Desabafo sobre queerbaiting em relação a personagens não-bináries

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Este tópico contém respostas, possui 2 vozes e foi atualizado pela última vez por  Tath 11 meses atrás.

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    Tath
    • ed/eld/e
    • -/éli/e

    Mestre

    Tem muita gente com hype em relação à representação não-binária atual, mas… acho que esses casos são muito ruins, queerbaity em seus piores casos, e pensados demais para o conforto cis em outros.

    Temos o caso de Blanche, líder da equipe Mystic no Pokémon Go. Nenhuma das pessoas em Pokémon Go tem gênero explícito no momento, até onde eu me lembro; e, pela aparência andrógina de Blanche, muitas pessoas espalharam que Blanche é não-binárie, ao ponto da maior parte dos posts sobre Blanche utilizarem os pronomes they/them para Blanche.

    O headcanon chegou a tal ponto que eu não duvido que pessoas tentem corrigir caso alguém se refira a Blanche como uma mulher, ou utilize pronomes associados a gêneros binários para Blanche. Oficialmente, porém, disseram que o gênero de Blanche está aberto à interpretação. De um lado, isso é legal, não é errado dizer que Blanche é NB, mas… de outro, faz com que pessoas possam passar por cima da grande porção de pessoas que acredita que Blanche é NB.

    Então temos o caso de Frisk, em Undertale. Nunca é visto o que Frisk realmente está dizendo para outres personagens, com a exceção de quando a pessoa que está jogando escolhe certas opções. Nenhuma destas opções envolve gênero ou pronomes. Mesmo assim, dentro do jogo, personagens utilizam os pronomes they/them para Frisk, e nunca chamam Frisk de menino ou menina, sempre utilizam termos como ser humano ou criança.


    Fonte

    Por causa disso, e pelo tema do jogo onde Frisk é sua própria pessoa e não apenas um reflexo de quem está jogando, a ideia de que Frisk é não-binárie (também dizem que Frisk é agênero certas vezes) espalhou depressa. Porém, Toby Fox, o criador do jogo, sempre se recusa a responder perguntas sobre o gênero de Frisk, e é comum utilizarem “ele” ou “ela” para se referirem a Frisk na internet, mesmo em inglês.

    Não acho que faz muito sentido a ideia de que Frisk é qualquer gênero que a pessoa quiser por ser protagonista do jogo, mas também acho que, se a ideia é Frisk ser uma pessoa não-binária, isso tem que ficar mais claro e direto no jogo em si. As pessoas não veem they/them como pronomes para uma pessoa em geral, ao invés de verem só como pronomes que estão sendo utilizados por falta de conhecimento dos “verdadeiros” pronomes.

    O terceiro caso que quero comentar é o de Stevonnie. No desenho Steven Universe, existem aliens (gems) que podem se fundir entre si, para formar gems maiores e mais fortes, com uma personalidade combinada des personagens “originais”. O padrão é as gems utilizarem o pronome ela. Gems são inorgânicas, então não se reproduzem sexualmente (normalmente) e não existe sexo ou diferenciação de gênero entre sua raça. (A questão controversa de gems agênero x gems mulheres fica pra outro dia.)

    Uma gem, porém, decidiu “experimentar” a reprodução humana, com um humano. E é assim que nasce nosso protagonista, Steven Universe. Steven Universe utiliza o pronome ele; eu não lembro se ele é referido como um menino explicitamente ou não, mas isso não importa aqui. O que importa é que Steven consegue se fundir com sua amiga humana, Connie, formando uma fusão chamada Stevonnie.

    Stevonnie (ou mesmo Steven ou Connie) não chega a expressar nenhuma preferência em relação a gênero ou linguagem. Porém, outros personagens utilizam they/them para Stevonnie, e um roteirista confirmou que estes são os pronomes oficiais de Stevonnie.


    Fonte

    Ainda assim, muita gente justifica que Stevonnie só usa they porque são “duas entidades separadas”, enquanto as outras fusões possuem personalidades “mais mistas”. Ou usam she (ela), porque “é 75% gem”, ou porque “parece mulher”, independentemente da linguagem que é utilizada no desenho.

    Parece que a maior parte dos problemas seria resolvido com Stevonnie tendo a oportunidade de dizer quais os pronomes que usa e qual o motivo de usá-los, ao invés de só sutilmente colocar que Stevonnie usa certos pronomes de maneira que a maioria das pessoas pode ignorar que Stevonnie é não-binárie. Do jeito que está, aposto que vão traduzir em português ou em línguas similares como “eles”, e não como algum pronome equivalente no singular, como elx, êlu, ou éli.

    Com certeza no português seria bem mais difícil de justificar, mas em inglês, they significa tanto elxs quanto elx (mas de forma gramaticalmente correta e amplamente aceita), então não seria difícil não ter censura a respeito de Stevonnie explicar seus pronomes. São supostamente um menino e uma menina em um corpo só, e não estaria certo se referir a uma menina como um menino e vice-versa, certo?

    Agora, o último caso que quero comentar é o de certe personagem de Homestuck. Caso você ainda esteja lendo HS, isso são spoilers (não tão grandes) de um dos últimos atos.

    Conteúdo oculto:
    Davepetasprite^2 é, novamente, uma fusão entre personagens de gêneros diferentes. Ume sprite em Homestuck é ume guia para jogadorus de Sburb/Sgrub. Para isso, duas coisas podem ser prototipadas em cada sprite, sendo que temos ume sprite por jogadore. Temos Davesprite, que é um sprite prototipado com um pássaro morto e um Dave Strider de um universo alternativo. Temos Nepetasprite, uma sprite que só foi prototipada uma vez, com o cadáver de Nepeta Leijon… e, um pouco mais tarde, Nepetasprite é prototipada com Davesprite, o que causa uma fusão de ambes, que se chama Davepetasprite^2 (Davepeta, para resumir).


    Fonte

    Como Davepeta é uma fusão de um guri com uma guria, Davepeta expressa confusão sobre o próprio gênero, e depois começa a se referir a si mesme com they/them. Como Davepeta mostra essa confusão sobre gênero e passa a se referir a si mesme com pronomes neutros, considero Davepeta uma representação melhor para pessoas não-binárias do que Stevonnie, até o momento.

    Como Davepeta só passa a existir no finalzinho de Homestuck, não posso reclamar que não houve tempo suficiente dedicado a explorar Davepeta, já que haviam outras coisas a serem fechadas na comic também.

    De qualquer forma, nem “a fusão de um guri com uma guria” e nem “alguém cujo gênero está aberto para especulação” representam a experiência geral de pessoas não-binárias. Admito que é legalzinho ter pessoas que utilizem os mesmos pronomes que eu uso em inglês em outras mídias, mas essas “representações” meia-boca não merecem metade do alarde que possuem em círculos ativistas.

    Tipo, não adianta ter um monte de gente reforçando que tal personagem é NB e usa os mesmos pronomes do que os meus, e que isso é importante, enquanto comunidades em outros lugares casualmente se referem a estus personagens como ela/mulher, ou como ele/homem, porque “isso não importa”, sendo que essas pessoas utilizariam os pronomes certos para outres personagens.

    Então, o que eu gostaria de ter em personagens não-bináries, para que eles não fiquem tão ~no ar~?

    • Tais personagens devem falar sobre seu gênero, pelo menos de uma maneira que deixe explícito de que não são homens e nem mulheres;
    • Tais personagens não devem estar restrites a serem fusões, ou aliens, ou monstros, ou qualquer outra coisa que uma pessoa não-binária na vida real não possa ser. Não que aliens ou fusões não possam ser não-bináries, mas a representação não deve ser só essa;
    • Tais personagens não devem ser restrites a pronomes como they/them. Existem pronomes como ze/zir, ey/em, e fae/faer, por exemplo. Caso os pronomes sejam they/them, ou pronomes associados a gêneros binários, deve estar extra explícito que tal pessoa não-binária tem motivos X e Y para utilizarem tais pronomes, e que they/them não pode ser traduzido como “eles”;
    • Criadores devem deixar claro que seus personagens são daquele jeito assim como outres personagens são de outros jeitos, e que chamar tais personagens pela linguagem errada porque é normal ou mais prático vai contra o canon daquela mídia.

    Não faço questão de que todas essas coisas existam em todes es personagens não-bináries, mas ao menos um destes itens deve ser preenchido completamente.

    Entendo que isso pode parecer meio exagerado porque não acontece com outros casos, mas vivemos em uma sociedade exorsexista onde gêneros não-binários vão ser ignorados a não ser que não seja possível de ignorá-los.

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    • Este tópico foi modificado 6 meses atrás por  Tath.
    #1450 Quote

    Mimi
    • -/ély/y
    • i/éli/i

    Participante

    fora que essa “representação nb” tá aparecendo em mídia onde não existe representação trans

    personagens de gênero ambíguo não são uma ideia tão nova, é muito suspeito que já exista representação não-binária quando o resto do progresso está no lgb e não no t

    se houvesse mais de um personagem nb, ou sei lá, até trans binário, daria pra acreditar mais nas boas intenções da representação

    mas aí com cuidado, para a representação trans não ser considerada a verdadeira e certa enquanto a nb é a errada para pessoas confusas e tal, né

    m i m i
    (não há aprendizado sem dor.)

    #1460 Quote

    Tath
    • ed/eld/e
    • -/éli/e

    Mestre

    Nice catch! É, embora esses exemplos geralmente possuam representação LGM+, eles não possuem exemplos trans canon.

    Até esses exemplos não-binários são meio cisnormativos, porque simplesmente /são/ e o resto respeita, e a maioria nem tem mais características codificadas como de um gênero binário do que de outro, o que é outro padrão absurdo que pessoas não-binárias geralmente não preenchem.

    E, como você disse, não haveria problema se fosse um exemplo no meio de vários, mas não é esse o caso. :I

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