que são pessoas que não querem ter que lidar com relações complexas que pessoas não-binárias podem ter com o sistema cissexista de gênero,
      • e que portanto tentam categorizar pessoas não-binárias como “praticamente mulheres” ou como “praticamente homens”, algumas vezes associando as primeiras a “vítimas” e as segundas a “opressoras”, de forma parecida com retórica radfem.

      ref.

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      • Este tópico foi modificado 1 year, 11 months atrás por Aster.
      #3997 Quote

      MEME LORD
      • o/ele/o
      • o/êlu/u

      Participante

      Conceito interessante, mas gostaria de levantar uma discussão relacionada.

      Você acha que é possível ser homem não-binário e se beneficiar de ser homem, mesmo sofrendo o exorsexismo de ser não-binário?

      0
      #3998 Quote

      Vitor Rubião
      • -/elu/e
      • -/éle/e

      Participante

      Essa eu faço questão de responder, já que sou homem n-b e já havia lido anteriormente sobre esse exato tópico.

      Há uma diferença enorme entre um homem n-b AFAB e um homem n-b AMAB. A pessoa AFAB será alvo de todo cissexismo que conhecemos, não vou explicitar (e isso mesmo que ela transicione). E a pessoa AMAB pode ter uma vantagem sobre isso, ainda mais se não tiver disforia e ter uma expressão “masculina”, pois mesmo assumindo sua não-binaridade, ela ainda é uma pessoa com pênis e que se identifica com um gênero masculino. Isso pode fazer com que sua identidade seja, até certo ponto, tolerável. E o patriarcado, que olha pra pessoa e ainda vê um homem, ainda vai beneficiá-la.

      Eu particularmente tenho apresentação tradicionalmente masculina e não tenho disforia. E não deixei de ser homem. Posso ser alvo de exorsexismo? Perfeitamente (e inclusive já fui)! Pelo simples fato de dizer que sou não-binário. Mas continuo sendo do gênero masculino (a sociedade me impôs um gênero masculino) e sou uma pessoa socialmente lida como homem. Então, sim, ainda posso usufruir dos privilégios feitos para a classe homem (cis).

      É uma coisa bizarra, mas faz todo sentido. Vale lembrar que é o sistema quem dá os privilégios, não importa se as pessoas querem ou não.


      R U B I Ã O

      0
      #4002 Quote

      Aster

        Admin
        MEME LORD escreveu:

        Conceito interessante, mas gostaria de levantar uma discussão relacionada.

        Você acha que é possível ser homem não-binário e se beneficiar de ser homem, mesmo sofrendo o exorsexismo de ser não-binário?

        Depende.

        Eu entendo o que @vitorrubiao quis dizer, baseando-se em suas próprias experiências e tal, e espero não estar falando por cima de vocês dois aqui, mas homem não-binário é uma categoria intencionalmente abrangente.

        Homem não-binário pode ser a pessoa que se encaixa no gênero masculino, fora alguns detalhes. Homem não-binário pode ser a pessoa agênero que se sente confortável sendo vista como homem. Homem não-binário pode ser a pessoa poligênero que, ainda que seja parcialmente mulher, quer que sua transmasculinidade seja levada a sério. Homem não-binário pode ser a pessoa gênero-fluido que é homem 70% do tempo, andrógine 20% do tempo e mulher 10% do tempo.

        Em relação ao eixo de opressão homem x mulher, pessoas não-binárias podem ter internalizado coisas completamente diferentes. Podem ter homens não-binários que praticamente se veem como homens nesse eixo (e que então seriam quase ou totalmente privilegiados, embora eu não tenha certeza se esse totalmente seja possível), homens não-binários que sentem conexão com vários pontos entre homem e mulher dependendo da questão, homens não-binários cuja experiência é fluida e marcada por não ser homem ou por ser mulher em alguns pontos mas nem sempre, e talvez até outras coisas que eu posso não ter levado em questão.

        (Isso sem contar misoginia mal direcionada, que eu diria que está mais para sofrer por conta de cissexismo do que por conta do gênero.)

        Eu também acho que o “ir totalmente contra o gênero designado” (ser uma pessoa transmasculina, por exemplo) também conta com dificuldades extras. Mas aí, novamente, acho que faz parte da questão do não reconhecimento do gênero, e não do gênero em si.

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