Questões diamóricas

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Este tópico contém resposta, possui 1 voz e foi atualizado pela última vez por  Tath 2 semanas, 5 dias atrás.

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    Tath
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    Mestre

    Com este tópico, pretendo mostrar que:

    1) Relações envolvendo pessoas do mesmo gênero ou relações envolvendo um homem e uma mulher não são as únicas dinâmicas que devemos considerar em relação aos gêneros das pessoas envolvidas (obviamente temos que considerar qual a natureza do relacionamento, quantas pessoas estão envolvidas, quais as orientações das pessoas envolvidas, etc., porém estou falando sobre gênero aqui);

    2) Relações diamóricas não são “basicamente hétero” nem se as pessoas forem de gêneros diferentes, alo e mono (ou simplesmente não atraídas pelo mesmo gênero). O que devo apontar que é particularmente raro, mas, novamente, estou falando especificamente dos desafios de pessoas em relacionamentos diamóricos.

    Algumas definições:

    Uma pessoa diamórica é uma pessoa não-binária que valoriza a não-binariedade em sua atração, não importa por qual ou por quais gêneros sente atração.

    Uma relação diamórica é qualquer relação em que ao menos uma pessoa não-binária está envolvida. A(s) outra(s) pessoa(s) podem ou não ser não-binárias.

    Uma orientação diamórica é qualquer orientação que pode ser definida como “uma pessoa não-binária que sente atração por _____”. A maioria delas não está na lista de orientações do Orientando ainda, porque a maioria destas foi cunhada nos últimos meses, mas elas provavelmente aparecerão no futuro. Exemplos de orientações diamóricas são cetero, vir(amórique), femina(mórique), trixic/toric (trizique/dorique?) e uranic/neptunic (urânique/neptúnique?). Eu não sei se proquu/proqua contariam, porque essas precisam que você tenha uma característica específica.

    Uma pessoa embiana/enebeana/embeana é uma pessoa não-binária que sente atração, exclusivamente ou não, por pessoas não-binárias.

    Uma relação embiana/enebeana/embeana é uma relação envolvendo somente pessoas não-binárias.

    Ok, vamos aos desafios em si:

    Por pessoas não-binárias serem raras e frequentemente terem seus gêneros invalidados, poucas pessoas sabem se são atraídas por pessoas não-binárias.

    Isso deixa pessoas não-binárias inseguras, porque não há como saber se outras pessoas que expressam atração realmente sentem atração pelo seu gênero, ou se estão deixando esse gênero de lado para focar em qual gênero binário a pessoa parece ser.

    Muitas pessoas não-binárias escondem seus gêneros de sues parceires bináries, inclusive por ter medo da perda de atração ou da má interpretação de sua identidade.

    Por pessoas não-binárias terem medo de exorsexismo dentro de suas relações, pessoas não-binárias podem esconder sua identidade.

    Identidades não-binárias são estigmatizadas em geral, e muitas pessoas possuem suas próprias ideias de quais gêneros são válidos ou não. É possível que uma pessoa tente ser convencida que seu gênero não existe dentro de uma relação, e isso pode gerar estresse e outros sintomas relacionados à maldenominação e a estar no armário até por pessoas próximas.

    Pessoas não-binárias não possuem espaços seguros onde podem explorar atração.

    Atração de homens por mulheres e vice-versa é normalizada, de forma que a aproximação de casais de homens e mulheres é tomada como natural de forma que outras aproximações não são. Atrações de homens por homens e de mulheres por mulheres é estigmatizada, reprimida e confinada a certos espaços, mas ao menos existem festas e encontros que são espaços seguros para que pessoas cis possam “avançar em” pessoas do mesmo gênero sem grandes preocupações com discriminação.

    Pessoas trans binárias também passam por constrangimentos e problemas quando querem ser vistas como alguém de seu próprio gênero, especialmente se “não conseguem passar” por pessoas cis. Até muitas pessoas cis LGB+ consideram pessoas trans “meio homens e meio mulheres” ou “pessoas que se vestem de outro gênero, mas tanto faz porque é a genitália que importa”.

    Porém, acredito que mais pessoas trans binárias conseguem achar espaços que as contemplem, ou conseguem fazer cirurgias e reposições hormonais a ponto de serem indistinguíveis ou quase indistinguíveis de pessoas cis, e portanto conseguem ao menos um pouco mais de acesso que pessoas não-binárias conseguem.

    Pessoas não-binárias raramente conseguem ter espaços para si fora da internet, e nunca ouvi falar de qualquer lugar especificamente para formar relacionamentos embianos ou diamóricos. E, quando pessoas não-binárias buscam espaços para formar relacionamentos, não importa se forem “gay” ou “hétero”, é esperado que essas pessoas não-binárias deixem suas identidades de lado, ou que adotem identidades de “socialmente homem” ou “socialmente mulher”.

    Ainda que existam pessoas não-binárias que se considerem próximas a um gênero binário, ou que às vezes são de um gênero binário, acredito que não seja justo dizer que para estas pessoas a pressão é irrelevante, afinal elas ainda precisam deixar partes de suas identidades de lado, e não possuem outra opção viável se querem participar desses espaços.

    Orientações relacionadas a pessoas não-binárias são invalidadas.

    Se uma pessoa femigênero (gênero não-binário relacionado com feminilidade) que sente atração por pessoas não-binárias do espectro feminino se identifica como proquassexual, muitas pessoas vão reclamar que o rótulo “é ridículo” (por não ser uma orientação ~consagrada~), “é a mesma coisa que lésbica” (ainda que a pessoa não queira saber de mulheres binárias), “não pode ser verdade” (porque acham que só é possível sentir atração por homens e/ou por mulheres), “força o rótulo de feminilidade” (porque acham que não é possível sentir atração sem forçar rótulos em outras pessoas), etc.

    Se uma pessoa binária diz que sente atração por “mulheres e algumas pessoas não-binárias”, a pessoa vai sofrer acusações de “fetichizar gêneros não-binários”, de “não considerar mulheres trans mulheres de verdade”, de “só sentir atração por pessoas com vaginas e tentar esconder isso de forma que parece inclusiva”. Se for um homem, vão falar de como é um hétero nojento, e se for uma mulher, vão falar de como é uma lésbica que se odeia e que por isso não quer se chamar de lésbica.

    Isso ignora que é possível ver pessoas não-binárias do gênero que são, e de ver pessoas binárias do gênero que são, independentemente de como se vestem ou de como são seus corpos. Isso ignora que muitas pessoas não-binárias preferem que sues parceires se identifiquem como multi (bi, poli, penúlti, etc.) do que finjam que sua atração se limita a um único gênero binário.


    É isso o que eu consigo pensar no momento. Também existem umas questões de falta de informação (uma pessoa que sente atração por homens e mulheres sentiria atração por uma pessoa bigênero homem/mulher, ou a combinação dos gêneros conta como um gênero diferente? Pessoas sem gênero querem ser excluídas de qualquer atração, ou ser contadas como “um gênero”, etc.), que também são complicadas, mas acho que o principal é como é difícil pessoas não-binárias navegarem a questão de relacionamentos quando a maioria só admite atração por gêneros binários.

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    Tath
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    Mestre

    Eu achei esta postagem hoje sobre a questão de identidades mono e pessoas não-binárias, que é bem interessante:

    http://androgyne-enjolras.tumblr.com/post/162957337459/hey-im-a-little-confused-as-to-what-the

    O ponto principal é o seguinte:

    Lésbica é uma identidade com bastante história e comunidade e importância, então entendo a relutância em deixá-la. Então se você é alguém que sente atração consistente apenas a pessoas com identidades relacionadas com o gênero feminino e sues parceires estão completamente confortáveis em ser inclusas pela sua identidade lésbica, não tenho nenhum problema com isso. Seja lésbica e saia com pessoas que se identificam como mulheres ou como pessoas não-binárias adjacentes a mulheres. Faça como quiser. Respeite-as e respeite suas identidades não-binárias e está tudo bem. Sua atração pode ser multifacetada e ainda ser lésbica em sua essência.

    Insira tudo igualmente para homens gays. O motivo de eu focar menos neles quando faço essas analogias é porque nunca os vejo, se vejo, nestas discussões.

    Entretanto, eu NÃO acho que isso funciona dessa maneira para pessoas hétero. Hétero não é uma identidade que vale a pena segurar. Não consigo pensar em uma única boa razão que uma pessoa hétero teria para se atrair por e sair com pessoas não-binárias repetidamente e ainda sentir necessidade de afirmar sua heterossexualidade que não tem a ver com afirmar sua posição privilegiada, “normal”. Apenas SEJA multi-atraíde, está tudo BEM.

    Basicamente, as identidades gay e lésbica saem da norma e possuem um grande histórico de comunidade, então faz sentido querer se associar com elas mesmo que sua atração inclua algumas pessoas não-binárias. Mas o único benefício da identidade hétero é ser uma identidade privilegiada, o que não faz sentido se você constantemente sente atração por pessoas não-binárias.

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